sexta-feira, 13 de abril de 2012

Mentiras e Mentirosos

Encontrei por acaso uma coluna do Carlos Chagas que relatava as ponderações de um ex-ministro e ex-deputado.

Ele elencava o que chamou de as maiores mentiras nacionais:
A primeira mentira é chocante. Sustenta que "a Previdência Social está falida". Não é verdade,  rabisca o ministro em seus alfarrábios. Os recursos da Previdência Social, se não fossem  historicamente desviados para outras atividades,  dariam para atender com folga e até com reajustes anuais maiores os pensionistas e aposentados. Não seria necessário obrigar os funcionários públicos que se aposentarem de agora em diante ficarão nivelados pelas  vergonhosas  cifras do INSS.  Basta atentar para o que anunciaram,  quando ministros, Waldir Pires, no governo Sarney, e Antônio Brito, no governo Itamar Franco. Nada  mudou, apesar de que,  quando assumiu, Fernando Henrique Cardoso dedicou-se a espalhar a falência imediata, certamente vítima da febre privatizante,  que jamais deixou de cobiçar a Previdência Social pública. Agora, é o ministro do governo Dilma, Garibaldi Alves, que repete a cantilena da vigarice, ao estimular a previdência privada para engordar o lucro dos bancos.
O problema da previdência social é um problema de caixa. Como não se tem um fundo de longo prazo, então os contribuintes tem de financiar anualmente as despesas dos aposentados e demais usuários da previdência. Certamente que há desvios, e há na afirmação "a previdência social está falida" um cerne de verdade. E o ex-ministro parece ter convenientemente esquecido das reformas da previdência durante o governo FHC e durante o governo Lula. Então, o ex-ministro parece ter sofrido de um episódio de amnésia seletiva.
Outra mentira imposta ao Brasil  como verdade, conforme Bierremback, é de que "estamos inseridos no  mundo globalizado".  Para começar, globalizado o planeta   não está,  mas apenas  sua parte abastada. O fosso entre ricos e pobres aumenta a cada dia, bastando lançar os olhos sobre a África, boa parte da Ásia e a América Latina.  O número de miseráveis se multiplica, sendo que os valores da civilização e da cultura são cada vez mais  negados à maioria. Poder falar em telefone celular constitui um avanço, mas se é para receber eletronicamente informações de que não há vagas, qual a vantagem? Os países  ricos entraram em colapso, mas que solução apresentam? Explorar os países em desenvolvimento enchendo-nos de euros e de dólares que não queremos e nem precisamos, para entrarem de manhã e saírem à noite lucrando com os juros mais altos do planeta, sem haver criado um emprego nem forjado um parafuso.
A impressão que tenho é que o ex-ministro não tem idéia do que significa estar inserido no mundo globalizado. No meu entendimento, diminuir o fosso entre ricos e pobres, o número de miseráveis não são requisitos para se inserir em um mundo globalizado. O que aliás me vem a mente: como o ex-ministro sabe que o número de miseráveis se multiplica? As informações são justamente que a taxa de desemprego vem diminuindo.

Este parece ser mais um caso de amnésia seletiva.
Como consequência, outra mentira olímpica surge quando se diz "que o neoliberalismo é irreversível". Pode ser para as elites, sempre ocupando maiores espaços no universo das relações individuais, às custas  da continuada supressão de direitos sociais e trabalhistas. Se  neoliberalismo significa o direito de exploração do semelhante, será uma verdade,  mas imaginar que a Humanidade possa seguir indefinidamente nessa linha é bobagem.  Na primeira curva do caminho acontecerá a surpresa. Ou melhor, já apareceu, com a indignação das massas trabalhadoras,  na Europa, diante da redução de salários e de direitos sociais.
No caso do neoliberalismo como conceito puro, então ele tem razão. Mas no caso do conceito que ele retrata, então ele confunde neoliberalismo com exploração. Neoliberal foi um nome dado a determinadas ações que não tem nada a ver com o contexto original. O ex-ministro tenta equacionar neoliberalismo com exploração - e isto não é verdade. A coisa é bem mais complicada do que ele tenta mostrar aqui.
Na mesma sequência, outra mentira, para  o antigo  vice-presidente do STM: "o  socialismo morreu". Absolutamente.   Poderá ter saído pelo ralo o socialismo ditatorial,  por décadas liderado pela ex-União Soviética,  mas o socialismo real, aquele que busca dar aos cidadãos condições de vida digna, a cada um segundo sua necessidade, tanto quanto segundo a sua capacidade. O que não pode persistir, e contra isso o socialismo se insurge, é a concentração sempre maior de riqueza nas mãos de uns poucos. Não pode dar certo.
Aqui ele comete o erro clássico: o que é o socialismo? Não é simplesmente a doutrina de amar o seu semelhante. Aliás, com frequência, as implantações do socialismo tendem a dar a impressão exatamente do contrário. A impressão é que o socialismo "real", como ele chama deveria ser chamado de socialismo "utópico".
Nova mentira: "o Estado tem que ser mínimo, deve afastar-se das relações sociais e econômicas". Para que? Para   servir   às elites? Especialmente em países como o Brasil, o poder público precisa  prevalecer sobre os interesses individuais e de grupos. Existe  para atender às  necessidades da população que o constitui,  através da via democrática. Deve contrariar privilégios e estancar benesses para os  mais favorecidos, atendendo as massas.
Pois bem, aí eu noto um viés no sentido de "Super-Estado" no que o ex-ministro escreveu. Essencialmente, o Estado para ele deve ser o Estado Pai, Mãe e Patrão. Seria ótimo se o Estado fosse presciente, onisciente, eficiente e onipotente. O problema é que não é nenhuma dessas coisas mesmo

