terça-feira, 5 de abril de 2011

Ilusão da Gratuidade

Já esclareço: Não existe nada de graça. A gratuidade é uma ilusão, pois no fim alguém sempre acaba pagando pelo "gratuito".

Serviço Público Gratuito de Saúde? Não é gratuito! O seu custo está lá embutido nos impostos pagos. Serviço Público de Transporte Gratuito? Não é gratuito! Também está lá embutido nos impostos. Segurança alimentar? Bolsas? Ensino Público?

Tudo isto está embutido nos impostos.

Então cabe uma lição aqui: quando se fala em cortar impostos, se fala em cortar estes serviços. Ah, já vejo os protestos: "Mas basta acabar com a corrupção que pode cortar impostos!"

Sim, basta acabar com a corrupção que podemos DIMINUIR impostos (não cortá-los) e manter estes serviços. E aí vejo dois problemas:

  1. Acabar com a corrupção - como um amigo meu já me disse: "Sério Cara? Por que ninguém pensou nisso antes?". Em outras palavras, esta é uma tarefa mais simples de falar do que fazer. Há indícios assustadores que a corrupção tende a piorar com o tamanho da estrutura necessária para administrar um determinado serviço. E serviços com um larga base de usuários tendem a ser naturalmente grandes.
  2. Cortar impostos - cortar impostos significa simplesmente diminuir o escopo de atuação dos serviços. Sim, é possível se fazer mais com menos, mas de novo existem limites. Aumentar a eficiência de novo bate nos limites do 100%. Não dá para passar disso (quem diz dar 110% de si para o trabalho claramente não aprendeu o que significa percentagem).

Então no fundo: sempre tem um pagador para o serviço. O argumento da gratuidade é no fundo um pega-trouxa (afinal quem não quer receber sem ter dar alguma contrapartida?).

A pergunta que deve ser feita é: esta é a melhor forma de fazer? Bem, aí temos respostas não muito claras. Originalmente o Estado tende ser um árbitro pior em média do que uma pessoa. No entanto, não é possível afirmar que o Estado é um árbitro pior em média do que uma pessoa em média. A sutileza do raciocínio é a seguinte: como as pessoas podem tomar decisões boas ou ruins, o comportamento médio destas decisões boas e ruins não pode ser afirmado como melhor que o arbítrio médio do Estado.

O que se pode afirmar é que há situações aonde a pessoa é melhor árbitro em média e há situações aonde o Estado é melhor árbitro em média. O senso comum é que pessoas esclarecidas e educadas podem tomar decisões melhores em média do que o Estado em média. Infelizmente mesmo esta afirmação pode não ser comprovada integralmente.

Mas existem situações aonde faz mais sentido que indivíduos sejam responsáveis pelo custo, ao invés da população inteira ser responsável pelo mesmo. Estas situações ocorrem aonde nem todos usufruem do serviço diretamente (o imposto de estradas e rodagem é um caso assim - se for usado para estradas e rodagem). Neste caso, o custo de uma estrada não é rateado apenas entre seus usuários mas todo o universo pagante de impostos.

Pode-se argumentar que na realidade este método elimina mais uma componente no preço de venda de mercadorias (devido ao transporte). Mas o que ele faz é mudar as condições de custo para mercadorias próximas e distantes (tornando as mais distantes ligeiramente mais competitivas).

Então, de graça? Nem injeção na testa!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Calaboca Bolsonaro? E como fica a liberdade de expressão?

Esta é a grande questão: como podemos defender a liberdade de expressão e proibir alguém de expressar alguma coisa?

Ehhh... Não dá! Ah, mas há iluminados que dizem que a liberdade de expressão não pode servir para algo que é moralmente repreensível. Será que este pessoal já viu The People vs Larry Flint? Ali tinhamos algo que poderia ser considerado moralmente repreensível, e aí?

O problema da liberdade de expressão é justamente o de garantir o direito de alguém expressar algo que você detesta intimamente com todas as forças. Este é o verdadeiro teste.

E claro que limitar a liberdade de expressão e decidir na existência de crime de idéias ou palavras está no mesmo saco. Ao limitarmos a liberdade de expressão estamos definindo uma nova categoria de crimes: crimes de pensamento.

É desnecessário dizer que esta estrada é longa, escorregadia e particularmente perigosa.

E claro, você sabem de onde vem o termo crime de pensamento, não? Talvez o termo em inglês seja mais familiar:

Thoughtcrime

domingo, 3 de abril de 2011

3 anos da Invasão da Reitoria da UnB

Hoje estão fazendo 3 anos da invasão da reitoria da UnB. Foi bom? Foi ruim? Deixo para cada um tomar esta decisão.

Temos aqui uma reportagem da Folha:

O cheiro quase insuportável que emanava dos banheiros do gabinete do reitor da UnB (Universidade de Brasília) e a luz só de velas não desanimaram os cerca de 80 estudantes-invasores que decidiram passar a noite no local. Eles invadiram anteontem o gabinete do reitor Timothy Mulholland, por volta das 14h30, pedindo a saída dele e de seu vice, Edgar Mamya.
Folha acompanhou as 18 primeiras horas da invasão, ao lado dos estudantes. Às 8h20 de ontem, foi convidada a se retirar. Durante a noite, foi possível identificar o cheiro de maconha no local.
O espaço foi informalmente dividido em quatro grandes ambientes e algumas áreas mais reservadas. Na entrada, o grupo dos rapazes "mais fortes" se concentrava em vigiar a porta e evitar uma possível entrada da polícia. Eles se revezaram em turnos e dormiram pelo chão.


Naturalmente, a situação não simplificou:

A PF (Polícia Federal) informou que está negociando a saída pacífica dos estudantes que ocupam desde quinta-feira passada (03) o prédio da reitoria da (Universidade de Brasília). A 17ª Vara da Justiça Federal do DF determinou na sexta-feira que os estudantes desocupassem o gabinete do reitor Timothy Mulholland.
Os estudantes não só descumpriram a decisão da Justiça como decidiram manter e ampliar a ocupação, em assembléia realizada ontem. Representantes do DCE (Diretório Central dos Estudantes) informaram que iriam recorrer da decisão na Justiça. A ocupação foi estendida para cinco andares do prédio da reitoria.


Mesmo o reitor acenou com propostas para satisfazer os estudantes:

O reitor da UnB (Universidade de Brasília), Timothy Mulholland, disse hoje que pretende atender parte das reivindicações feitas dos estudantes da instituição. Um grupo de 200 alunos invadiu na quinta-feira passada o gabinete do reitor. A ocupação foi ampliada ontem e agora atinge os cinco andares da reitoria.
"A reitoria está mostrando um esforço grande para chegar até eles. Queremos trabalhar juntos na coletividade que se busca caminhos e se amadurece soluções", diz Mulholland.
Entre as reivindicações que Mulholland diz que serão atendidas estão a ampliação da universidade, aumento do número de professores, reforma da Casa do Estudante, construção de prédios da UnB em duas cidades-satélites, revisão da relação das fundações com UnB, reexame da escolha do reitor e aumento de vaga para bolsistas.


Mesmo o senador Cristovam pediu ao reitor que se afastasse temporariamente do cargo:

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) sugeriu hoje que o reitor da UnB (Universidade de Brasília), Timothy Mulholland, peça licença do cargo para evitar que os estudantes acampados na reitoria da universidade sejam retirados, a força, pela Polícia Federal. Cristovam teme que a decisão dos estudantes de permanecerem na reitoria, mesmo após o fim do prazo estipulado pela PF para que deixem o local, transforme a UnB em palco de violência.
Do plenário do Senado, Cristovam fez o apelo para que o reitor apenas se afaste temporariamente do cargo porque disse acreditar que a renúncia está descartada por Mulholland. Por outro lado, reconheceu que os estudantes também não estão dispostos a desocuparem o prédio se o reitor permanecer no cargo.


Pouco lembrado é o fato que a SECOM soltou uma nota a respeito:

1 – O movimento dos estudantes foi influenciado e teve participação direta de professores da instituição, ligados ao movimento sindical e partidário, que incitaram a invasão;
2 – Durante a invasão da Reitoria, os estudantes arrombaram e quebraram uma porta e outros itens do gabinete;
3 – O afastamento do Reitor e do Vice-reitor de seus cargos e funções não é ponto de negociação. A administração foi eleita legitima e democraticamente pela votação mais expressiva da história da instituição. O Reitor tem mandato de quatro anos, que se encerra em novembro de 2009, nomeado pelo Presidente da República. Além disso, não é réu e nem sequer tem qualquer processo contra sua pessoa;
4 – A Reitoria da UnB tem total disposição para dialogar com os estudantes, mas demanda que os espaços ocupados sejam liberados. A manutenção dos manifestantes nos ambientes administrativos prejudica o andamento de processos da universidade, inclusive aqueles que dizem respeito aos próprios estudantes, como a definição de recursos para a assistência estudantil e a reforma da Casa do Estudante Universitário, processos esses que têm prazos definidos para a utilização de recursos;
5 – A Reitoria da UnB tem uma equipe designada para a negociação com os estudantes e espera colaboração dos alunos invasores para que se consiga a melhor solução possível para o impasse.


