Há um evento de gatilho, depois uma onda de protestos, esta onde se transforma em uma onda de saques, violência e tumultos em geral. E aí a coisa começa a ficar interessante...
Neste ponto é que a natureza do evento é transformada de acordo com o discurso de jour. Podem ser efeitos de contração social, corte nos subsídios, racismo institucionalizado, falta de fibra moral... O leitor pode escolher.
Há vários elementos nos tumultos que desafiam teimosamente as explicações sociológicas mais comezinhas (nisto aproveito para destroçar alguns dos esteriótipos que são usados para racionalizar sobre o assunto).
- Aos 0:33, o sociólogo afirma estar surpreso com a forma que o governo britânico vem encarando e analisando os acontecimentos. A surpresa dele é claramente causada pelo fato do governo não estar analisando da mesma forma dele.
- Aos 0:45, ele afirma que os jovens estão se insurgindo contra as condições deles. O problema é que os fatos não corroboram esta análise - na realidade, os fatos praticamente desmentem esta análise. Mas o que são fatos diante de uma "argumentação intelectual sólida"?
- Aos 1:00, ele afirma que em um bairro como Tottenham há 35% de desemprego entre os jovens de 16 a 25 anos (será que isto é verdade mesmo? Não, não é). E claro que há o conveniente esquecimento do seguro desemprego.
- Aos 1:55 ele sugere que a causa é uma falta de canais institucionais apresentação de demandas. Isso poderia justificar Tottenham, mas certamente não faz o menor sentido nas outras localidades do tumulto. Aliás, a existência destas outras localidades meio de desprova a argumentação utilizada.
- Aos 2:14 ele sugere que parte das razões advém da crise financeira. Enquanto ele estaria correto, pois a crise levou o governo a decidir cortar diversos benefícios e isto causou imensas manifestações. O problema é que: nem os cortes realmente começaram e que o timing dos tumultos está todo equivocado com relação aos cortes. Não encontrei a informação sobre o fechamento dos centros de cultura (ao contrário encontrei site de vários), mas o ponto central é que isto não explica o resto - só explica Tottenham.
- Aos 3:30 ele afirma que são jovens que não encontram emprego, que tem dificuldade de acesso a escola, que vivem toda sorte de discriminações. Só que isto não explica tudo que aconteceu. Há sim casos deste tipo, mas há casos que praticamente contradizem o raciocínio por trás da explicação ( que é: são marginalizados e por isso quebram as leis).
- Aos 4:25 ele falha que deve se separar o evento faísca do contexto que é cada vez mais conflitivo. Parece um bom conselho, mas na realidade ignora que multidões possuem uma dinâmica própria (e tem gente que vive de estudar isto). E apesar desta pode até ser parcialmente predita ou modelada.
- Ao 5:00 ele compara a situação dos tumultos com as manifestações no Chile. E aí a coisa vai ladeira abaixo: duas situações diferentes, com causas diferentes e resultados diferentes sendo comparadas como iguais? Baseado em que? Somente um filtro ideológico pode conduzir a um raciocínio que leve a dizer que estes eventos são equivalentes (são jovens, enfrentaram a polícia, estão descontentes - logo são eventos iguais?)
- Mas o escorregão final é aos 5:20, aonde ele infere os pontos em comum: jovens, discriminados, de outra cor, de outra nacionalidade, de bairros pobres. E aí a coisa pega: cidadãos de outras nacionalidades agiram contra os tumultos, jovens de outra cor mas nada discriminados aturam nos tumultos (para desespero e vergonha dos pais). Em suma: tudo ao contrário do que o raciocínio levaria a concluir.
O que eu acho? Acho que começou como um protesto e depois virou tumulto only for the Lulz...