Então qual é a conclusão? Devo dizer que parece que enquanto o Brasil parece ter saído da ditadura autoritária, a ditadura autoritária parece não ter saído do Brasil. Tem um "via democrática" aqui, um "vida digna" ali, e um "encher de dólares e euros que não queremos" acolá (imagino que os banqueiros e investidores devam ter forçado os brasileiros a aceitar isto utilizando uma arma ou coisa similar). Mas no fundo é um Estadão senhor de tudo que merecemos.

E o que o ex-ministro pensa está aí, nas seguintes palavras: "Em quem você vai acreditar? Em mim ou nos seus olhos?"

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Cotas funcionam?

Não se engane: cotas são discriminação. Duvida? O que é discriminar?

Pois é, cotas são discriminação. Mas os partidários de cotas irão dizer que é uma discriminação positiva.

Para evitar que as pessoas reclamem da discriminação (que é real), as políticas de discriminação positiva levam o nome politicamente correto de ações afirmativas. Você encontra diversos lugares aonde é dito que ação afirmativa e discriminação positiva são duas coisas diferentes, mas isto simplesmente é diletantismo filosófico.

O que eu acho? Bom, em um país de miscigenação um sistema de cotas baseado em pureza racial é como tentar separar água de álcool usando uma colher. Não vai funcionar como se espera...

Meu raciocínio é o seguinte: dependendo do grau de miscigenação, os "racialmente puros" (se é que isso existe) podem muito bem ser minoria na população. E como a genética da miscigenação funciona, é bem provável que haja situações aonde filhos e filhas de pais miscigenados tenham cor de pele diferente.

Então funciona assim: o pardo brasileiro é tipicamente miscigenado. Ele é cerca de 50% da população. Mas na realidade muitos dos brancos e negros brasileiros também são miscigenados. Então, no longo prazo, os descendentes de grande parcela da população acabaram por ter cor da pele que pode ser branca,e negra ou algum grau de mistura.

Muito bem, o que acontece com um sistema de cotas se ao invés de ele servir uma minoria, ele passa a servir a uma maioria?

Aí é um pepino, pois, em um país suficiente miscigenado, isto é exatamente o que tende a acontecer: a cota passa a atender a maioria, ao invés da minoria.

Os sinais de que este problema pode ocorrer? Quando não se encontra um sistema adequado para determinar quem tem direito a cota e quem não tem direito a cota. Os sinais são meio que evidentes: o Brasil é um país miscigenado, a maioria é descendente de mais de uma "raça" e vão ter descendentes que ora podem ser agrupados segundo uma cor de pele, ora agrupados segundo outra.

Como isso resolve alguma coisa? Não há como se estabelecer um critério impessoal. E isto quer dizer que o sistema de seleção será primariamente baseada em critérios pessoais (não necessariamente injustos, mas com razoável chance de se tornarem injustos eventualmente).

Já um sistema de cotas baseado em condições econômicas é mais direto e claro nos seus critérios. Naturalmente, isto não impede erros e injustiças. Mas pelo menos o critério de separação é mais independente da opinião de uma ou outra pessoa de uma comissão arbitrariamente montada.

Outros sistemas de cotas mais factíveis são os baseado em: impedimentos físicos, idade, cidadania estrangeira, e demais diferenças que possam ser mais facilmente determináveis.

No caso de cor de pele, no Brasil, o sistema vai eventualmente se descaracterizar...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Deus Ex Machina

Significa literalmente "o Deus saído da máquina".

A sua utilização remonta às peças gregas antigas aonde este artifício era utilizado para resolver tramas complicadas, ou complicações aparentemente intransponíveis para resolução do enredo.

Se olharmos com cuidado, Deus ex Machina é utilizado toda vez quando um evento providencial, fantástico, totalmente inesperado resolve a situação criada pelo enredo. A lista pode ser bastante grande, contendo até alguns clássicos da literatura.

Quer um exemplo de um Deus ex Machina?

Também conhecido como "WTF moment"

Mas menos conhecido é seu uso em explicações para fenômenos econômicos, políticos, sociais ou midiáticos. Quer um exemplo? Preste atenção:
A aplicação desta falsa reforma, tem como objetivo impedir qualquer tentativa de desenvolvimento nacional de nossas forças produtivas, o que está expresso claramente em seus pacotes como a Lei de Inovações Tecnológicas, que transforma os laboratórios de pesquisa em balcões de encomenda para multinacionais. O que o imperialismo quer é uma universidade sem pesquisa autônoma, sem produção nacional, sem pensamento nacional, sem identidade nacional. Esses são os malditos planos do FMI para a universidade brasileira: a culminação do famigerado acordo MEC-USAID sob a batuta do Banco Mundial.
Deus ex Machina? Oh, yes! Olhe só que o acordo MEC-USAID é de 1968. Em uma só tacada, o autor do texto colocou um arco de 40 anos criando uma teoria de conspiração de quase meio século. Acha que estou exagerando? Olhe só, o acordo MEC-USAID aparece como explicação para alguma coisa aqui, aqui e aqui! Vejam vocês mesmos...