O final todos sabemos:

O reitor da UnB (Universidade de Brasília), Timothy Mulholland, renunciou ao cargo. O pedido de exoneração será encaminhado ao Ministério da Educação. Ele estava afastado desde quinta-feira pelo prazo de 60 dias. A diretoria da UnB e o ministro da Educação, Fernando Haddad, discutem a substituição.
Na reunião também será discutida a posição a ser tomada em relação à ocupação dos estudantes na reitoria. Os estudantes da universidade, que ocupam a reitoria desde o último dia 3, não devem participar do encontro.


O que foi certo e o que foi errado? O que foi conquistado?

Quais as conseqüências de tudo isso?

quinta-feira, 31 de março de 2011

Pequenas Pérolas do Cinema

Decidi incluir uma seção de Filmes com clipes de algumas das jóias do cinema. Na realidade é uma peça de opinião e matéria de debate. Mas eu vou explicar porque gosto dos filmes.

Primeiro da Lista (não é o melhor, mas é uma pequena jóia): The Quiet Earth

Precisamente às 6:12 Zac Hobswan morre. E a terra se torna silenciosa...



O filme trata do mundo sem ninguém. Sem ninguém? Bem, nem tanto... Mas o final..., ah que final!

Por que eu gosto deste filme? Bem, primeiro é uma boa história. Naturalmente ele trata de algo da natureza humana na mais absoluta solidão, como isto afeta o comportamento e como nos definimos pela presença das outras pessoas e assuntos afins.

Mas também trata de culpa, do medo, da incerteza, do valor, da redenção e de expectativas...

No fundo é uma boa história, com vários níveis de profundidade e várias interpretações. Dá para assistir como uma boa diversão e ver novamente com outros olhos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Escolhas racionais? Nem tanto...

Há uma corrente econômica e social que se baseia na idéia que os agentes (pessoas) realizam escolhas racionais para tomar decisões. Em cima desta premissa é montado um edifício de argumentos teóricos para determinar o uso racional de recursos. No fundo isto está ligada a idéia de maximização da utilidade.

Mas como sempre, há uma pedra no meio do caminho. Quem disse que nossas escolhas são racionais? A verdade é que percebemos de modo diferente o ganho e a perda. Não é apenas uma questão de maximização do ganho, mas também uma questão de minimização da perda. E a questão é como percebemos perda.

Na teoria o agente tem reações racionais a perda. Mas na realidade não funcionamos assim.

E isto é mais sério do que parece.

Em termos simples, esta questão pode ser enunciada em termos de perdas certas e ganhos prováveis. Mesmo que as duas sejam matematicamente iguais, tendemos a escolher o lado dos ganhos prováveis.

Na realidade é pior: tendemos a escolher o lado dos ganhos prováveis mesmo quando são menos prováveis do que a perda certa.

Quer um exemplo?

Considere que estão passando dois filmes (X e Y) em cinemas próximos. Você queria ver X, mas estava lotado e com isso você compra o ticket para ver Y (que não é tão ruim, mas não é o filme X).


Até aqui está Ok.


Agora no caminho da bilheteria para a entrada do cinema, alguém lhe dá o ingresso de X e vai embora. Você vai ver X (que você não pagou nada) ou Y (que você pagou do seu dinheirinho para ver)?

A grande maioria vai ver Y, mesmo sendo X o filme que originalmente queria ver e mesmo que ECONOMICAMENTE a compra do ticket de Y equivale a compra do ticket de X.

E o mais interessante é que irão surgir literalmente dezenas de explicações para este comportamento aparentemente irracional: a mais comum é "Ah, já comprei este aqui. Depois eu vejo o outro".

É este tipo de comportamento que estimula o crescimento de bolhas econômicas e outras tragédias mais ou menos comuns do dia-a-dia (um exemplo é manter uma decisão ruim só para não se retratar).

Isto é intrínseco à nós mesmos. E temos de reconhecer isto e quando possível consertar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A revolução de Primeiro de Abril

Não, este post não é para falar mal ou bem do acontecido em 1964. O ponto é outro: como as pessoas torcem o que aconteceu de acordo com suas conveniências.

Vamos aos fatos, em 13 de março de 1964, Jango fez seu famoso comício das reformas de base na Central do Brasil. Cerca de 200 mil pessoas estiveram presentes (entre eles um certo estudante chamado José Serra). Fala-se que este foi o estopim para o golpe.

Mas no dia 19 de março uma passeata ainda maior foi realizada em São Paulo. Esta foi a famosa marcha da família com Deus pela liberdade. Só que a passeata foi contrária ao teor do comício de Jango.

Qual é a lição? Havia uma polarização naquela época. Esta polarização não era povo contra militares. Mas "povo contra povo".

Mas não é só isso. Em 2 de abril de 1964 realizou-se no Rio de Janeiro a Marcha da Vitória. Nela participaram cerca de 1 milhão de pessoas.

Ou seja: havia uma pancada de gente civil apoiando a tomada do poder pelos militares. Isto derruba novamente a tese do "povo contra militares" e reafirma a tese do "povo contra povo".

Este esquecimento que o golpe teve apoio popular é proposital. É algo que podemos encontrar hoje na política e mesmo no comportamento geral da sociedade. Falha de caráter? Não creio que chegue a tanto, talvez seja um pouco de vergonha.

Mas a coisa não para por aqui... Bem antes, em 1961 já havia muita gente querendo fazer revolução nos moldes cubanos no Brasil. As sementes do "povo contra povo" foram lançadas bem antes de 1964.

Mais sobre o Filme de Moore

O problema do cinema documental é que ele é um daqueles meios aonde o ponto de vista do cineasta tende a ser aceito como a verdade. Só que é só ponto de vista.

Um exemplo: há diversas cenas de pessoas que perderam suas casas. Mas a enorme maioria foi porque tomaram um segundo mortgage na própria casa. São vítimas? Certamente que sim, são vítimas da dinâmica de uma bolha imobiliária. Mas como todo golpe (confidence scam), não é possível negar a parcela de culpa involuntária na entrada do mesmo.

Tudo isto que falei não tira força de parte da crítica de Moore, afinal as empresas podem eventualmente burlar leis na sua busca do lucro. O caso do seguro dead peasants é bastante emblemático (se o mesmo for realizado sem a anuência do segurado). Mas o documentário por vezes não deixa claro se o seguro foi ou não realizado com esta anuência.

No caso das grandes corporações, o que se vê é a velha mistura entre o público e o privado. O fundo de bilhões de dólares usado no resgate de vários bancos é uma contradição viva da máxima do capitalismo de competição equilibrada (sem jogo sujo). Pior ainda é contrário ao espírito do capitalismo de ganhos e perdas. Ao socializarmos a perda e privatizarmos o ganho não estamos seguindo este espírito.

Ao traçarmos um paralelo entre a competição na ecologia e nos mercados vemos que não há porque esperar que empresas perdurem indefinidamente. Mercados de oportunidade (como o de aluguel de fitas de vídeo) tem data para acabar. Já outros mercados podem até não ter data, mas certamente esquecem de componentes de sazonalidade que modificam a taxa de sucesso destes mercados.

Então, é possível esperar que após um determinado número de anos, uma empresa considerada antes como pilar de sustentação do mercado entre em colapso. O que não é possível prever é quando isto vai acontecer.

No caso dos empregados, o melhor a fazer é manter algum tipo de previdência para caso/ quando isto acontecer, todos tenham alguma forma de sustento adequada. E daí as loucuras de bolhas financeiras costumam falar mais alto do que a racionalidade financeira - e aí empresários e empregados apostos por vezes sem o colateral necessário.

domingo, 27 de março de 2011

Capitalism - a love story

O título já dá uma idéia. É o filme de Michael Moore que vi hoje. Aqui temos um pedaço do trailer.


Naturalmente, mesmo com o valor de entretenimento e crítica, o filme continua sendo uma visão do autor sobre o capitalismo. E com isto não pode ser tomado inteiramente como "a verdade".

Algo que me chamou a atenção foi a confusão entre o capitalismo e democracia. Não existe antagonismo real entre os dois. Não existe porque um é sistema econômico e outro é sistema de governo. O antagonismo é falso, e dentro do próprio filme isto é perfeitamente possível de ver.

Infelizmente, ele passa esta idéia do antagonismo ligando o sistema eleitoral a uma manipulação dos poderosos (cheios de dinheiro na concepção de Moore). Na realidade isto não é exclusivo do capitalismo e já acompanha governos já a muito tempo. No fundo é o velho problema de socializar a miséria e privatizar o lucro.

