sexta-feira, 4 de abril de 2014

Não leram a pesquisa, mas a manchete do jornal!

Pesquisa do IPEA revela: sociedade brasileira é uma merda! (Normalmente evito escrever este tipo de interjeição - mas hoje abri uma exceção)

Bem, a manchete é bombástica. E não se trata exatamente disso. Este post trata da pesquisa do IPEA divulgada amplamente por aí.

Meu interesse são os dados da pesquisa original. As pessoas foram perguntadas se concordavam com certas frases ou não. As frases são:
  1. Os homens devem ser a cabeça do lar
  2. Toda mulher sonha em se casar
  3. Uma mulher só se sente realizada quando tem filhos
  4. Casais de pessoas do mesmo sexo devem ter os mesmos direitos dos outros casais
  5. Casamento de homem com homem ou de mulher com mulher deve ser proibido
  6. Um casal de dois homens vive um amor tão bonito quanto entre um homem e uma mulher
  7. Incomoda ver dois homens, ou duas mulheres, se beijando na boca em público
  8. A mulher casada deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando não tem vontade
  9. Tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama
  10. A questão da violência contra as mulheres recebe mais importância do que merece
  11. O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros
  12. Em briga de marido e mulher, não se mete a colher
  13. A roupa suja deve ser lavada em casa
  14. Casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família.
  15. Quando há violência, os casais devem se separar
  16. Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia
  17. A mulher que apanha em casa deve ficar quieta para não prejudicar os filhos.
  18. É violência falar mentiras sobre uma mulher para os outros.
  19. Um homem pode xingar e gritar com sua própria mulher. 
  20. Dá para entender que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher
  21. Dá para entender que um homem rasgue ou quebre as coisas da mulher se ficou nervoso
  22. É da natureza do homem ser violento
  23. Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar
  24. Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas
  25. Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros
Muito bem, estas são as perguntas. Vamos ver como foi que foi divulgado? Bem, quase nada das anteriores, mas um bocado das duas últimas. Só que se você der uma olhada na internet e notícias vai ver que a penúltima pergunta foi mudada para:

Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser estupradas.

E, aqui mora o busílis: eu suspeito que se a afirmação fosse "merecem ser estupradas" ao invés de "merecem ser atacadas", então a resposta da pesquisa seria muito diferente. Naturalmente o estupro é uma uma forma de ataque, mas nem todo ataque é estupro. Então eu suspeito que temos um caso de substituição aí (pro causa da possível ambiguidade da pergunta), mas é preciso ter certeza que este é o caso. Para tanto vamos ver como é que os brasileiro responderam em cada questão. Para simplificar vou postar somente o concorda/concorda parcialmente com a afirmação.
  1. Os homens devem ser a cabeça do lar - 63.8% concorda,
  2. Toda mulher sonha em se casar - 77.8% concorda
  3. Uma mulher só se sente realizada quando tem filhos - 59.5% concorda
  4. Casais de pessoas do mesmo sexo devem ter os mesmos direitos dos outros casais - 50.1% concorda
  5. Casamento de homem com homem ou de mulher com mulher deve ser proibido - 51.7% concorda
  6. Um casal de dois homens vive um amor tão bonito quanto entre um homem e uma mulher - 41.1% concorda
  7. Incomoda ver dois homens, ou duas mulheres, se beijando na boca em público - 59.2% concorda
  8. A mulher casada deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando não tem vontade - 27.2% concorda
  9. Tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama -54.9% concorda
  10. A questão da violência contra as mulheres recebe mais importância do que merece - 22.4% concorda
  11. O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros - 81.9% concorda
  12. Em briga de marido e mulher, não se mete a colher - 78.7% concorda
  13. A roupa suja deve ser lavada em casa - 87% concorda
  14. Casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família - 63% concorda 
  15. Quando há violência, os casais devem se separar- 85% concorda 
  16. Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia - 91.4% concorda
  17. A mulher que apanha em casa deve ficar quieta para não prejudicar os filhos. - 15.5% concorda
  18. É violência falar mentiras sobre uma mulher para os outros - 68.1% concorda
  19. Um homem pode xingar e gritar com sua própria mulher - 89.2% concorda
  20. Dá para entender que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher
  21. Dá para entender que um homem rasgue ou quebre as coisas da mulher se ficou nervoso - 23.9% concorda
  22. É da natureza do homem ser violento - 21.5% concorda
  23. Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar - 26% concorda
  24. Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas - 65.1% concorda
  25. Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros - 58.5% concorda
Mas vamos dizer que eu esteja me iludindo, acreditando que o povo brasileiro é melhor do que na realidade.  Bem, para ter um ponto de partida, eu tenho que desconfiar do IPEA. E aí começar a olhar a letrinha miúda no contrato. Um detalhe que chama a atenção é este:
"O questionário foi composto de uma parte inicial de caracterização socioeconômica dos respondentes, alguns módulos fixos do SIPS (perguntas da iniciativa My World e sobre satisfação com a vida) e de uma seção específica composta por 27 frases relacionadas à tolerância à violência contra mulher, das quais 25 foram analisadas neste documento. Essas frases foram lidas para os entrevistados, que em seguida deveriam dizer se concordavam total ou parcialmente, ou se discordavam total ou parcialmente, ou se nem concordavam nem discordavam (neutralidade)."
Então, das 27 frases lidas, o documento apresentou 25 frases. As frases que não estão aqui podem ou não ser relevantes. Mas isso não é tão importante assim.