O acordo é um Deus ex Machina? Sim, basta olhar a definição: "artifício era utilizado para resolver tramas complicadas, ou complicações aparentemente intransponíveis para resolução do enredo".

O argumento é apresentado toda vez que não se encontra uma explicação convincente para o fato!

Convincente? Como assim convincente? Bem, uma explicação convincente que faça sentido dentro da ideologia do argumentador. O raciocínio é este: Já que não há uma explicação convincente, então deve ser uma conspiração!

Naturalmente, existem sim conspirações. Mas elas não costumam ser multi-milenares, seculares ou mesmo ao longo de décadas. O mundo é muito complicado e imprevisível para isto funcionar.

Normalmente, estas explicações exigem que:
A verdade é que raramente é assim. Este tipo de argumentação é mais ligado à falácia do inimigo externo do que outra coisa. Neste casos os camaradas que denunciam costumam ser conspiradores "wannabe".

E a conspiração deles é um simples projeto de poder (pessoal, partidário ou coisa que valha). Aproveito para dizer que é exatamente isto que a Argentina está fazendo na sua reivindicação das Malvinas.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Operação Monte Carlo

Navegando na internet, encontrei por acaso um link para os volumes do processo da Operação Monte Carlo. Apesar de ter marcado "segredo de justiça" em algumas partes, o processo parece ter sido encerrado. Para não deixar a oportunidade de ver o que está no processo, então coloco aqui links para os volumes.
Volume 1:
OPERACAO MONTE CARLO  VOLUME 001  -_002_-_400
Volume 2:
OPERACAO MONTE CARLO  VOLUME 002 -_401_-_600
Volume 3:
OPERACAO MONTE CARLO  VOLUME 003  _601_-_859
Como são praticamente 1000 páginas, eu não consegui ler tudo em questão. Mas há algumas coisas interessantes. Há muito mais aqui!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Coisas que Mentimos para Nós Mesmos - 20

Eu recebi um texto interessantíssimo sobre o uso da falácia do espantalho e outros tipos de jogadas em debates sociais.

O texto tem alguns trechos que acredito ser muito interessantes:
Claro que um maniqueísmo só pode ser fundamentalista, a postura de quem está interessado em impor visões e não em debater. A disposição ao debate cria uma ótima imagem de abertura, de compreensão e vontade de resolver o problema, porém debater implica em correr o risco de ceder posições ou, mais importante, a expor-se à verdade. Quanto menos se discute, menos chance temos de encontrar a verdade. Daí que muitos precisam dizer que querem o debate, mas de fato rejeitá-lo acima de tudo.
E a melhor forma de rejeitar o debate parecendo querê-lo é convencer o público de que quem rejeita o debate é o oponente. A falácia do espantalhos é uma das melhores formas de fugir do debate. É uma falácia, o que quer dizer que tem aparência de verdade mas é falso, ou por uma premissa falsa ou pela relação entre elas. Uma falácia do espantalho cria uma posição falsa do oponente para derrubá-la, criando a aparência de que se derrubou o oponente, quando na verdade ele nunca defendeu tal ideia. Com essa falácia, não apenas não há debate, como se dá a impressão de que o oponente é quem fugiu dele.
Note que isto é aplicado não só no tema do debate em questão levantado pelo texto, mas em diversos outros debates correntes. Há certamente um mecanismo de projeção envolvido nisto, como pode ser visto nas atitudes descritas em outro trecho do artigo:
A primeira coisa que os apoiadores dessas causas dizem é que é preciso criar o debate e que os opositores não querem debater sobre o assunto, mas a primeira coisa que fazem é tentar aprovar essas coisas na marra, seja por congressos falsamente representativos da sociedade que aprovam planos executivos (como o PNDH-3), seja por decisões judiciais no STF. Fazem a apelação, mais que inconstitucional, contra os princípios republicanos de legislar por meio de atos executivos ou jurídicos, pois sabem que, se usarem as regras democráticas do debate aberto e da vontade da maioria, perdem na primeira leva. Daí entendemos porque têm uma vontade gutural de enfiar na cabeça das pessoas a ideia de que a sociedade brasileira é conservadora, sem explicar bem por que seria assim.
Eu mesmo já vi este tipo de atitudes em vários "blogs progressistas" pela internet afora. O mais interessante é que há um indiscutível ar de superioridade moral e intelectual que os blogs tentam desesperadamente esconder, sob pena de perder a simpatia do leitor. É que realmente fica difícil ganhar um argumento, ou convencer um leitor, se você fica repetidamente chamando-o de burro, ignorante, ou moralmente repulsivo.