Este tipo de situação é mais comum quando o Estado ajuda interesses privados ao invés de interesses públicos (se isto soa como uma característica do Brasil, acreditem não é só aqui. Aqui temos o negócio mais descarado apenas).

E no fundo, muitas das críticas de Moore encaixam-se como uma luva na questão do público versus privado. Naturalmente temos de esquecer os tiques de teoria de conspiração, o que aconteceu beirou mesmo o desespero. E o medo vende muito bem mesmo.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A solução simples, e frequentemente errada

Nesta quarta teve o julgamento no STF a respeito do ficha limpa. Sem dúvida foi um momento complicado quando a aplicação do mesmo para as eleições do ano passado foi derrubada. Mas aí esta uma lição que temos de aprender de um modo ou de outro.

A lição é simples: problemas tem em geral diversas soluções. Mas dentro destas soluções existe um conjunto que traz novos problemas sem necessariamente resolver a questão original. Normalmente, estas soluções são usadas quando não se conhece direito o problema, se procura resolver o problema errado, ou não se sabe exatamente o que a resolução do problema irá causar.

A idéia do ficha limpa é boa. Mas da forma que foi feita iria eventualmente causar mais dano do que bem. Esta é uma lição difícil de aprender, principalmente quando o benefício imediato é muito bom. E aí vem a regra: se parece muito bom então provavelmente não é.

Então sabemos que a Lei Ficha Limpa tem problemas. Como resolvê-los?

Aqui eu faço algumas sugestões:
  1. A lei não poderá revogar a vontade popular. Em termos simples, isto é a famosa decisão no tapetão. Em suma usa-se o judiciário para "consertar" os erros da vontade popular. Bem, isto não é muito democrático e simplesmente transfere o poder de decidir do eleitor para os juízes.
  2. A lei não pode punir algo que não era crime. Pode-se argumentar o que quiser sobre o ato jurídico perfeito, mas quando se tenta torcer a causalidade, temos uma série de situações que são, apropriadamente, chamada de paradoxos. E uma das características destes paradoxos é que eles tendem a destruir a construção que se deseja preservar (como defender a consistência de uma lei se ela vale para antes de ter sido criada?)
  3. A lei não pode punir sem julgamento. A definição de um ficha suja tem que ser absolutamente clara e transparente não só para sociedade, mas para o conjunto de regras de chamamos de Leis. Se esta definição for estabelecida por um grupo de representatividade limitada, então qualquer pode ser um ficha suja dependendo do grupo que o julgar.
Naturalmente, um grande problema que não é da Lei Ficha Limpa, mas da justiça brasileira é que o ritmo judicial é extremamente lento. Mas aí estamos querendo criar uma lei que funcione como um atalho nestes caminhos. Isto é terreno delicado, mas existem soluções possíveis.
  1. A primeira delas é que a Lei tem de satisfazer a vontade popular. Logo não pode ser usada para cassar políticos após a eleição. Ela só deve ser usada como critério para permitir a inscrição de políticos ao pleito. Assim, o político que não satisfaz os critérios do Ficha Limpa não pode ter sua inscrição homologada.
  2. A segunda delas é que a Lei tem que satisfazer a causalidade. Não se pode impedir a inscrição de alguém que realizou algum ato que era perfeitamente lícito na época que aconteceu e depois passou a ser ilícito por lei posterior. Este é o tipo de estrada que desagua na arbitrariedade.
  3. A terceira delas é que a Lei tem que satisfazer o direito a ampla defesa. Ou seja, só vale para casos que são considerados crimes julgados. Não basta só que o candidato tenha renunciado para escapar de um julgamento anterior. A solução é que na existência de uma denúncia formal, a renúncia deveria desqualificar o candidato até que fosse julgada a pertinência da denúncia (algo não dissimilar ao julgamento in absentia).
Assim, o problema tem conserto. Mas precisa ser consertado

quinta-feira, 24 de março de 2011

Alunos da Faculdade do Gama pedem para resolver o problema

Vocês estão vendo aos alunos da FGA ocupando a reitoria por conta dos atrasos na demora da entrega do campos. E por conta disso mesmo, resolvi incluir um pequeno comentário de Max Gehringer que tem alguma pertinência com a situação.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Notícia Maluca

Eu tenho minhas reclamações com as notícias da SECOM, mas esta aqui bateu o recorde:

Na UnB Ceilândia, os alunos também realizam assembleia sobre a conclusão de sua sede definitiva. Prevista para ser entregue em abril, a construção é de responsabilidade da Novacap. Sem o novo prédio, algumas disciplinas optativas e de laboratórios não podem ser ofertadas. As aulas já começaram e acontecem normalmente

Alguém me explique como fazer sentido desta notícia. Algumas disciplinas optativas e laboratórios não podem ser ofertados, mas as aulas já começaram e acontecem normalmente?

Exatamente qual é o sentido de normal que foi utilizado na sentença?

Papel guardado na gaveta

Já me disseram várias vezes que objetos guardados por muito tempo indicam o grau de sua inutilidade. Bem, eu não concordo muito com isso, mas devo dizer que em termos de informática um arquivo com mais de 2 anos sem acesso muito provavelmente não serve para nada.

E isto me leva a dois pontos: ontem resolvi apagar uma conta que não acessava fazia pelo menos 2 anos. Eu nem fazia idéia dos arquivos que lá estavam. E além do mais, eu tinha acabado de fazer backup. Bem, neste ponto eu tenho que informar algo: no mesmo computador eu tinha outra conta que acessava bastante, não havia nenhum dia que eu não fizesse login.

Pois bem, evidentemente eu apaguei a conta errada.

Felizmente lembrei que havia feito o backup e com isto o problema real era apenas os programas que porventura eu tivesse instalado naquela conta apenas. Bem, depois de racionalizar um pouco eu vi que não havia razão para pânico.

Mas isto me deixou pensando em alguma práticas boas que fiz naquela conta. A mais interessante é que eu não guardava nada na pasta privada, mas na pasta pública. Eu sei que isto torna tudo um pouco mais inseguro, mas definitivamente é uma forma de alívio caso precise acessar o material de outra conta.

O que me leva ao segundo ponto: há práticas que podem ser seguidas de forma a evitar a perda dos dados. A primeira dela é redundância (backups). Mas a mais importante delas é o uso.

Sim, pois se não usarmos então realmente não nos interessa (pode interessar a outros, mas certamente não é nossa prioridade). E a menos que sejamos muito organizados, em pouco tempo não saberemos sequer para que servia aquela informação.

Cada diretório deveria ter uma explicação sobre o que são os arquivos naquele diretório. Ou seja, algo que fosse composto por uma lista descrevendo algumas funcionalidades. Está complicado demais? Que tal desenvolver TAGS para os arquivos? Se os arquivos tem TAGS fica mais fácil de identifica-los.

Naturalmente, todas as alternativas para se evitar a obsolecência de arquivos guardados em computadores envolve alguma dose de trabalho NA CRIAÇÃO DO ARQUIVO.

Pena que somos, na maioria, muito preguiçosos

terça-feira, 22 de março de 2011

Uma época de iluminação

Acredito que vivemos hoje uma época de iluminação. Não pela clareza dos eventos, mas pela contradição de suas interpretação. Paradoxal? Nem tanto...

Pense da seguinte forma: alguém dá uma interpretação para um evento mundial (histórico de preferência - como as revoltas na Líbia). Daí poucos dias depois, há determinado desenvolvimento que contradiz de modo inequívoco a interpretação oferecida anteriormente.

Ao confrontarmos o "interpretador" com a realidade vemos: contemporização, auto-engano, má-fé ou a velha e boa estupidez.

Vamos ao caso da Líbia. Temos gente favorável à intervenção e contrário a intervenção. Mas sabe que grande parte dos dois lados é contra o Kadafi? Yep, mesmo o pessoal contra intervenção é contra Kadafi na sua maioria.

Mas então qual é a proposta deles? Que a queda de Kadafi seja fruto exclusivo da revolta popular - sem auxílio do potências estrangeiras. Mas o problema é que isto não estava acontecendo, Kadafi estava esmagando a revolta (possivelmente matando os rebeldes).

E aí? Como ficam? Ao defender a inação, defende-se o tirano? E os exemplos aonde a inação levou à morte de muita gente (Darfur e Ruanda vem logo à memória). Então inação levará parte da população à morte.

Mas a coisa fica mais interessante: uma ação também deve levar parte da população à morte. Isso sem falar na questão da resolução da ONU (que é completamente maluca - praticamente toma partido em problemas internos da Líbia.

Mas isto não impediu que os tolos de plantão fizessem suas análise tolas.

Só que a pergunta realmente importante é: qual é o caminho do menor mal?

Eu não sei a resposta

Uma nova forma de arte?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Reclamações na Telefonia Celular

Todos falam que a campeão de reclamações é a telefonia celular. Isto é absolutamente verdadeiro e ao mesmo tempo não conta toda a história.