Ao entramos nas notas técnicas o primeiro ponto importante é o uso da regressão logística. E aí olha só o que nós temos:

Os homens devem ser a cabeça do lar - 63.8% concorda
O modelo de regressão logística é um modelo de classificação probabilística que usa uma curva já bastante mencionada neste blog. Eu não conheço muito bem, mas parece utilizar a famosa curva logística como modelo de cdf. Vamos ao que foi colocado no relatório:
  • Discorda totalmente: 24.8%
  • Discorda parcialmente: 8.5%
  • Neutro 2.7%
  • Concorda parcialmente 22.9%
  • Concorda totalmente 40.9%
Pelo que pude averiguar, este resultado é o global. Infelizmente não consegui obter exatamente estes dados das respostas colocadas no relatório. Mas há informações interessantes.:

Logistic regression Number of obs = 3810 
 LR chi2(8) = 275.76 
Prob > chi2 = 0.0000 
Log likelihood = -2357.5647 Pseudo R2 = 0.0553 
 ------------------------------------------------------------------------------ 
 depq18 |   Odds Ratio      Std. Err.        z    P>|z|    [99% Conf. Interval] 
-------------+---------------------------------------------------------------- 
 sse |             .6156194    .0445374   -6.71   0.000    .5109536 .7417254 
 idoso |       1.694951      .1756411     5.09   0.000  1.297878 2.213504 
 fem |            .5824232    .0447548   -7.03   0.000    .4778345 .7099043 
 cato |         1.395442      .1632311     2.85   0.004  1.032419 1.886112 
 evan |        2.126829      .2793695     5.74    0.000  1.516317 2.983151 
 edufunda |   .680706      .0656162    -3.99   0.000    .5310389 .8725552 
 edumedia |  .5733209    .0501974    -6.35   0.000    .4575644 .7183619 
 edusuper |   .3172155    .0495986    -7.34   0.000    .2120526 .4745317 
 _cons |      2.879624     .4109589      7.41   0.000  1.993827 4.158953 
------------------------------------------------------------------------------ 
Correctly classified 65.93% 
Pesquisando um pouco vejo que este tipo de saída é a do software stata. Eu até procurei saber mais sobre o software e regressão logística. Mais ainda eu vejo esta informação adicional:
"Além disso, buscou-se modelar, para cada uma das sentenças, a variação da concordância em função de características objetivas dos indivíduos entrevistados. Para tanto, foram elaborados modelos logit clássicos, cuja variável dependente dividia os entrevistados em dois grupos, com os que concordaram total e parcialmente codificados como um, e, os demais como zero. Foram considerados, inicialmente sete grupos de características: região de residência, sexo, cor ou raça, idade, religião, escolaridade e renda."
Isto quer dizer:
  • Concorda total ou parcialmente = 1
  • Discorda total ou parcialmente =0
As características da população entrevistada (3810 pessoas) são estas:
A) Residentes no Sul ou Sudeste (sse): 56,7% 
B) Residentes em áreas metropolitanas (metro): 29,1% 
C) Pessoas jovens, 16 a 29 anos (jovem): 28,5% 
D) Pessoas adultas, 30 a 59 anos: 52,4% 