Duvida? Quando chamam de "a opinião da sociedade conservadora", você pode ler também como "opinião contrária a do blogueiro progressista". Ou alternativamente, troque "blogueiro progressista" pelo título mais adequado de "cara que é melhor do que você".

Não estou advogando que as opiniões descritas no artigo são minhas (ainda vou escrever um post clarificando minha opiniões a respeito de temas polêmicos - mas já adianto que vou desagradar todo o espectro de opiniões). Aliás sequer advogo que as opiniões do artigo devem ser as suas.

Mas advogo que devemos estar atento para o uso de falácias para convencimento do inconsciente.

E isto que é o tema de hoje: muitas vezes estes truques são utilizados para forçar mudança de opinião.

Ninguém quer ser burro, ninguém quer ser atrasado, ninguém quer ser ignorante, ninguém quer ser burro, ninguém quer ser moralmente repugnante...

Mas é preciso ter muita coragem para admitir que não se sabe de tudo (ou seja somos ignorantes em algumas coisas - mais do que menos, na realidade), que não faz tudo certinho (que temos nossas atitudes moralmente repugnantes ocasionalmente), que mantemos posições simplesmente por tradição (ou seja, podemos ser atrasados mesmo), ou que nos aferramos a opiniões sem realmente termos motivos reais para tanto (ou seja, somos burros ocasionalmente).

E com isso, acabamos por evitar fazer as perguntas realmente importantes. E às vezes as perguntas importantes fazem toda a diferença. Acho que este clip sumariza isto de forma brilhante:

E não caia no velho "Como todo mundo sabe...". Nesta hora, lembre-se também que "Toda unanimidade é burra"

domingo, 8 de abril de 2012

The IT Crowd

Hoje trago a vocês outra pérola da televisão: The IT Crowd.

A série trata das aventuras do setor de tecnologia da informação de uma grande empresa, quando a pessoa escolhida para o cargo de chefia não entende absolutamente nada a respeito de IT.

A série tem 4 temporadas totalizando 24 episódios. Muitos deles estão disponíveis na internet.

sábado, 7 de abril de 2012

Pequenas Pérolas do Cinema - 54

Seguindo mais uma sugestão do Karlos, hoje é dia de Doctor Jivago.
O filme é um daqueles clássicos de David Lean que pode ser assistido múltiplas vezes.
A trilha sonora do filme é de primeira grandeza, tendo como destaque o Tema de Lara (Somewhere my Love). Tema de Lara:
Somewhere my love:
O filme é baseado no livro de Boris Pasternak. No filme o narrador é o general Yevgraf Andreyevich Zhivago, meio irmão de Yuri Andreyevich Zhivago, o famoso Doutor Jivago do filme. Ele conta a história de Yuri, suas aventuras e seus amores, enquanto procura a filha ilegitima de seu meio irmão (nada sinistro, na realidade, Yuri teve sua reputação reabilitada após sua morte e agora era muito popular). O livro ainda teve outras adaptações e filmes. Temos aqui a inglesa
E a russa
E até uma brasileira! Mas francamente é difícil competir com o filme de David Lean

sexta-feira, 6 de abril de 2012

95% de Chute

Eu encontrei duas notícias descaradamente enroladoras na internet. A primeira fala sobre produção de conhecimento e a outra sobre fontes sustentáveis.

Um elemento em comum é estatística de 95% de algo. Vamos ao que interessa. Primeiro a respeito das energias renováveis:

A demanda energética mundial poderá ser suprida em 95 por cento por energias renováveis até 2050, segundo um relatório divulgado na quinta-feira pela entidade ambientalista WWF e pela consultoria energética Ecofys.
Até lá, a demanda energética total poderá ser 15 por cento inferior à de 2005, graças a medidas ambiciosas de economia de energia, apesar da previsão de aumento para a população, a produção industrial e o transporte de cargas e passageiros.
Bem, aqui é importante ser claro na questão: isso tudo é chute. Mas chute mesmo.

Não há fundamentação alguma nestas informações (é tudo "poderá"). Procurando na internet é muito fácil achar informações afirmando praticamente o oposto. Para complicar mais ainda, as fontes de energias renováveis não são todas do mesmo balaio. Há energia eólica, energia solar, energia das marés, energia hídrica e possivelmente de fontes orgânicas. A energia eólica depende dos ventos (não há garantia de ventos na velocidade adequada 100% do tempo). A energia solar depende do sol (ou seja, seu uso à noite depende de armazenamento). As energias de marés funciona também parte do tempo. A energia hídrica depende de represas e alagamento de grandes áreas e, por  fim, as fontes orgânicas são usadas em termelétricas (ou seja liberam gases ligados ao efeito estufa).


Essencialmente a notícia é gigo (garbage in - garbage out). Mas fica bonitinho para os outros citarem por aí...

A segunda notícia também é interessante pois revela os limites do nosso conhecimento, ou pelo menos o limite de como se lidar com o mesmo.
Dados recentes liberados pelo programador australiano Reto Meier, chefe da equipe de desenvolvimento do sistema operacional Android, no Google, mostram que, em 2050, 95% do nosso conhecimento será novo. Ou seja, hoje só conhecemos 5% do que saberemos daqui a 40 anos. De onde virá esse conhecimento novo? Dos países que investirem pesado em ciência e tecnologia, em educação e no fortalecimento da cultura.
Isso também é chute no mais alto estilo. E há vários problemas aqui: como se mede conhecimento? Produzir informação é o mesmo que produzir conhecimento? Dizer que informação é igual a conhecimento é correto? Certamente que em 2050 haverá muito conhecimento novo, mas como precisar uma percentagem?