Dependendo de como fazemos os cálculos a telefonia celular pode ficar muito ruim ou muito boa. Como é possível? Bem, nos dados brutos não há menor dúvida: telefonia celular é realmente a líder de reclamações.

No anuário do Procon de SP temos:

  1. Telefônica (Fixo)- com 3134 reclamações
  2. Claro - com 925 reclamações
  3. Eletropaulo - com 863 reclamações
  4. Net  - com 692 reclamações
  5. Oi - com 665 reclamações
  6. TIM  - com 574 reclamações

Então não há margens para dúvidas, certo?

Beemmm, depende... Se olharmos a base de consumidores envolvida veremos que de repente o ranking nacional passa a ter outro significado. Temos que o número passa a ser
  1. TIM - 4.59 reclamações a cada 100 mil aparelhos
  2. Oi - 8.40 reclamações a cada 100 mil aparelhos
  3. Claro - 6.26 reclamações a cada 100 mil aparelhos
  4. Vivo - 1.54 reclamações a cada 100 mil aparelhos
Faça as contas da percentagem de reclamações por aparelhos... Naturalmente vai dar CPI.

Mais de Jaqueline

Não, não estou defendendo o que ela fez. Estou mostrando o que realmente está acontecendo. Em notícia hoje, o integrante do Conselho de Ética da Câmara afirmou:

- Ética não Caduca!

Certíssimo. Mas vamos ao momento "atire a primeira pedra"? Pois bem, o autor da frase deputado Assis Carvalho deveria lembrar que ele mesmo andou mentindo - e sendo descoberto.

Como?

Ora, ele afirmou que não há inquérito policial do STF aonde ele é acusado de suposta prática de delito.

Veja o que ele disse:

Nunca houve, quando da gestão do deputado Assis Carvalho, qualquer forma de apropriação indébita previdenciária. O próprio INSS, em despacho do Processo 10384.007561/2008-91, isentou o gestor Assis Carvalho de qualquer responsabilidade, com base nas leis 11.941/09 e 12.024/09. A consulta ao processo, em caso de dúvida, pode ser feita na Secretaria da Receita Federal.
Não existe qualquer processo no STF contra o deputado Assis Carvalho, mas tão somente um pedido do Ministério Público Federal àquela corte para que pudesse investigar suposta irregularidade, tendo em vista que o deputado tem foro privilegiado.
Por fim, não há motivo para investigação por parte do Ministério Público Federal, considerando ser esta matéria superada e inclusive arquivada no INSS. Desta feita, o deputado Assis Carvalho, por meio de sua assessoria jurídica tomará as devidas providências a fim de extinguir tal procedimento investigatório.


Infelizmente, ele mentiu.


Um pequeno adendo: naturalmente, o deputado pode muito bem ser totalmente inocente de todas as acusações. O ponto aqui é que ele deveria saber que não se deve julgar antes de conhecer todos os fatos - ou pelo menos um conjunto razoável dos mesmos.

Posar como guardião da moralidade é complicado quando existe alguma sombra sobre o manto da ética, a qual poderia ser facilmente ser confundida com uma mancha verdadeira.

E, vejam só, nem falei da questão que o partido dele também tem manchas verdadeira no próprio manto.

O elefante na sala

Ao ler sobre as aventuras de Durval Barbosa e Jaqueline Roriz não posso deixar de pensar no óbvio. A própria promotoria parece que acordou de sua letargia. O vídeo de Jaqueline e o mais recente com o próprio Durval deixam claro o uso dos mesmos com finalidades de extorsão.
Podem ver aqui mesmo

E daí?
Bem, a divulgação destes dois últimos vídeos indicam duas coisas:

  1. A promotoria e a PF não possuem controle nenhum sobre os mesmo. Ou na pior hipótese: são cúmplices de Durval Barbosa
  2. O esquema de extorsão continua funcionando, bem como o uso político das fitas. Como a gravação de Jaqueline é de 2006 não há desculpas sem inclusão de má-fé para vazamento depois da posse ao invés de em conjunto com as demais gravações

E aí fica configurado o seguinte quadro: O interesse dos envolvidos aqui não é resolver o problema e punir os culpados, mas alavancar seus próprios interesses não importando que regras sejam quebradas.

Em outras palavras: não há mocinhos

sábado, 12 de março de 2011

Os acidentes de Carnaval - Probabilidades

Sob a ótica da probabilidade, as chances de vítimas fatais em acidentes não mudaram muito desde 2003. A média fica em torno de 1 vítima fatal a cada 18 acidentes:


  • 2003 - 1 a cada  21.6569
  • 2004 - 1 a cada  16.0544
  • 2005 - 1 a cada  14.3446
  • 2006 - 1 a cada  17.7460
  • 2007 - 1 a cada  16.2621
  • 2008 - 1 a cada  18.7188
  • 2009 - 1 a cada  22.5591
  • 2010 - 1 a cada  22.6084
  • 2011 - 1 a cada  19.5540

A média dá 1 a cada 18.83. Se dividirmos o número total de acidentes pelo número total de vítimas chegamos a 1 a cada 18.72. Se fizermos o cálculo de 2003 a 2010 chegamos a 18.55 e de 2003 a 2009 chegamos a 1 a cada 17.93.

Então podemos assumir que as chances de 1 vítima fatal a cada 18 acidentes são mais ou menos constantes (Talvez 10 a cada 185 fosse melhor, mas a aproximação é razoável).

E com relação a frota? O número é próximo de 1 acidente a cada 18 mil veículos (o que dá para o Carnaval 1 vítima fatal a cada  340 mil veículos).. Mas há mais informações no Portal do Trânsito.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Os acidentes de Carnaval - histórico

Como todos feriados mais longos no Brasil, o Carnaval apresenta a tendência de aumento no número de vítimas fatais durante sua ocorrência

Graças a internet, podemos ver como a coisa vem evoluindo:

  • Em 2003 tivemos 2209 acidentes com 102 mortos
  • Em 2004 tivemos 2360 acidentes com 147 mortos
  • Em 2005 tivemos 2123 acidentes com 148 mortos
  • Em 2006 tivemos 2236 acidentes com 126 mortos
  • Em 2007 tivemos 2358 acidentes com 145 mortos
  • Em 2008 tivemos 2396 acidentes com 128 mortos
  • Em 2009 tivemos 2865 acidentes com 127 mortos
  • Em 2010 tivemos 3233 acidentes com 143 mortos
  • Em 2011 tivemos 4165 acidentes com 213 mortos


Notaram algo? Não? Vamos tentar calcular o coeficiente de correlação entre o número de acidentes e o número de mortos. O resultado é 0.785 - o que indica forte correlação. Mas a reta que descreve esta relação é dada por: número de vítimas = 0.0358 * número de acidentes + 46.96.

E aí a coisa começa a ficar estranha: se o número de acidentes for zero ainda teremos 47 vítimas? Certamente que não. Este problema é de modelagem. Se excluirmos o ano de 2011 teremos uma nova correlação: 0.1734. Esta correlação é baixa, que leva a uma equação bem diferente: número de vítimas = 0.0072 * número de acidentes + 115.49. Se excluirmos 2011 e 2010 a coisa fica ainda mais curiosa: o coeficiente de reflexão passa a ser negativo e igual a -0.0506. Isto para todos efeitos prático significa ausência de correlação. E a equação passa a ser: número de vítimas = -0.0034 * número de acidentes + 140.01.

Este é um indicador que pelo menos até 2009 o aumento no número de acidentes não causava necessariamente o aumento no número de vítimas. Ou seja, o número era mais ou menos estável. Este tipo de análise indica claramente que há mais fatores envolvendo ou favorecendo a ocorrência de vítimas fatais.


Qual seriam os outros parâmetros? Frota de veículos? Se relacionarmos a frota com o número de acidentes veremos uma curva quase quadrática. Então temos um relacionamento entre o número de acidentes e o número de veículos. Mas já quanto ao número de vítimas a coisa não é tão simples. A frota pode ser vista aqui:
  • 2003 - 36090450
  • 2004 - 37249677
  • 2005 - 39858284
  • 2006 - 42810617
  • 2007 - 46256874
  • 2008 - 50754344
  • 2009 - 55567617
  • 2010 - 60583473
  • 2011 - 64817974 (dezembro de 2010)
Talvez haja mais nesse modelo. Talvez exista um ponto de corte aonde um novo regime passa a ocorrer. Isto é difícil de ver aqui. 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Crédito, Custos e Capitalismo - o grande X da questão

Conforme já mencionei em outros posts anteriores, há certos elementos da sociedade que não aparecem na análise de "O Capital". Mas um elemento cuja ausência salta a vista é o crédito.

O crédito é central ao modelo capitalista. Mais ainda, o crédito barato é central ao modo capitalista. O fato é que a disponibilidade de recursos baratos para empreitadas é literalmente o cerne da coisa.