E) Pessoas idosas, 60 ou mais anos (idoso): 19,1% 
F) Mulheres (fem): 66,5% 
G) Brancos (branco): 38,7% 
H) Católicos (cato): 65,7% 
I) Evangélicos (evan): 24,7% 
J) Demais religiões, ateus e sem religião: 9,6% 
K) Menos que o ensino fundamental: 41,5% 
L) Ensino fundamental (edufunda): 22,3% 
M) Ensino médio (edumedia): 30,8% 
N) Ensino superior (edusuper): 5,4% 
O) Renda domiciliar per capita média: R$ 531,26 
Note que segundo estas informações podemos afirmar, baseado na tabela que
O texto de análise neste tópico diz:
"Em relação a pessoas que não são católicas ou evangélicas, os primeiros têm chance 1,4 vez maior de tender a concordar e os últimos, 2,1 vezes maior. A chance de os homens concordarem total ou parcialmente é 1,7 vez maior do que a das mulheres. E quanto mais elevada é a escolaridade, menor é a tendência a concordar."
Isto quer dizer cato=1.4, evan=2.1, fem=1/1.7 =.5882352941. A tabela mostra: cato= 1.395442, evan=2.126829 e fem=.5824232. O grupo de odds ratio maior que 1 tende a concordar mais com a sentença. Eu imagino que os grupos omitidos na lista provavelmente tem a mesma igual a 1 (não dá para ter certeza se metade concorda e metade discorda - possivelmente o intervalo de confiança continha o 1).

Muito bem, isso quer dizer que odds ratio permite saber o incremento ou decremento de acordo com a variável. No caso da variável mulheres (fem):

OR=(p_mulheres_concorda/p_mulheres_discorda)/(p_não_mulheres concorda/p_não_mulheres_discorda) =(p_mulheres_concorda/p_mulheres_discorda)/(p_homens_concorda/p_homens_discorda)

p_mulheres_concorda/p_mulheres_discorda=0.58*p_homens_concorda/p_homens_discorda
p_mulheres_concorda*66.5+p_homens_concorda*33.5=0.657
p_mulheres_discorda*66.5+p_homens_discorda*33.5=24.8+8.5=0.343
p_mulheres_concorda+p_mulheres_discorda=1

Isso dá um conjunto de 4 equações e 4 icógnitas.

Logo: p_homens_concorda=.7356546325 e p_mulheres_concorda=.6174590692

O que isso significa?
  • 73.6% dos homens concorda com a afirmativa e 26.4% discorda da alternativa
  • 61.7% das mulheres concorda com a afirmativa e 38.3% discorda da alternativa
Muito bem, colocado isso vamos as duas questões polêmicas:
Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas - 65.1% concorda

Logistic regression Number of obs = 3810
 LR chi2(4) = 209.14
Prob > chi2 = 0.0000
Log likelihood = -2079.1928 Pseudo R2 = 0.0479

------------------------------------------------------------------------------
 depq15 | Odds Ratio Std. Err. z P>|z| [99% Conf. Interval]
-------------+----------------------------------------------------------------
 sse | .419368 .0319289 -11.41 0.000 .3446867 .5102302
 jovem | .6887316 .0619444 -4.15 0.000 .5463076 .8682859
 edumedia | .67498 .0588612 -4.51 0.000 .5391854 .8449747
 edusuper | .3421983 .0754895 -4.86 0.000 .1938643 .604029
 _cons | .7112971 .0430464 -5.63 0.000 .6086271 .8312866
------------------------------------------------------------------------------
Correctly classified 73.99%

