Saiu hoje no Correio Braziliense um artigo de opinião sobre a
questão da descriminalização das drogas.
E depois de ler o mesmo posso concordar em um ponto:
"Lamentavelmente, qualquer proposta nessa última direção tem sido vista como leviana, o que gera um sectarismo paralisante: de um lado, colocam-se os autoproclamados missionários do bem; de outro, os acusados de serem propagadores do mal. Quanto simplismo!"
No artigo, esta frase tem outro viés, mas revela uma característica importante: o debate infantilizado.
Sim, quando o leitor vê um debate em que os personagens encarnam bem versus mal, ou mocinhos versus bandido, estará provavelmente vendo um debate que foi simplificado ao tal ponto que virou estória para crianças. A simplificação ocorre quando o problema que se quer discutir é reduzido a pontos em que se permitam tomar decisões do tipo certo ou errado.
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| Exemplo de simplismo: Este #@%$ é mau e essa foto é a prova cabal! |
Naturalmente, tudo é muito mais complicado.
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| Ixi! Imaginou que deu nó na cabeça de muita gente agora! |
Ainda assim esta simplificação do debate é muito comum mesmo. Posso citar alguns debates importantes que são frequentemente infantilizados: drogas, aborto, pena de morte, penas perpétuas, público versus privado, e etc...
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| Há um oceano de conexões e efeitos que o simplismo não mostra. |
Os argumentos são um primor: o fim da proibição irá acabar com o tráfico (meia verdade - contrabando sempre vai existir, vide drogas legalizadas), devemos proibir pois faz mal para saúde (meia verdade - há um número enorme de produtos que fazem mal para saúde e não são proibidos), devemos liberar pois outros produtos (meia verdade - não é porque um produto X é liberado que um produto Y também deva ser liberado), devemos liberar pois não conseguimos controlar as organizações criminosas (meia verdade - o problema aí é o produto ou as organizações criminosas?), devemos liberar pois há pessoas que usam estes produtos segundo sua religião (meia verdade - isto justifica para estas pessoas, mas e as demais?), devemos liberar pois há aplicações médicas de tais produtos (meia verdade - de novo, isto justifica para algumas pessoas, mas e as demais?).
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| Não é exatamente um exercício sério para o Tico e o Teco |
E assim vai: debate infantilizado cheio de meias verdades, tentando desesperadamente "criar mocinhos e bandidos".
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| Zorro: bandido para os espanhóis e mocinho para os americanos! |
A lição importante aqui não é que o debate precisa ser infantilizado para que as pessoas compreendam. A lição é que mesmo em temas complicados, as pessoas (e o leitor) devem compreender que há muitas questões envolvidas no debate, e que definir cursos de ação pode depender de situações específicas. Talvez penas de morte sejam soluções socialmente aceitáveis sob determinadas circunstâncias, talvez o aborto também, talvez a liberação de drogas, talvez a proibição de drogas... E assim vai.
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| E a zona de cinza é muito maior que as zonas de preto e branco combinadas. |
O importante é que o leitor compreenda que o tema não pode ser reduzido a personagens de desenho animado. O importante é que só depois de compreender isto é que o leitor deve formar sua opinião.