A resposta? Não dá para precisar mesmo. Pode ser 95%, 99%, 99.9% ou mesmo 50%. Não há chance de ser ter uma certeza quanto a isto. Podemos usar o volume de dados como proxy, mas é difícil estimar com alguma precisão o que é conhecimento novo. Todo material impresso até hoje é cerca de 200 Petabytes. Como o mundo criou cerca de 1.8 zettabytes, então podemos dizer que de 2010 para 2011 o conhecimento aumentou 10.000 vezes (ou que em 2010 só conhecíamos 0.001%  do que surgiria em 2011) ?

Pois é, é muito complicado afirmar algo assim. Então a predição a respeito de 2050 também é no máximo um chute. Ou pelo menos 95% de chute.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Wikileaks - Vídeo da BBC

Já mencionei o wikileaks em alguns posts por aqui. A despeito da enormidade do que foi divulgado, acho que o mais interessante foi o quão rasas foram as análises do que tivemos acesso. A enorme maioria tratou apenas de casos pontuais que foram utilizados segundo agendas pessoais (vide a vergonhosa atuação de diversos blogueiros sobre William Waack e outros).

Mas felizmente temos a BBC para fazer uma recapitulação a respeito dos wikileaks.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Considere uma Vaca Esférica no Vácuo

Este é o mote de uma piadinha de físico muito famosa:
“Um fazendeiro contratou um físico para modelar sua fazenda de forma a otimizar o seu espaço. O físico foi a fazenda, avaliou, fez diversas anotações, e foi embora, passando semanas sem dar notícias. Outro dia, então, aparece ele afirmando que havia encontrado a resposta; começou então a sua brilhante explanação:
- Considere que seu gado seja constituído por vacas esféricas se movendo no vácuo…”
diversas variações da mesma...
"Considere o espaço de Hilbert das vacas esféricas no vácuo, com densidade constante, na ausência de gravidade, expelindo leite isotropicamente e com fluxo constante F para um dado referencial S. Dado o operador autoadjunto "gravidez da vaca" G, calcule a probabilidade de ela estar prenha."
Todas tratam do mesmo tema: a simplificação exagerada de um modelo físico (conhecido popularmente no meio como Toy Model). A parte interessante disto é a precisão do modelo varia com a aplicação. Por incrível que pareça, o modelo "Animal Esférico" tem aplicações interessantes (aos que estão curiosos: o uso do modelo de animal esférico permite explicar a relação de necessidade de manutenção de energia em organismos vivos).

Mas, com uma frequência assustadora, esta tendência a simplificação exagerada de modelo costuma aparecer em diversos ramos das ciências. As consequências podem ir de relativamente simples (algumas interessantes são o problema da contratação da secretária, o das rainhas no tabuleiro e outros), até consequências bastante sérias.

Não, não irei atacar a questão do aquecimento global aqui (apesar de já estar gerando afirmações quase irresponsáveis). Vou tratar de um assunto mais abrangente: do que lhe é mostrado, consegue identificar o que resultado de um modelo simplificado do que é resultado de um modelo mais refinado?

Vamos a alguns casos:
  1. Os livros de história estão cheios de informações que os europeus mataram milhões de índios. Mas, como se sabe quantos índios haviam antes dos europeus chegarem?
  2. Um estudo publicado recentemente afirma que 75% dos brasileiros nunca pisaram em uma biblioteca. Como se chegou a este número?
  3. Os veículos de comunicação estão cheio de notícias ligadas a saúde afirmando que determinadas substâncias fazem bem ou fazem mal a você. Como pode uma substância fazer mal e depois fazer bem e vice versa?
  4. Como se pode afirmar que o planeta terra terá problemas com a água se 3/4 da sua superfície é água?
  5. Como é que alguém pode saber que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil?
Se você não sabe a respostas a estas perguntas não se preocupe. A maioria das pessoas engole esta informação sem pestanejar. Ora bolas, mesmo especialistas vez por outra caem na armadilha de supor que o modelo é a realidade.

A verdade é que todas estas questões tem respostas  perfeitamente lógicas e não contém nenhum paradoxo a partir do momento que se saí do Toy Model para um modelo mais refinado (não há contradições com a afirmação original, apenas imprecisões). O problema é que via de regra, para descobrirmos que estamos usando um modelo do tipo "Vaca Esférica", alguma coisa tem que dar muito errado.

Como resolver este problema? Bem, temos que ter muito cuidado e atenção no uso dos nossos modelos e devemos sempre saber quais são as premissas envolvidas neste modelo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Poeta e a Guerra

O Brasil é um país historicamente sem conflitos, certo ou errado? Errado! Já viu a lista?

Então por que ainda se diz que a história do Brasil é pacífica e tranquila? A história parece ter sido esquecida. E isto, que deveria ser a tarefa dos historiadores no longo prazo, e dos jornalistas no curto prazo, parece não ter sido realizada a contento.