Só dá para fazer a análise mesmo do grupo geográfico

p_sul_sudeste_concorda/p__sul_sudeste_discorda=.419368*p_não_sul_sudeste_concorda/p_não_sul_sudeste_discorda
p_sul_sudeste_concorda*56.7+p_não_sul_sudeste_concorda*43.3=0.67
p_sul_sudeste_discorda*56.7+p_não_sul_sudeste_concorda*43.3=0.33
p_sul_sudeste_concorda+p_sul_sudeste_discorda=1

Ou seja: p_sul_sudeste_concorda=.5903358167 e p_não_sul_sudeste_concorda=.7743177643

Isso é interessante: a maior parte da concordância das respostas veio do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O que isso significa?
  • 59% dos entrevistados provenientes do sul-sudeste concorda com a alternativa e 41% discorda.
  • 77.4% dos entrevistados provenientes do restante do Brasil concorda com a alternativa e 22.6% discorda da alternativa.
Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros - 58.5% concorda

Logistic regression Number of obs = 3810 
 LR chi2(7) = 160.91 
Prob > chi2 = 0.0000 
Log likelihood = -2505.0631 Pseudo R2 = 0.0311 
------------------------------------------------------------------------------ 
 depq21 | Odds Ratio Std. Err. z P>|z| [99% Conf. Interval] 
-------------+---------------------------------------------------------------- 
 sse | .5735135 .039498 -8.07 0.000 .4802869 .684836 
 jovem | .7965794 .0619156 -2.93 0.003 .6520465 .9731495 
 cato | 1.403487 .1612127 2.95 0.003 1.044027 1.88671 
 evan | 1.5347 .1943147 3.38 0.001 1.107604 2.126487 
 edufunda | .7706809 .0704765 -2.85 0.004 .6089417 .9753792 
 edumedia | .7431292 .0617396 -3.57 0.000 .5999635 .9204578 
 edusuper | .3688188 .0570729 -6.45 0.000 .2475738 .5494414 
 _cons | 1.843867 .2308136 4.89 0.000 1.335659 2.545444 
------------------------------------------------------------------------------ 
Correctly classified 61.18%

p_sul_sudeste_concorda/p__sul_sudeste_discorda=.57*p_não_sul_sudeste_concorda/p_não_sul_sudeste_discorda
p_sul_sudeste_concorda*56.7+p_não_sul_sudeste_concorda*43.3=0.61
p_sul_sudeste_discorda*56.7+p_não_sul_sudeste_concorda*43.3=0.39
p_sul_sudeste_concorda+p_sul_sudeste_discorda=1

Ou seja: p_sul_sudeste_concorda=.5530255880 e p_não_sul_sudeste_concorda=.6846062162
Como o caso anterior, a maior parte da concordância veio do Nordeste, Centro-Oeste e Norte. O que isso significa?
  • 55.3% dos entrevistados provenientes do sul-sudeste concorda com a alternativa e 45% discorda.
  • 68.4% dos entrevistados provenientes do restante do Brasil concorda com a alternativa e 31.6% discorda da alternativa.
Aqui é possível fazer a análise com mais detalhes também na educação. Mas há o problema de ter mais categorias.

Mas já podemos tirar algumas conclusões

O questionário tem problemas sérios:
  1. A escolha de ditados populares  foi equivocada (Briga de marido e mulher e Roupa Suja). Não é a toa que a enorme maioria concordou (essencialmente 3 de cada 4 pessoas). E concordavam mesmo quando o ditado contrariava opiniões de outras perguntas.
  2. A escolha de "devem ser atacadas" cria ambiguidade. Se eu acreditasse em teoria de conspiração, iria falar que a ambiguidade foi de propósito.
  3. As notas técnicas não tem informações suficientes, mas estão longe de estarem incompletas. Fica realmente difícil avaliar com imparcialidade
E por fim:
As pessoas não lêem! Creio que algo na vizinhança de 99+% emitiu opinião sobre o resultado da pesquisa do IPEA sem ler uma linha da mesma. Pior ainda: suspeito que há um percentual que só leu a manchete e a partir daí começou a emitir opinião.