Vamos a um exemplo simples: vamos dizer que você precisa comprar um carro. Se seu salário é de R$ 3.000,00 e o carro custa R$ 16.000,00, então claramente você tem um problema. Como resolvê-lo? Há duas possibilidades: ou você economiza ou pede o dinheiro emprestado. Se economizar, dependendo dos seus gastos necessários, você pode comprar o carro em alguns meses/anos.

Vamos dizer que você economize e que dos R$ 3.000,00 você pode guardar R$ 1.000,00 por mês. Vamos supor ainda que ao economizar você ganhe um retorno de 1% para cada mês que você economizou. Então a seqüência é a seguinte:

  • Mês 1: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 1.000,00
  • Mês 2: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 2.010,00
  • Mês 3: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 3.030,10
  • Mês 4: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 4.060,40
  • Mês 5: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 5.100,00
  • Mês 6: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 6.152,02
  • Mês 7: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 7.213,54
  • Mês 8: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 8.285,67
  • Mês 9: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 9.368,53
  • Mês 10: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 10.462,21
  • Mês 11: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 11.566,83
  • Mês 12: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 12.682,50
  • Mês 13: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 13.809,33
  • Mês 14: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 14.947,42
  • Mês 15: economizou R$ 1.000,00 - total acumulado R$ 16.096,90

Então em 15 meses, você teria recursos suficientes para comprar o carro. Muito bem, esta é a primeira opção. Vamos a segunda, você pega um empréstimo de R$ 16.000,00 para comprar o carro. Evidente que o banco irá cobrar juros, mas por simplicidade vamos considerar o mesmo juro fixo de 1% ao mês. Vamos considerar que você só pode pagar também até os R$ 1.000,00 que seu orçamento suporta. Neste caso:

  • Mês 1: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 15.150,00
  • Mês 2: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 14.291,50
  • Mês 3: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 13.424,42
  • Mês 4: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 12.548,66
  • Mês 5: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 11.664,15
  • Mês 6: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 10.770,79
  • Mês 7: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 9.868,50
  • Mês 8: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 8.957,18
  • Mês 9: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 8.036,75
  • Mês 10: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 7.107,12
  • Mês 11: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 6.168,19
  • Mês 12: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 5.219,87
  • Mês 13: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 4.262,07
  • Mês 14: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 3.294,69
  • Mês 15: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 2.317,64
  • Mês 16: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 1.330,82
  • Mês 17: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 334,12
  • Mês 18: economizou R$ 337,47 - faltam R$ 0,00

Portanto, o efeito foi o de pagar R$ 18.000,00 ao invés de R$ 16.000,00 - 12.5% a mais. A desvantagem é que se paga a mais do que deveria pagar se ao invés disso usássemos o método de economizar. Mas a vantagem é que o bem estará imediatamente a disposição.

Muito bem, este é o caso que o bem não irá lhe render dinheiro. Mas vamos dizer que você use este carro como taxi. E como tal ele irá render algo mensalmente (vamos supor R$ 200,00 por mês). Se você usar este valor adicional no pagamento, de repente a idéia de se comprar a crédito (pagando juro não é tão ruim assim). Veja por si mesmo, ao invés de pagarmos R$ 1.000,00 por mês, passamos a pagar R$ 1.200,00 então:
  • Mês 1: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 14.180,00
  • Mês 2: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 13.736,00
  • Mês 3: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 12.661,36
  • Mês 4: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 11.575,97
  • Mês 5: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 10.479,73
  • Mês 6: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 9.352,53
  • Mês 7: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 8.254,26
  • Mês 8: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 7.124,80
  • Mês 9: economizou R$ 1.200,00 - faltam R$ 5.984,05
  • Mês 10: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 4.831,89
  • Mês 11: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 3.668,21
  • Mês 12: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 2.492,89
  • Mês 13: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 1.305,82
  • Mês 14: economizou R$ 1.000,00 - faltam R$ 106,88
  • Mês 15: economizou R$ 107,94 - faltam R$ 0,00

Então de repente, comprar a vista e a prazo deixam de ter diferenças significativas - tudo porque o bem que você comprou passou a render para você. Naturalmente, ao final destes 15 meses, o seu recurso disponível por mês passará de R$ 2.000,00 (lembre-se que você usava R$ 1.000,00 para pagar o banco, além do que o taxi lhe fornecia) para R$ 3.200,00 ao mês. Naturalmente, quanto maior o rendimento do negócio e quanto menor for o juro, menos tempo será necessário para pagar o banco.

Isto não estava no livro

terça-feira, 8 de março de 2011

Custos, Corrupção e Realidade - 8 bi versus 16 bi

Há uma percepção na sociedade brasileira de que o aumento dos custos de construção de obras públicas é devido a corrupção. Parte desta percepção é verdadeira, mas como tudo na realidade, parte dela é falsa.

Paralisar uma obra custa dinheiro. Isto não é causa direta de corrupção: uma paralisação por um longo tempo pode dobrar o custo de uma obra (ou mais). Se esquecermos o custo de mão de obra, equipamentos e outros fatores ponderáveis, sobra o efeito natural de desgaste que uma obra parada sofre - uma depreciação física. Dependendo do tempo que a obra ficar paralisada, a sua continuação pode acabar custando o mesmo que o início de obra nova ou até mais (pode ser necessária alguma demolição).

Então logo a primeira vista, vê-se que existe um equilíbrio entre o conceito de embargar uma obra e o conceito do uso eficiente de recursos públicos. Mas, como tudo por aqui, este problema raramente é investigado em detalhes ou sequer considerado problema (no Brasil resolver um problema não significa necessariamente encontrar e aplicar uma solução para o mesmo).

Mas esta não é a única questão. Estimar custos por si só é um esporte arriscado. Há muita dificuldade em determinar com precisão o custo de algum item. Vejamos um exemplo: a Copa de 2010 teve seus estádios custando o dobro do que inicialmente planejado. Mas isto não é nada comparado aos outros custos envolvidos. Claro que o uso dos Estádios na Copa não teriam como cobrir este custo.

Mas e outros países? Na Copa de 2006, a Alemanha investiu US$ 5 bilhões e teve um retorno aparente de US$ 12 bilhões.

O problema é que ninguém sabe direito como mensurar isto...

Dado que teremos uma Copa quase 8 anos depois da Alemanha e supondo 6% ao ano de inflação, no final de 8 anos temos cerca de US$ 8 bilhões. Isto levando em conta o que custaria na Alemanha.

No caso brasileiro não é nada a se espantar se isto ficar mais perto de US$ 16 bilhões.

Falei anteriormente da paralisação de obras e seu custo. Mas existe o outro lado da questão: acelerar uma obra também custa dinheiro. E pode muito bem custar o dobro ou mais do custo planejado.

No final das contas não há como se escapar: por incompetência, ignorância ou má-fé os custos da nossa Copa certamente serão maiores do que o esperado.

Mas não fique triste, o caso das Olimpiadas é ainda mais sério

segunda-feira, 7 de março de 2011

Teoria da Relatividade ou Teoria da Invariância?

Às vezes um nome é tudo. Pegue por exemplo o nome "Teoria da Relatividade", o que você pensa quando ouve algo assim? Que tudo é relativo?

E aí mora o problema. A Teoria da Relatividade de Einstein poderia ter muito bem se chamado Teoria da Invariância. E estaria dizendo precisamente a mesma coisa. Sabem por que? Porque um conceito central a teoria é justamente a invariância da velocidade da luz.

Yep. É isso mesmo, olhem só os postulados da Teoria da Relatividade:

  1. As leis que governam as mudanças de estado em quaisquer sistemas físicos tomam a mesma forma em quaisquer sistemas de coordenadas inerciais.
  2. A luz tem velocidade invariante igual a c em relação a qualquer sistema de coordenadas inercial.

Notaram que o imaginário do "relativo" não condiz muito bem com os postulados acima. Então aquela história de "tudo é relativo" é papo de quem não sabe do que está falando.

E nem vamos entrar na questão das tolices acerca do significado de que a Teoria da Evolução possui um sentido moral intrínseco.

Robert Cop e a Pirataria

Não há erro no título, eu realmente estou falando de Robert Cop. Ele bem que poderia ser considerado o garoto propaganda para pirataria de produtos (há sites com vários exemplos - alguns hilários)

A maioria destas imitações vêm da China. Mas este ponto é pouco relevante no contexto do problema (exceto, é claro pelo volume envolvido). O meu ponto é mais profundo: por que temos pirataria? Há muitas explicações. Mas o que está por trás da dinâmica é mais interessante: os piratas de produto existem porque há mercado para eles.

Para que desapareçam basta que este mercado seja economicamente inviável. Neste ponto é importante ressaltar que não são necessariamente ações de governo que favorecem a pirataria. Temos uma indústria por trás da mesma e não é uma coisa que possa se dizer que ninguém fazia idéia.