Então, não basta ter acontecido - tem que ser divulgado.

Na realidade é pior do que isto: se não for divulgado não importa ter acontecido!

E este é o mote do post de hoje: ações bélicas ou heróicas acabam sendo esquecidas se não forem divulgadas. E naturalmente a divulgação acaba por formar como o conflito será visto por gerações futuras.

Exemplo de Caso: A guerra de Tróia. Durante muito tempo, o poema de Homero foi considerado somente uma obra de ficção (se bem que não era o único poema que falava sobre Tróia). Só quando um entusiasta de Homero resolveu procurar Tróia no local descrito é que se viu que o conflito da ficção tinha raízes na realidade.
E quem diria, o que a população leiga sabe de Tróia hoje é muito mais adaptações artísticas baseadas nas obras de poetas da antiguidade.


Qual a lição que podemos tirar disso? Se Homero e outros poetas não tivessem escrito a Ilíada, não conheceríamos nada sobre Aquiles, Ajax, Paris, Helena, Heitor...


Os guerreiros seriam esquecidos nas areias do tempo - sem chance de serem lembrados

Que o poeta pode ser o elo que separa o esquecimento da glória eterna...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Coisas que Mentimos para Nós Mesmos - 19

Você já deve ter ouvido sobre o problema populacional. Há quem diga que  pestes e guerras mantinham o problema populacional sob controle. Ora há quem diga que precisamos de uma "boa guerra" para manter este problema sob controle. Bem, isto simplesmente não é verdade.

Em termos da população mundial foram muito poucas as situações de conflito que fizeram algum efeito no crescimento populacional (e quando fizeram foi mais local do que global). A segunda guerra mundial teve, na sua estimativa mais exagerada, perto de 70 milhões de mortos (o que corresponde a 3% da população). A enorme maioria dos conflitos tem um efeito bem menor do que esse.

Já as taxas de natalidade vem decaindo de 3.7% em 1950 até 1.9% nos dias de hoje. As taxas de mortalidade também vem decaindo de 1.9% em 1955 até 0.8% nos dias de hoje.

Taxa de Natalidade (por milhar)
YearsCBRYearsCBR
1950–195537.22000–200521.2
1955–196035.32005–201020.3
1960–196534.92010–201519.4
1965–197033.42015–202018.2
1970–197530.82020–202516.9
1975–198028.42025–203015.8
1980–198527.92030–203515.0
1985–199027.32035–204014.5
1990–199524.72040–204514.0
1995–200022.52045–205013.4

O que isso quer dizer? O decréscimo na taxa de natalidade teve um efeito muito maior do qualquer uma das guerras. Por que? Porque ele ocorre ao longo de um período longo. Enquanto a guerra dura alguns anos e tem um saldo de carnificina que pode ser grande (3% no caso da segunda guerra mundial), Funciona assim (taxa de natalidade por cento):
  • Decréscimo de 1955-1960: 0.19 = 1.0019
  • Decréscimo de 1960-1965: 0.04 = 1.0004
  • Decréscimo de 1965-1970: 0.15 = 1.0015
  • Decréscimo de 1970-1975: 0.26 = 1.0026
  • Decréscimo de 1975-1980: 0.19 = 1.0024
  • Decréscimo de 1980-1985: 0.04 = 1.0005
  • Decréscimo de 1985-1990: 0.19 = 1.0006
  • Decréscimo de 1990-1995: 0.04 = 1.0026
  • Decréscimo de 1955-2000: 0.19 = 1.0022
  • Decréscimo de 2000-2005: 0.04 = 1.0013
  • Decréscimo de 2005-2010: 0.19 = 1.0009
Ao combinarmos todas estas taxas temos uma diminuição equivalente da população de 8.8% de 1955 até os dias de hoje (na realidade, este valor pode ser ainda maior). E isto equivale a praticamente 3 guerras do tamanho da segunda guerra.

Tirando o pesadelo de uma hecatombe nuclear, teríamos de ter uma mega-guerra para fazer algum efeito na população.

Então, em termos de eficiência, controle populacional é o caminho a seguir - ao invés da guerra!

Se quisermos resolver o problema da população temos de diminuir as taxas de natalidade, e não aumentar as taxas de mortalidade. É bem óbvio, uma vez que se pense a respeito.

domingo, 1 de abril de 2012

Televisão Bizarra: Sado-maso para todas as idades!

Você sabe o que é um arco de história? Essencialmente é uma narrativa contada de episódios. A ideia é que história não seja contida em um único episódio e continue em vários outros até a sua conclusão. Bem, hoje eu trago um arco de história real da televisão brasileira. A história pode ser interpretada de diversas formas. Podemos ver como uma história de ascensão e queda, uma história de um mito popular, uma história modelo sobre a influência da televisão na sociedade ou mesmo uma história modelo sobre a influência da sociedade na televisão.

Alguns de vocês podem até conhecer, mas apresento a Tiazinha.

Ela é um daqueles fenômenos culturais que sai de trás da moita, dá-lhe uma cacetada e corre com sua carteira, te deixando desorientado, vagamente envergonhado e também com a impressão de ter  passado por uma aventura.