Post Scriptum

O IPEA errou na pesquisa. Na realidade a conta é a seguinte:

Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas

 Vamos ao que foi colocado no relatório:
  • Discorda totalmente: 58.4%
  • Discorda parcialmente: 11.6%
  • Neutro 3.4%
  • Concorda parcialmente 12.8%
  • Concorda totalmente 13.2%
Isso dá 26% concorda. Comparando com o resultado de antes
  • Discorda totalmente: 24%
  • Discorda parcialmente: 8.4%
  • Neutro 1.9%
  • Concorda parcialmente 22.4%
  • Concorda totalmente 42.7%
Ou seja: o resultado é o oposto do que foi divulgado. O interessante é que o resultado anterior fica:
p_sul_sudeste_concorda/p__sul_sudeste_discorda=.419368*p_não_sul_sudeste_concorda/p_não_sul_sudeste_discorda
p_sul_sudeste_concorda*56.7+p_não_sul_sudeste_concorda*43.3=0.27
p_sul_sudeste_discorda*56.7+p_não_sul_sudeste_concorda*43.3=0.73
p_sul_sudeste_concorda+p_sul_sudeste_discorda=1

Ou seja: p_sul_sudeste_concorda=.1964360483 e p_não_sul_sudeste_concorda=.3682542585

Isso é interessante: a maior parte da concordância das respostas veio do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O que isso significa?
  • 19.6% dos entrevistados provenientes do sul-sudeste concorda com a alternativa e 80.4% discorda.
  • 33.7% dos entrevistados provenientes do restante do Brasil concorda com a alternativa e 66.3% discorda da alternativa.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

50 anos do Golpe Militar

Esta semana foi marcada pelo aniversário de 50 anos do golpe militar de 1964. Felizmente, a maioria das manifestações é de repúdio pela ditadura que se instalou por 20 anos do Brasil começando naquela data.

Mas este post não é para relembrar isto.

Este post é para mostrar um truque para descobrir o apoio a democracia ou não.

O truque é o seguinte: Pergunte a quem repudia o golpe de 1964 qual é a opinião do mesmo sobre a ditadura cubana. Se a pessoa tergiversar, então...

Quem condena o golpe de 1964, mas apoia a ditadura cubana não é democrata. Apenas hipócrita: apoia somente as "ditaduras do bem" (fico imaginando o tipo de pessoa que tem a Coréia do Norte como exemplo de "ditadura do bem").

Para esse pessoal "democracia é quando eu mando, e ditadura é quando você manda em mim". Nem mais, nem menos...

sexta-feira, 28 de março de 2014

Colocando dinheiro aonde a boca está

O título deste post é uma variante da frase em inglês Put Your Money where your Mouth is.

E este é o ponto aonde falham miseravelmente todos os "ativistas" da internet.

Diz que é um complô contra a Petrobrás?: Ótimo! Compre ações da mesma, assim você estará auxiliando a Petrobrás a vencer os momentos difíceis, mostrando aos críticos que acredita realmente naquilo que você fala, e de quebra ainda saí com um dinheiro - pois certamente a empresa irá se valorizar depois que perceberem que houve sub-avaliação.

Não quer fazer isto? Então, francamente....

Em tempo: em 2009 eu acreditei na Petrobrás e comprei R$ 5.000,00 de do fundo de ações da Petrobrás no Banco do Brasil - dinheiro suado! Sabe quanto é o valor hoje desta aplicação? R$ 1.738,10. Praticamente 1/3 do valor original.

Mas podia ser pior... Imagine se eu tivesse FGTS aplicado em ações da Petrobrás?

Então, quem quiser defender a evolução da Petrobrás na minha frente terá de colocar dinheiro aonde a boca está, ou seja: só vai merecer alguma atenção se comprar ações da Petrobrás.

De nada vale se já as tiver, e de nada vale se a compra for meramente simbólica (valores simbólicos).

Depois que tiver comprado os papéis, então só aí vai merecer um pouco de credibilidade...

Na minha opinião deveríamos fazer isto com todos os debates: que discute tem que demonstrar que realmente crê naquilo - e crê o suficiente para colocar em jogo algo de valor.