Não! A pirataria existe porque o mercado assim permite. Em poucas palavras, há uma série de regras no sistema que permitem que haja um mercado para produtos piratas. Estas regras podem ter sido determinadas pelos governos ou mesmo pelos participantes do mercado.

Eu suspeito que no fundo temos uma clássica situação de tentativa de monopólio sendo corroída por pessoas menos respeitadoras de regras que não condizem com o funcionamento do mercado em si. Nesta categoria temos toda uma série de produtos que acabam ficando "mais caros" do que o mercado deseja originalmente pagar.

Talvez haja questões mais profundas aí, advindas da questão dos frutos do trabalho e o que consiste no pagamento justo pelos frutos do trabalho (que não abala muito quando se fala de trabalhadores não especializados, mas causa comoções quando são de outro tipo).

No fundo a questão real é: até onde deve ir o copyright?

O Ovo ou a Galinha, ou o dilema Tostines

O público faz a audiência ou a audiência faz o público?

Esta é uma perguntinha difícil. Olhando a internet é possível encontrar gente que afirma categoricamente que a audiência (ou sua medição) é uma forma de influenciar o público e tornar o evento mais popular.

Mas não é de modo algum tão simples assim. Primeiro que este mecanismo de realimentação é muito menos poderoso do que se imagina (você olha o Ibope regularmente?). Há realmente uma componente social nesta situação. Só que não é nada tão poderoso quanto se tentar imaginar.

Se você parar para pensar vai ver que o controle que os teóricos da conspiração afirmam existir não pode ser real (senão ficava fácil mandar as pessoas obedecerem). Mas falta de lógica nunca impediu a propagação dos maiores absurdos..

Então vamos ver: idealmente a audiência é um forma de medir quantas pessoas estão assistindo, mas segundo alguns audiências muito elevadas irão causar aumento no número de pessoas? A primeira pergunta que vem a mente é: a partir de que ponto que isto acontece?

Se a audiência é uma função do público então: aud(pub). Idealmente aud(pub) = k* pub. Mas segundo esta idéia de inter-relacionamento então temos um conjunto: aud(pub) = k*pub e pub(aud) = w*aud

Pela relação de proporcionalidade e bijeção w=1/k. No fundo a segunda relação é a função inversa da primeira:

aud(pub) = k*pub = k*w*aud -> aud = aud

Para que haja esta relação de crescimento mútuo então teríamos de ter algo além da proporcionalidade. Vamos dizer então que aud(pub) = tanh(k*pub)

Para pequenos valores de k*pub, teremos a relação linear, enquanto para valores maiores teremos uma relação mais não linear. O problema é o seguinte: se aud(pub) é um percentual da audiência, então temos dois pontos fixos para satisfazer (0 e 1). No caso quando pub=1, aud =1 e quando pub=0, aud =0

Fica fácil de ver que este tipo de relacionamento é limitante:

Se tivermos uma relação linear aud= a0+a1*pub, neste caso a0=0 e a1=1
Se a a relação for quadrática temos: aud=a0+a1*pub+a2*pub^2. De novo a0=0, mas a1+a2=1 (e este relacionamento irá determinar o restante do problema).

Na medida que a1 for mais próximo de 1, então mais próximo do caso linear estaremos.

Muito bem, então temos esta relação. Ela não satisfaz a idéia que a aferição na audiência modifica a quantidade de pessoas, mas já mostra que pode existir polarização (que pode ser facilmente corrigida utilizando uma amostragem).

Mas é possível ver que para que haja este tipo de modificação na quantidade de pessoas é necessário algum mecanismo de realimentação.

E este mecanismo eu não consigo enxergar...

Então: se alguém lhe disser que uma pesquisa altera o universo amostral pergunte: E como o universo amostral sabe desta pesquisa e o que ela disse?

terça-feira, 1 de março de 2011

O Sujeito Oculto

Este post não sobre português, mas sobre os "responsáveis por nossos problemas".  Adiantando um pouco, se você quer saber os responsáveis por parte do problemas basta olhar no espelho.

É muito tentador culpar um "terceiro ator oculto" pelos problemas. Mas a culpabilidade é muito mais terrena. No fundo, este tipo de explicação é fruto da idéia do "inimigo externo", ou seja culpamos os americanos, espanhóis, portugueses, ingleses, patrões, e afins por problemas arbitrários.

Os exemplos são os mais variados e costumam ocorrer por duas razões: ignorância ou má-fé. Por vezes são criações "ad-hoc" para explicar o que não se conhece, por vezes são bodes expiatórios destinados a distrair todos dos culpados verdadeiros.

Mas qualquer que seja o caso, pode ter certeza de uma coisa: quando estes "sujeitos ocultos" surgem para "explicar" as causas do problema, eles realmente não fazem isto. Eles servem apenas como uma "face" para se atribuir culpa. Nesta triste situação, o mais importante é achar um culpado e não resolver o problema.

No fundo existe um vitimismo inerente na atribuição do "sujeito oculto". Expiamos nossas culpas em um cordeiro transformando em besta sacrificial enquanto permanecemos "puros".

No fundo é mesmo fugir de responsabilidade mesmo..

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Mentir, mas não totalmente

Uma das características mais interessantes dos dados que temos acesso no mundo moderno é justamente como é fácil mentir falando a verdade. Um exemplo: é perfeitamente possível um gestor dar um aumento a um orgão que na realidade se traduz como redução.

Sim, pode parecer contraditório, mas é bem real. Como as despesas são divididas em diversas rubricas, é possível aumentar em uma rubrica e diminuir em outra causando uma diminuição ao invés de um aumento (ou o reverso).

Por exemplo: a rubrica de custeio é substancialmente mais usada que a rubrica de bens de capital. Pode-se aumentar a rubrica de bens de capital (dobra-la até), e diminuir a de custeio. Dependendo da diminuição do custeio, o aumento da rubrica de bens de capital pode fazer pouca diferença (e temos de lembrar que bens de capital precisam ser comprados, via de regra através de licitação e devem atender uma série de regras bastante estritas).

Este tipo de mentira, aonde se fala parte da verdade, é possivelmente a mais comum que se vê em noticiários, programas políticos, discursos e planos de metas. É primariamente uma mentira, mas uma mentira embrulhada na verdade inegável.

Então temos vários exemplos: o parlamentar é seu representante, a qualidade subiu, a qualidade caiu, a bolsa subiu, a bolsa caiu e assim vai... No caso o parlamentar é seu representante mesmo, mas a questão é se ele está atuando como tal.  Em um sistema representativo, seu representante deve defender os interesses das pessoas que o colocaram lá. Se ele não faz isto, então está sendo um mau representante.

No caso da qualidade subiu ou caiu. O que subiu? É quantitativo ou qualitativo? Se é quantitativo, qual o percentual de alteração? Se é qualitativo, quantas pessoas foram consultadas? E o mais importante: como é definida esta qualidade e como se pode ter certeza da evolução histórica da mesma?

No caso da bolsa: o que caiu ou subiu é o indicador da bolsa. E o mesmo trata de uma média das diversas operações. Sem conhecer a variância (ou desvio padrão), este indicador conta muito pouco da história real do que aconteceu (foram muitas ou poucas ações? A queda ou subida foi concentrada ou distribuída?)

Todas estas afirmações são forma de contar a verdade de modo incompleto, ou seja de mentir sem estar exatamente mentindo.

Argumentos ignorantes, ou argumentador ignorante?

Sabe aquela conversa em que a pessoa é intransigente na sua opinião e apresenta argumentos aparentemente inquestionáveis, porém com pouca profundidade?

Geralmente esta pessoa não sabe direito sobre o que está falando.

Parece paradoxal, mas em geral os mais intransigentes na defesa não são os que mais entendem sobre o assunto, mas os que menos entendem sobre o assunto e passaram a defender esta ou aquela posição em função da paixão no assunto.

As pessoas com maior entendimento são, via de regra, bastante cautelosas em afirmações definitivas ou certezas absolutas. Por que? Bem, porque estes absolutos realmente não existem. Se o assunto é água potável, eles sabem que há muitas perguntas ainda sem resposta. Se a questão é o aquecimento global, os especialistas sabem que modelos computacionais são muito limitados em certos aspectos e que sua resposta é tão boa quanto a qualidade de dados de entrada (esta questão é polêmica, pois como métodos estatísticos são usados há mais perguntas do que respostas - mais sobre isto depois).

E este não é o único assunto. A decomposição de produtos industriais é algo que não está muito claro. E temos de lembrar que o nosso planeta já foi substancialmente mais inóspito do que hoje em passado não muito distante e ele se recuperou sem problemas.

Mas o maior perigo deste tipo de fanatismo da argumentação é que o mesmo não tem espaço para dúvidas ou incertezas - elementos fundamentais de toda boa evolução científica. E, naturalmente, este tipo de racionacilidade faz as perguntas erradas e escolhe as respostas erradas (se você não acredita que existam perguntas erradas, basta pensar em perguntas baseadas em correlações e não efeitos causa e efeito).