Ela surgiu do Programa H de Luciano Huck. Suspeito que para dar uma apimentada em um quadro aonde homens seriam depilados, o programa criou a figura da Tiazinha, que representava alguns fetiches masculinos particulares.

Bem, a coisa decolou e tomou proporções incríveis. Logo, logo Tiazinha estava nas rádios.

E em mais de um gênero nusical!

No auge, ela teve uma série própria

O fim da fama de Tiazinha não veio de fora, mas de dentro. Suzana Alves sentiu que ficaria presa naquele
papel e dificilmente poderia crescer como atriz. Mas também em topo disso, Tiazinha mudou seu foco para o publico infantil. E aí o público adulto passou a outra. Quanto a atriz, ela alçou novos vôos em outras oportunidades televisivas, inclusive um papel em nossa pequena pérola da televisão de hoje: Mandrake.

Então, neste post eu fiz mais ou menos dois arcos: contei a história da relação de um personagem com seu intérprete e com isso, aproveitei para colocar uma pequena joia televisiva para conhecerem.

sábado, 31 de março de 2012

Pequenas Pérolas do Cinema - 53

Seguindo a sugestão, hoje é dia de Soylent Green.

O filme é baseado no livro Make Room! Make Room sobre os efeitos da superpopulação. O filme trata da questão da falta de recursos devido à superpopulação (uma preocupação em 1970 e voltando a carga nos dias de hoje). A frase famosa do filme está bem no final.

No caso, o filme foca em alguns dos efeitos da superpopulação, mas se concentra na questão da comida. Para as massas só existe o alimento sintetizado Soylent Green. E este supostamente seria feito de Plankton. Mas um assassinato acaba por ameaçar o segredo de fabricação de Soylent Green.

Hoje o bordão "Soylent Green is People" já está incorporado à cultura popular (ou pelo menos a cultura nerd).

sexta-feira, 30 de março de 2012

Misquotes

Com o falecimento de Millor Fernandes me veio a mente um ponto curioso. Já notaram quantas citações de pessoas famosas que aparecem diariamente por aí?

Já notaram quantas delas não são da pessoa a quem são normalmente atribuídas? Há quem diga que se Einstein tivesse dito todas as frases que lhe atribuem, ele não teria criado a teoria da relatividade.

No caso de Millor, já pude identificar algumas citações que possivelmente são apócrifas.

Por que isso acontece? Hummm... é difícil precisar. Há a confusão genuína de não se conseguir determinar o autor da frase em questão, mas há também situações aonde o autor prefere que sua frase seja atribuída a outro. No segundo caso, temos claramente um indício que não analisamos somente a mensagem, mas também o mensageiro.

De qualquer modo, vamos a algumas citações famosas que são atribuídas às pessoas erradas.
  • "Eu não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las"- atribuída a Voltaire, mas na realidade a frase é de Evelyn Beatrice Hall (não soa mais tão impressionante, não é? Mas fique tranquilo: muita gente também se enganou.)
  • "Os donos do capital incentivarão a classe trabalhadora a adquirir, cada vez mais, bens caros, casas e tecnologia, impulsionando-a cada vez mais ao caro endividamento, até que sua dívida se torne insuportável." - atribuída a Marx, mas na realidade bem mais contemporânea.
  • "O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. E o comunismo é exatamente o contrário." - atribuída a Millor Fernandes, mas é na realidade bem mais antiga.
  • "Bons artistas copiam, grandes artistas roubam" - atribuída a Pablo Picasso, mas na realidade de T.S. Elliot.
No fundo, usar uma citação é uma espécie de apelo a autoridade. Mas também funciona como uma forma sutil de sumarizar algo que concordamos

Nada de errado nisso.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Casa Sempre Ganha

Uma de minhas séries favoritas é House. No fundo, o show é um drama de mistério não muito diferentes dos de Sherlock Holmes. Mas com a diferença de ao invés de descobrir quem é o culpado, o programa gira em torno de descobrir qual é a doença.

Não vou entrar aqui na série em si (vou deixar isso para um futuro post), mas vou me deter na questão de um elemento central do show: o diagnóstico.

No show, o paciente apresenta sintomas que são inicialmente tratados baseados em uma suposição sobre qual é a doença. Quando esta suposição não se prova verdadeira, novos sintomas surgem e o ciclo continua até que House (ou um dos seus colegas) tenha informação suficiente para saber qual é a doença.

E isto é fascinante. Digo isso não só pela forma como isso é explorado no programa, mas também pelo conceito de refino da probabilidade através de testes sucessivos. Suspeito que isso pode ser aplicado em muitas outras áreas.

E naturalmente há estudos sobre isso (há estudos sobre coisas que a maioria das pessoas sequer imagina).