Suspeito que aí a enorme maioria dos "ativistas" iria preferir ficar quieto.

PS: Eu estou usando agora a palavra "ativistas" de modo um tanto quanto ruim. A razão é que estou gradativamente ficando sem paciência com gente que sempre teve tudo e age como revoltado.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Torcendo o Pepino, e a Verdade também

Saiu recentemente uma pesquisa sobre população carcerária.
Foram analisados os perfis de 751 presos de dez unidades de
Vamos aos fatos?

  • Aproximadamente 50% era reincidente
  • Aproximadamente 25%  tinha fugido de casa antes de completar 15 anos, sendo que 35.5% destes tomaram esta atitude devido à violência familiar
  • 40% dos detentos foi preso por roubo
  • 30% dos detentos foi preso por porte ou tráfico (66% dos crimes foi cometido por mulheres)
  • 16% dos detentos foi preso por crimes sexuais
  • 11% dos detentos foi preso por homicídio
  • 95% dos detentos é homem
  • 70% dos detentos tem filhos
  • 30% dos detentos não trabalhavam antes de serem presos
  • 84% dos detentos não conseguiu concluir o ensino médio.

E aqui há algumas informações importantes. A primeira delas é sobre o tamanho da amostra. Com 751 amostras e percentagem de 50%, o intervalo de confiança é de 3.57% (com 99% é de 4.7%). Então todos os dados na pesquisa tem mais ou menos 3.6% de margem de erro neles.

A segunda coisa é que se 25% dos detentos tinha fugido de casa e 35.5% destes tomaram esta atitude devido a violência familiar, isto constitui cerca de 8.875% do total - ou 66 detentos.

O terceiro e mais interessantes é quanto a natureza do roubo: 66% dos crimes relacionados à drogas foi cometido por 5% da população. Quer dizer:

p(mulher | crime relativo a drogas) = 0.66
p(homem | crime relativo a drogas) = 0.34
p(homem)=0.95
p(mulher)=0.05

Rearranjando:

p(crime relativo a drogas | mulher)=(0.66 *0.95)/(0.05*0.34)*p(crime relativo a drogas | homem)

ou seja: 

 p(crime relativo a drogas | mulher)=37*p(crime relativo a drogas | homem)

O que quer dizer que a razão de que o tráfico de drogas é razão de encarceramento 37 vezes mais provável para mulheres do que para homens.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Mais um Fim do Mundo?

Uma manchete de impacto: O colapso da civilização?
      Charts show possible scenarios for collapse of civilization.
     
Source:LiveScience
Mas, naturalmente, há diversos poréns não explicados no texto do artigo.

O paper  'Human and Nature Dynamics (HANDY): Modeling Inequality and Use of Resources in the Collapse or Sustainability of Societies' não foi solicitado, revisado ou pedido pela Nasa. Mas sim, teve financiamento parcial.

O artigo original (bem como outro) traz muito mais informações do que o texto indica, e uma dessas informações mais importante é há o espectro do colapso em sociedades igualitárias (sem elites), com trabalhadores e sem trabalhadores, e nas sociedades com elites. Ou seja: Todas as formas de sociedade simuladas apresentaram colapso sob certas condições.

Isto é bem diferente do que o texto do artigo com a manchete anterior tenta repassar :"Ele sugere que a civilização moderna pode estar à beira de um colapso, da qual pode até não se recuperar mais."

O que o texto do artigo diz? "In this paper we attempt to build a simple mathematical model to explore the essential dynamics of interaction between population an natural resources"

A palavra importante aqui é "simple". Este é um modelo simplificado (mas não podemos dizer que simplista) que inclui parte da dinâmica do processo.

Ele não é o modelo completo e sequer um modelo que permita realizar predições em sociedades já conhecidas.

Mas o importante, tirando a mensagem fatalista da manchete, é que já há modelos razoavelmente complexos que permitem observar alguns dos  comportamentos vistos em sociedades humanas. E isso já um grande achado!

terça-feira, 25 de março de 2014

54% acreditam que a Copa do Mundo no Brasil será no Máximo Regular

Esta é a manchete publicada aqui. Parece meio desesperador para a Copa, não?

