Ontem vi um documentário intitulado "
O Nascimento do Shopping Center". A tradução para o português foi equivocada. Um título melhor teria sido "O Nascimento da Loja de Departamentos", mas creio que hoje em dia tal título teria pouca ressonância pois o que eu conheci como loja de departamento (Sears, Mappin, Slopper) não tem a mesma projeção que já possuiram um dia.
A loja de departamentos é essencialmente um lugar único aonde tem tudo. O documentário falava na Selfridge (Inglaterra), Wannamaker (EUA), Myer (Austrália), Le Bon Marche (França) e Macys (EUA).
Tirando a Macys os outros nomes não tem tanta ressonância quanto já outrora tiveram. Um exemplo de como funcionava uma loja de departamentos pode ser (incrivelmente) visto em uma
comédia de Jerry Lewis.
Mas a tradução equivocada não é ponto deste post. O ponto trata justamente das análises dos sociólogos e afins que fazem o comentário do documentário.
Eu já havia dito aqui que é importante não confundir documentário com a verdade. O mesmo é apenas uma interpretação dos fatos segundo a ótica do próprio documentarista. Mas o curioso das análises é que os próprios analistas embutem capacidade análitica e de visão tão profunda nos donos de loja que os mesmos fazem parecer que sabiam muito mais de ciências sociais do que os papas da área na época e mesmo atualmente.
Em suma, os donos de lojas tinham um tirocínio e um conhecimento da sociedade que rivalizariam os maiores estudiosos da sociedade de qualquer época.
Afinal, que outra explicação para tamanho sucesso e capacidade de visão?
Bem, permitam-me trazer uma forma diferente de ver o problema. Uma forma que não exige que os donos de loja tenham presciência, ou inteligência infinita, ou conhecimento completo...
Nesta interpretação não existem apenas os donos de loja que se tornaram vitoriosos e deixaram suas marcas, mas uma multidão de donos de loja todos competindo por sucesso.
Só que com o esquecimento da multidão que tentou e fracassou, só sobrou o conhecimento dos vencedores. Estes vencedores escolheram estratégias de sucesso aonde outros escolheram estratégias equivocadas para a situação que enfrentavam. E os vencedores foram bem sucedidos até o ponto em que não foram mais bem sucedidos (por uma variedade de motivos).
Então esta abordagem trata de uma mistura de aleatoriedade com escolha de estratégias bem sucedidas. Poderiamos chamar de teoria da seleção natural em um paralelo com a biologia.
O problema é que esta explicação não é bonitinha, nem ornamenta bem os vencedores. Os mesmos preferem narrativas aonde seus feitos de inteligência e perspicácia superaram barreiras aparentemente intransponíveis no caminho para o sucesso.
Ah... Se pelo menos pudessemos deixar de lado o orgulho e a vaidade na hora de fazermos análises realistas... Pelo menos nas ciências naturais temos a natureza que nos coloca nos trilhos eventualmente...
Pena que nas ciências sociais parece que não há tal força claramente definida. Assim terminamos com análises que são mais narrativas (historinhas) do que uma visão da sucessão de eventos que "enterraram" tantos concorrentes e deixaram outros em situação bem menos periclitante. Mas é difícil ver isso.
Creio que para tanto teríamos que analisar não apenas os casos de sucesso, mas os casos de fracasso também. E ver quais foram os pontos chaves aonde decisões ou estratégias mudaram o curso dos acontecimentos.
Por exemplo: quais foram as ações tomadas pelas lojas de departamento durante as crises econômicas? E quando falo das ações não falo apenas das lojas que sobrevireram, mas de todas as lojas.
Talvez assim possamos efetivamente desvendar um pouco do mecanismo real que permitiu o sucesso e a queda dessas lojas (sim, queda. Do contrário teríamos elas ainda por aqui).
Post Scriptum: Aliás em outra nota sobre interpretação, creio que o mesmo problema ocorre quando se estuda a audiência de programas televisivos: as pessoas parecem achar que quem determina a audiência é a emissora e não os espectadores.
Lamento dizer isto aos que pensam assim, mas quem determina a audiência são os espectadores. Se os mesmos gostam de programas que consideramos temos que aprender que isso é que determina o sucesso destes programas e não o contrário...
Ou seja, você pode até culpar a Globo por ter criado o "Big Brother Brasil", mas não pode culpá-la por o mesmo estar em sua décima quarta edição...