Isso me fez pensar a respeito de construir exemplos de como o diagnóstico pode ser aplicado. Para tanto vamos restringir a um caso simples inicialmente. Temos 4 doenças (D1, D2, D3, D4). Cada uma destas doenças tem um conjunto de sintomas associados:

D1 - {S11, S12, S13, S14}
D2 - {S21, S22, S23, S24}
D3 - {S31, S32, S33, S34}
D4 - {S41, S42, S43, S44}

Bem se todos os sintomas são únicos a cada uma das doenças, então basta verificar um único sintoma e bada-bing, descobre-se a doença. Mas vamos complicar um pouco mais: vamos dizer que as doenças em sintomas em comum e que na realidade é a combinação de sintomas que define a doença.

D1 - {S11, S12, S13, S14}
D2 - {S11, S12, S23, S24}
D3 - {S11, S32, S33, S24}
D4 - {S11, S42, S23, S44}

Assim, D1 e D2 tem 2 sintomas em comum, D1 e D3 tem 1 sintoma em comum e D1 e D4 tem 1 sintoma em comum. Se o sintoma S11 for o primeiro a se apresentar, então o médico terá D1, D2, D3 e D4 como possíveis candidatos a doença em questão.

Mas ao surgir um novo sintoma, pode-se reduzir o universo de doenças possíveis. Se o sintoma S12 surgir, então o médico saberá que a doença pode ser D1 ou D2. Se o sintoma S23 surgir, então o médico saberá que a doença pode ser D2 ou D4 e se o sintoma S24 surgir então a doença estará entre D2 e D3.

Pode-se argumentar que o diagnóstico passa por submeter o paciente a sucessivos testes para determinar qual é a sua doença. No caso acima o número mínimo de testes para identificar a doença com 100% de certeza é 3.
O paciente tem S11. Testa-se o paciente para ver se ele tem S12. Caso positivo então testa-se para se ele tem S13 para determinar se é D1 ou D2. Caso negativo então testa-se para ver se ele tem S32 (caso o resultado for positivo então ele tem D3 caso negativo então é D4).

No caso, o problema de determinar a doença nada mais é o problema de realizar o mínimo de testes para determinar inequivocamente qual linha de uma matriz de diagnóstico {Presença x Sintoma} se procura.

Mas pode-se complicar ainda mais com sintomas que estão presentes em um percentual de doenças mais não em outros (e nos aproximarmos da realidade). Vamos dizer agora que os sintomas são somente S11, S12, S13 e S14. Mas as doenças D1, D2, D3 e D4 tem frequências diferentes para estes sintomas. Vamos dizer que em D1 de cada 100 casos, 20 apresentam S11, 90 apresentam S12, 10 apresentam S13 e 50 apresentam S14. Podemos representar isso por:

D1 - {S11, S12, S13, S14} - (0.2, 0.9, 0.1, 0.5)

Podemos fazer o mesmo para as outras doenças

D2 - {S11, S12, S23, S24} - (0.3, 0.3, 0.3, 0.8)
D3 - {S11, S32, S33, S24} - (0.5, 0.5, 0.7, 0.9)
D4 - {S11, S42, S23, S44} - (0.4, 0.2, 0.6, 0.8)

Então como proceder neste caso? Bem, se os sintomas fossem independentes então seria fácil. Era só multiplicar todas os números e colocar um score de mais provável para menos provável. Mas frequentemente não existe essa independência. Dizer que de cada 100 casos, 20 apresentam S11 e 90 apresentam S12 não me diz nada sobre o número de casos que apresentam S11 e S12. Da mesma forma, os demais sintomas também podem ter alguma correlação.

Para expressar isso é necessária uma matriz que ligue os demais sintomas. Por exemplo:
  • De cada 10 pessoas que possuem o sintoma S11, 9 possuem S12, 7 possuem o sintoma S13 e 5 possuem o sintoma S14.
  • De cada 10 pessoas que possuem o sintoma S12, 5 possuem o sintoma S11, 8 possuem o sintoma S13 e 7 possuem o sintoma S14
  • De cada 10 pessoas que possuem o sintoma S13, 9 possuem o sintoma S11, 8 possuem o sintoma S12 e 7 possuem o sintoma S14
  • De cada 10 pessoas que possuem o sintoma S14, 6 possuem o sintoma S11, 7 possuem o sintoma S12 e 4 possuem o sintoma S13
Note que isto é diferente de expressar o problema em termo do número de casos que tem D1 e apresentam o sintoma S11, S12, S13 e S14. O que estamos dizendo aqui é Dado que nos 10 casos que o sintoma S11 apareceu, o sintoma S12 apareceu em 9 deles (P(S12|S11) = 0.9).

Este tipo de relacionamento, em conjunto com o Teorema de Bayes permite determinar qual a doença (D1, D2, D3 e D4) é a mais provável. Como? Bem, o que informamos anteriormente é dado a doença D1, qual é a probabilidade de aparecer o sintoma S11 (0.2). Ou seja informamos P(S11|D1)=0.2 (Isto é normalmente diferente do que desejamos saber: qual é a probabilidade de D1 dado S11 (P(D1|S11)?

Na realidade queremos saber P(D1| S11 e S12 e S13 e S14)!

Como dá para ver, mesmo com um conjunto limitado de 4 doenças, o problema se torna complicado rapidamente. Fazer isto de cabeça só mesmo para House.

Aliás o título deste post é uma tradução (meia-boca) do trocadilho House always wins.

quarta-feira, 28 de março de 2012