Uma das boas experiências que tive ao trabalhar em métodos númericos foi conhecer quão limitados os mesmos podem ser e quão precisos eles também podem ser. Muito bem: qual é a resolução espacial de uma simulação climática global? E a temporal? Será que ao escolhermos estas escalas, não estamos perdendo informações potencialmente relevantes para simulação climática?

Em tese, a outra parte do que irei mencionar agora trata exatamente da quantificação destas variáveis desconhecidas e incontroláveis: técnicas estatísticas. E realmente é verdade, o uso de probabilidade e suas distribuições podem suprir o desconhecimento de diversas variáveis. Mas há um porém: enquanto a probabilidade atua como uma medida do nosso desconhecimento, ela também necessita de caracterização adequada. A escolha equivocada de distribuições ou de coeficientes de correlação pode transformar um resultado da água para o vinho.

Há vários "benchmarks" a serem atingidos antes de termos certeza da qualidade das nossas simulações. Um deles é justamente se fenômenos aleatórios irão ou não desenvolver a mesma distribuição observada em dados reais.

Se não desenvolverem, então tem algo errado.

Atacar aonde dói

Se você já esteve em debates em foruns na internet, então provavelmente conhece casos aonde um dos debatedores passou a atacar ferozmente o outro.

Aqui eu não estou interessado no que gerou o ataque, mas no ataque em si. Imagine-se na posição do atacante, agora imagine que você não sabe nada sobre o atacado. Então qual seriam os pontos que você levantaria para atacar?

Bem, antes de continuar tenho de fazer uma ressalva: não estou supondo um ataque de idéias, mas um ataque na pessoa. O ataque de idéias se concentraria nos pontos fracos ou dúbios das idéias apresentadas para derrubar o argumento geral.

Aqui eu estou falando do ataque na pessoa mesmo. E mais ainda: suponho que o atacante não conheça exatamente o atacado. Isto é muito mais comum, pois via de regra para pessoas que se conhecem bem é mais raro chegar-se a esse nível de baixaria.

Muito bem, então se não se conhece bem o atacado sabe como é o ataque mais comum? Reciprocidade, ou seja, normalmente os pontos que são atacados são precisamente os pontos mais sensíveis do atacante.

Por que isso? Bom, alguma observação adequada pode convencê-lo da validade desta relação. Mas vamos ao caso mais prático: um ataque pessoal tem a finalidade de envergonhar, embaraçar ou mesmo desacreditar um debatedor. Mas como ter sucesso no ataque pessoal em quem não se conhece? Bem, não há garantias de sucesso, mas em primeira aproximação, pode-se atacar ao que se conhece - e supor que esta característica está presente no atacado.

Isto é bem irônico, pois este tipo de ataque revela mais sobre o atacante do que sobre o atacado, mas para uma primeira aproximação é uma suposição razoável. Isto envolve identificar no atacado características que sejam particularmente desagradáveis - que em geral o atacante conhece bem.

Do lado do atacado, se o mesmo se mantiver calmo e com sangue frio, esta argumentação é perfeita para se virar a mesa no atacante. Afinal, o atacante está de um modo ou de outro demonstrando pontos fracos em si. Em debates mais qualificados, este tipo de ataque pode servir como isca para envolver o adversário em armadilhas, mas isto requer um conhecimento bastante qualificado do adversário. Afinal, se o mesmo não morder a isca e tomar uma posição moral a estratégia pode ir por água abaixo.

E então vamos a exemplos: se o atacante chama as opinões de partidárias, é bem provável que isto indique que a posição dele é partidária. Se ele chama o adversário de burguês riquinho, então é bem provável que ele se sinta nesta situação. Se ele chama o adversário de despreparado, então é capaz que ele se veja nesta posição.

Então, o insulto também revela algo sobre quem insulta. Portanto, que for insultado de graça pode ter formas bem interessantes de revidar a altura. E quem ataca deveria pensar duas vezes antes de insultar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Pronunciando Kadafi, Gaddafi ou Cazevi

Qual a pronúncia de Muammar Gaddafi?

Tente esta aqui:

Ou esta aqui:

Mapa da violência

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/files/2011/02/mapa-violencia-20011-evolucao-estados.gif
Este é o mapa da violência no Brasil segundo o instituto sangari.

O que se pode tirar dele? Bem São Paulo teve uma grande redução no número de homicídios de 1998-2008. Esta redução foi maior que as demais capitais. E portanto, apesar da nossa percepção, o número de homicídios em Rio, SP e Brasília diminuiu nos últimos 10 anos.

Outro ponto é que o número de homicídios diminuiu consistentemente a partir de 2003. O que aconteceu em 2003? A posse do governo do PT na presidência.  Mas ao mesmo tempo, temos que a queda da violência é um fenômeno ponderado, sendo que pelas taxas envolvidas é possível que grande parte dessa queda se deva a estados específicos (RJ, SP)...

Para se ter mais certeza temos de ver as séries históricas e verificar se este número é uniformemente distribuído ou não. Olhando com cuidado no site , vemos que esta queda é fruto da queda no Rio de Janeiro (queda de 3350 em 2003 para 2204 em 2007) e em São Paulo (queda de 5591 em 2003 para 1927 em 2007). Portanto a queda no número de homicídios foi causada principalmente pela queda no Rio e em São Paulo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Teoria Matemática de Cidades?

Parece que os físicos resolveram entrar nos mais diversos campos com vontade. Geoffrey West e Luis Bettencourt resolveram estudar a física por trás das cidades.

E adivinhem? Tiveram sucesso...

Recomendo aos interessados a leitura do artigo original e do texto do Dr. West.

A equação é esta:

Formula

Isto é potencialmente extraordinário.

Ondas de Tráfego

Eu já havia lido sobre o estudo do tráfego como uma onda, mas me deparei com um vídeo bastante interessante que parece confirmar algumas suspeitas que eu já tinha.

Primeira suspeita: é sempre melhor evitar freiar, para tanto temos de manter sempre uma distância apropriada do carro na nossa frente. O objetivo é evitar o efeito "stop-and-go" que os engarrafamentos possuem e que caracteriza a onda de tráfego.

Segunda suspeita: o instinto egoísta deve ser combatido nos trânsito. Contrário ao que parece, evitar que pessoas "espertas" tomem lugares vazios no trânsito tende a diminuir o fluxo ao invés de aumenta-lo. Claro que desde que se mantenha distância apropriada ao carro da frente.
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Post Scriptum

O Prof. Paulo César mandou um excelente link que coloco aqui. O mesmo trata do artigo que descreve a teoria de ondas de tráfego.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Competição - determinismo ou acaso?

Até aonde vai a sorte e até aonde vai a competência? Olhando para diversos exemplos não posso deixar de pensar no ditado "A sorte favorece os preparados". Ou seja, há sorte em obter uma oportunidade, mas há competência em mante-la.

Não posso deixar de pensar em quanto o acaso é presente na vida de todos. Ao mesmo tempo que todos nos preparamos da melhor forma para alcançar nossos objetivos, a obtenção final pode estar nas mãos do acaso puro e simples.

Prefiro pensar que temos a combinação de acaso e determinismo. Não temos apenas um, nem apenas o outro. Isto torna a vida impossível de predizer e preserva todos do pesadelo de "tudo já foi escrito".

Naturalmente, o que chamamos de acaso pode ser no final apenas o resultado da combinação de uma multitude de processos dos quais temos muito pouco conhecimento. Então as probabilidades de ocorrência de eventos passam a ser graus de desconhecimento.

Um exemplo de um sistema combinando acaso e determinismo: um campeonato de cara ou coroa. Vamos dizer que 64 pessoas concorram. Na primeira rodada 32 são eliminadas aleatoriamente, na segunda 16, na terceira 8, nas quartas de final 4, na semifinal 2 e na final apenas 1 sobrará.

A chance de uma pessoa ganhar é precisamente 1 em 64, mas vai haver uma pessoa que irá acertar todas as caras ou coroas que aparecerem no torneio. Sempre haverá um vencedor.

No entanto, se ao invés de chances iguais para cada 1, existirem um ou mais competidores com maior chance, então haverá maior probabilidade de um destes competidores se tornar campeão. É algo assim que imagino em jogos mais complexos - os competidores que possuírem maior chance provavelmente chegarão à final.

Naturalmente, devido a natureza aleatória deste jogo em particular não é improvável que alguém com menor chance chegue a final.

Talvez seja mesmo sorte

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Projeções

Um problema clássico de geografia (e matemática) é de como representar a superfície de uma esfera em um plano. Para encurtar: como fazer mapas.

No caso, o mapa consiste em uma representação bidimensional de um objeto tridimensional.

