Ele elencava o que chamou de as maiores mentiras nacionais:
A primeira mentira é chocante. Sustenta que "a Previdência Social está falida". Não é verdade, rabisca o ministro em seus alfarrábios. Os recursos da Previdência Social, se não fossem historicamente desviados para outras atividades, dariam para atender com folga e até com reajustes anuais maiores os pensionistas e aposentados. Não seria necessário obrigar os funcionários públicos que se aposentarem de agora em diante ficarão nivelados pelas vergonhosas cifras do INSS. Basta atentar para o que anunciaram, quando ministros, Waldir Pires, no governo Sarney, e Antônio Brito, no governo Itamar Franco. Nada mudou, apesar de que, quando assumiu, Fernando Henrique Cardoso dedicou-se a espalhar a falência imediata, certamente vítima da febre privatizante, que jamais deixou de cobiçar a Previdência Social pública. Agora, é o ministro do governo Dilma, Garibaldi Alves, que repete a cantilena da vigarice, ao estimular a previdência privada para engordar o lucro dos bancos.O problema da previdência social é um problema de caixa. Como não se tem um fundo de longo prazo, então os contribuintes tem de financiar anualmente as despesas dos aposentados e demais usuários da previdência. Certamente que há desvios, e há na afirmação "a previdência social está falida" um cerne de verdade. E o ex-ministro parece ter convenientemente esquecido das reformas da previdência durante o governo FHC e durante o governo Lula. Então, o ex-ministro parece ter sofrido de um episódio de amnésia seletiva.
Outra mentira imposta ao Brasil como verdade, conforme Bierremback, é de que "estamos inseridos no mundo globalizado". Para começar, globalizado o planeta não está, mas apenas sua parte abastada. O fosso entre ricos e pobres aumenta a cada dia, bastando lançar os olhos sobre a África, boa parte da Ásia e a América Latina. O número de miseráveis se multiplica, sendo que os valores da civilização e da cultura são cada vez mais negados à maioria. Poder falar em telefone celular constitui um avanço, mas se é para receber eletronicamente informações de que não há vagas, qual a vantagem? Os países ricos entraram em colapso, mas que solução apresentam? Explorar os países em desenvolvimento enchendo-nos de euros e de dólares que não queremos e nem precisamos, para entrarem de manhã e saírem à noite lucrando com os juros mais altos do planeta, sem haver criado um emprego nem forjado um parafuso.A impressão que tenho é que o ex-ministro não tem idéia do que significa estar inserido no mundo globalizado. No meu entendimento, diminuir o fosso entre ricos e pobres, o número de miseráveis não são requisitos para se inserir em um mundo globalizado. O que aliás me vem a mente: como o ex-ministro sabe que o número de miseráveis se multiplica? As informações são justamente que a taxa de desemprego vem diminuindo.
Este parece ser mais um caso de amnésia seletiva.
Como consequência, outra mentira olímpica surge quando se diz "que o neoliberalismo é irreversível". Pode ser para as elites, sempre ocupando maiores espaços no universo das relações individuais, às custas da continuada supressão de direitos sociais e trabalhistas. Se neoliberalismo significa o direito de exploração do semelhante, será uma verdade, mas imaginar que a Humanidade possa seguir indefinidamente nessa linha é bobagem. Na primeira curva do caminho acontecerá a surpresa. Ou melhor, já apareceu, com a indignação das massas trabalhadoras, na Europa, diante da redução de salários e de direitos sociais.No caso do neoliberalismo como conceito puro, então ele tem razão. Mas no caso do conceito que ele retrata, então ele confunde neoliberalismo com exploração. Neoliberal foi um nome dado a determinadas ações que não tem nada a ver com o contexto original. O ex-ministro tenta equacionar neoliberalismo com exploração - e isto não é verdade. A coisa é bem mais complicada do que ele tenta mostrar aqui.
Na mesma sequência, outra mentira, para o antigo vice-presidente do STM: "o socialismo morreu". Absolutamente. Poderá ter saído pelo ralo o socialismo ditatorial, por décadas liderado pela ex-União Soviética, mas o socialismo real, aquele que busca dar aos cidadãos condições de vida digna, a cada um segundo sua necessidade, tanto quanto segundo a sua capacidade. O que não pode persistir, e contra isso o socialismo se insurge, é a concentração sempre maior de riqueza nas mãos de uns poucos. Não pode dar certo.Aqui ele comete o erro clássico: o que é o socialismo? Não é simplesmente a doutrina de amar o seu semelhante. Aliás, com frequência, as implantações do socialismo tendem a dar a impressão exatamente do contrário. A impressão é que o socialismo "real", como ele chama deveria ser chamado de socialismo "utópico".
Nova mentira: "o Estado tem que ser mínimo, deve afastar-se das relações sociais e econômicas". Para que? Para servir às elites? Especialmente em países como o Brasil, o poder público precisa prevalecer sobre os interesses individuais e de grupos. Existe para atender às necessidades da população que o constitui, através da via democrática. Deve contrariar privilégios e estancar benesses para os mais favorecidos, atendendo as massas.Pois bem, aí eu noto um viés no sentido de "Super-Estado" no que o ex-ministro escreveu. Essencialmente, o Estado para ele deve ser o Estado Pai, Mãe e Patrão. Seria ótimo se o Estado fosse presciente, onisciente, eficiente e onipotente. O problema é que não é nenhuma dessas coisas mesmo
Então qual é a conclusão? Devo dizer que parece que enquanto o Brasil parece ter saído da ditadura autoritária, a ditadura autoritária parece não ter saído do Brasil. Tem um "via democrática" aqui, um "vida digna" ali, e um "encher de dólares e euros que não queremos" acolá (imagino que os banqueiros e investidores devam ter forçado os brasileiros a aceitar isto utilizando uma arma ou coisa similar). Mas no fundo é um Estadão senhor de tudo que merecemos.
E o que o ex-ministro pensa está aí, nas seguintes palavras: "Em quem você vai acreditar? Em mim ou nos seus olhos?"