A questão é simples: para pequenas distâncias, a terra é aproximadamente plana. Isto quer dizer que podemos aproximar uma capa esférica por um plano tangente.
Ficheiro:Tangentialvektor.svg
Naturalmente, quanto mais distantes estivermos do ponto x, maior vai ser a distorção entre a representação do plano e o ponto real na esfera. Esta é a velha questão da aproximação do seno pelo seu argumento.

Este tipo de problema é resolvido (parcialmente) com o uso de projeções cartográficas. Existem um grande número de projeções.

No caso em questão o interesse é da projeção de Mollweide. Esta projeção é muito vista hoje em dia. Seja na representação da radiação de fundo de microondas.
File:WMAP 2010.png
Seja na própria terra
File:Mollweide-projection.jpg
De fato, o ponto deste artigo é que nas representações do céu, o que estamos vendo é o céu olhando do centro de uma esfera. Então temos várias representações do universo:
Em infra-vermelho:
File:2MASS LSS chart-NEW Nasa.jpg
Mas isso tudo fica mais fácil com o instrumento apropriado.

Um mês de 4 semanas ou de 5 semanas?

Você já deve ter ouvido que um mês tem quatro semanas, certo? Mas isso é verdade mesmo? Bem, para fevereiro é verdade mesmo. Afinal 1 semana tem 7 dias, e 4 vezes 7 dá 28.

E um ano de 52 semanas? Já ouviu falar? Mas é verdade mesmo? Bem, se 1 semana tem 7 dias e o ano tem 52 semanas, então temos 364 dias em um ano.

Então nem todos os meses tem 4 semanas e o ano não tem exatamente 52 semanas. Qual é o problema? O problema é múltiplo: primeiro a terra gira em torno de si mesmo e segundo a terra gira em torno do sol. Cada problema pode ser melhor explicado juntando os dois casos. Como a explicação vai estar em itálico, quem não estiver interessado pode pular até quando volta ao normal.

Um dia solar aparente é definido como o intervalo de tempo entre o retorno do sol ao mesmo meridiano. Como além da terra girar em torno de si mesma, ela também gira em torno do sol. Este intervalo é variável ao longo do ano solar (que é o tempo que a terra leva para retornar ao mesmo ponto na órbita).


A questão é que a terra está inclinada e que a órbita ao redor do sol é uma elipse. Isto faz com que haja uma variação no dia. Em 2010, o dia mais longo teve 86471 segundos e o mais curto 86325 segundos.


Então como definir o dia? Um modo é usar o dia solar médio. Este é de 86400 segundos (mais alguns milisegundos). Como 24 horas correspondem a 86400 segundos então teríamos que o dia solar médio é o nosso dia como conhecemos. Já o dia sideral é outra história (correspondendo a 86164.09053083288 segundos).


Bem qual é a diferença principal entre o dia solar médio e o dia sideral? Bom em 1 dia sideral a terra gira 360 graus, e em um dia solar a terra gira 360.9856 graus.


Bem em termos de segundos, o ano sideral tem 31558149.76 segundos (365.256363004 dias solares). Comparando isto com o número que temos de 31536000 segundos (365 dias x 24/dia x 60 minutos/hora x 60 segundos/minuto), temos que o ano sideral é maior por cerca de 22149.76 segundos.


Por causa do 0.256363004 dias solares é que temos os anos bissextos.

Então um ano tem aproximadamente 365.2564 dias (e não 365 como é normalmente contado). Esta diferença quer dizer dizer que ao longo de 4 anos teremos 1461 dias ao invés de 1460 dias.

Mas para efeitos de cálculo vamos nos ater aos anos de 364 e 365 dias.

Os fatores de 364 são 4, 7 e 13 - podemos montar qualquer arranjo com estes números que satisfariam o que chamamos de ano. Assim:
  • 4 dias por semana, 7 semanas por mês e 13 meses por ano
  • 4 dias por semana, 13 semanas por mês e 4 meses por ano
  • 7 dias por semana, 13 semanas por mês e 4 meses por ano
  • 7 dias por semana, 4 semanas por mês e 13 meses por ano
  • 13 dias por semana, 4 semanas por mês e 7 meses por ano
  • 13 dias por semana, 7 semanas por mês e 4 meses por ano
No caso de 365, os fatores são 5 e 73, assim teríamos um ciclo a menos
  • 5 dias por semana e 73 semanas por ano
  • 73 dias por mês e 5 meses por ano.
Mas o fato é que isto complica mais do que ajuda. Então quais são as alternativas? Poderíamos arbitrar que o ano teria 364 dias e acrescentar mais 5 dias ao final de um conjunto de 4 anos. Alternativamente, podemos alterar a duração dos meses. Com 5 meses de 31 dias e 7 meses de 30 dias teremos 365 dias. E com 6 meses de 31 dias e 6 meses de 30 dias teremos 366.

Acredito que esta forma é até mais agradável, teríamos 3 anos com 5 * 31 + 7 * 30 e 1 ano com 6*31 + 6*30.

Naturalmente com 365 dias não há como dividir o ano em 52 semanas de 7 dias. Poderíamos neste esquema ter o mês de 30 dias com 5 semanas de 6 dias

O importante nesta história é lembrar que o ano tem 365 dias e 1/4, e que 7 dias/semana vezes 4 semanas/mês vezes 12 meses no ano dão 336 dias. Do mesmo jeito 30 dias por mês e 12 meses por ano dão 360 dias.

Em resumo:

Se alguém te falar que existem 7 dias na semana, 4 semanas por mês e 12 meses no ano, você pode perguntar: Isso dá 336, e os 29 dias restantes?

E se alguém te falar que tem 30 dias por mês e 12 meses por ano, você pode perguntar: Isso dá 360, e os 5 dias restantes?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Seguindo o contra-intutivo

Infelizmente as conseqüências de uma análise errada de um problema contra-intuitivo podem ser bem sérias. E costumam ser mais graves quanto maior a confiança no modelo teórico usado para caracterizar o problema.

Em determinados casos, o caso real é não linear, mas pode ser aproximado por um modelo linear. Em outros casos, o caso real é dinâmico mas o modelo é estático. E em outros casos, o modelo simplesmente não funciona sob as condições que são aplicadas (isto é bem comum - um resistor tem limites de dissipação de calor, que não costumam ser incluídos no modelo de circuito).

E nisto tem-se um mundo de problemas criados pela incompreensão de como modelar a realidade sob aquelas circunstâncias.

Você sabia que no caso de tráfego de carros, a adição de mais uma via pode piorar o tráfego?

Sim, é verdade. Mas há outros exemplos: a adição de pessoas para resolução de um problema pode aumentar o tempo de resolução.

Existem diversas dessas "leis" compiladas. Algumas são empíricas, outras são teóricas e outras são anedóticas.

Uma das minhas preferidas é a Lei de Campbell: Em termos simples, quanto mais um indicador quantitativo for utilizado para tomada de decisão social, maior será a pressão para distorcer e corromper o processo social que se desejava monitorar.

Este fenômeno é bem conhecido dos professores, pois está diretamente relacionado com o fenômeno da trapaça acadêmica (e não estou falando apenas dos alunos).

Eu vejo um comportamento assustadoramente consistente com esta Lei no caso da avaliação CAPES.

O que me faz escrever minha própria lei: Um indicador é melhor do que nenhum, mas vários indicadores independentes são bem melhores do que apenas um.

Reparem na palavra "independentes". Ela não está ali por acaso.

O que me leva a questão central deste post: será que atender todas as demandas de uma organização sempre se traduz em ganhos de produtividade?

Suspeito que não...

Contra-Intuitvo

Você já esteve em uma situação que sua intuição dizia que iria acontecer uma coisa, mas aconteceu precisamente o contrário?

Estas situações representam o que chama-se de contra-intuitivo. A verdade é que nosso modelo mental do mundo falha miseravelmente nestas situações. Chamamos as vezes destas situações de paradoxos (apesar de tecnicamente não constituirem paradoxos propriamente ditos).

Quer ver alguns que são conclusões intuitivas totalmente erradas? Que a terra é plana, que o sol gira ao redor da terra, que água fria congela mais rápido que água quente.

Sim, tudo isso é intuitivo - e errado! Existem listas e mais listas de paradoxos. O que se percebe é que há limites para nossa confiança na intuição.

Suspeito que é nos paradoxos que compreendemos melhor os limites do nosso conhecimento. Ao se resolver o paradoxo ganha-se conhecimento sobre o problema em questão. Mais interessante é que parte das questões que formulamos são na realidade uma forma de expressar um paradoxo no modelo mental do tópico.

Então formular paradoxos não é somente divertido, mas educativo. Talvez mais educativo do que resolver paradoxos.

Um ponto curioso é que quando o paradoxo é resolvido, ou quando a intuição é transformada, costumamos esquecer de quão grande foi o salto intelectual para se vencer este problema.

Não deixa de ser um paradoxo