Bem...

Felizmente há mais dados no artigo que merecem ser divulgados:

Do total:
  • 8% acreditam que a Copa será ruim
  • 16% acreditam que será péssima
  • 30% que será regular
  • 31% que será boa
  • 13% que será ótima

Colocado dessa forma a notícia parece mudar de tom, não é mesmo?

Pois a pesquisa tem muito mais dados interessantes

  • Dos entrevistados com mais de 60 anos, 36% acreditam que a copa será boa e 10% que será ruim (17% que será péssima)
  • Dos entrevistados com menos de 24 anos, 30% acreditam que a copa será boa e 6% que será ruim (14% que será péssima)
  • A avaliação da Copa mais positiva é entre as pessoas menos escolarizadas (8% Ruim e 15% Péssimo) e nas Classes D e E (7% Ruim e 12% Péssimo). 
  • A avaliação da Copa mais negativa é entre as pessoas mais escolarizadas (9% Ruim e 19% Péssimo) e nas Classes A e B (10% Ruim e 20% Péssimo)
  • Dado o intervalo de confiança e o número de entrevistados dá para dizer que 8 e 9 são a mesma coisa, Já 15 e 19 (e 12 e 20) são informações distintas.

Mas há mais alguns pontos interessantes:

  • 82% tem intenção de assistir aos jogos
  • 81% tem interesse pela Copa

O que isso quer dizer?
A maioria do povo brasileiro quer Copa. Quem tentar acreditar o contrário vai quebrar a cara (talvez literalmente).

segunda-feira, 24 de março de 2014

Sete Conselhos Sobre Andar de Bicicleta

Eu tenho mudado meus hábitos a respeito de locomoção.
Minha berlinetinha!
Na realidade, passei a juntar o útil ao agradável: passei a vir ao trabalho de bicicleta. As razões não são as do cicloativismo, mas essencialmente saúde e racionalidade.
Voar? Seriously?
O fato é que andar de bicicleta é bem agradável e mesmo a ida ao trabalho passa a ser bastante interessante e, por que não dizer, saudável.
Cicloativismo: tentando convencer as pessoas a fazer o certo do modo errado.
Mas há algumas coisas que descobri que merecem ser compartilhadas:

  1. Bicicleta e chuva não combinam - vai ter gente que vai dizer que pode funcionar e até juram de pés juntos que você vai gostar. Mas o teste para verificar é simples: saia na chuva sem guarda-chuva e veja se você gosta. De preferência em uma chuva torrencial.
  2. Distâncias menores que 10 km são o ideal para deslocamento de bicicleta - passou de 10 km, o percurso de bicicleta passa a ter inconvenientes respeitáveis: o conceito de tomar banho no trabalho passa a ser mais do que apenas um conceito. Acima de 10 km , há necessidade de uma muda de roupas e o tempo de trânsito começa a encostar na faixa de 60 minutos.
  3. É necessário planejamento -  uma programação bem planejada tem de ser feita para levar em conta os deslocamentos de ida e volta, bem como os horários de trabalho.
  4. O deslocamento a noite exige cuidados adicionais - faróis de carro demais e iluminação de menos são uma combinação danada para causar acidentes em ciclovias.
  5. Vá em ciclovia - andar na rua de bicicleta parece bonitinho, mas se você preza sua vida (ou sua integridade física) evite esta opção o máximo possível. Idealmente carros, bicicletas e pedestres deveriam dividir irmamente as ruas, assim como os leões e os cordeiros...
  6. O percurso de ida ao trabalho deve ser de preferência em declive ou plano - andar de bicicleta exige esforço físico, e isso leva ao suor. Não tem jeito: É tolice pedir as pessoas para se deslocarem morro acima de bicicleta, quando as mesmas tem opções que não irão cansa-las.
  7. Não dá para carregar muita coisa na bicicleta - mas dá para carregar alguma coisa. É perfeitamente possível incluir o bicicleta para ir ao mercado (quando as compras são poucas), ou para deslocamentos curtos. Qualquer coisa mais longa ou com mais itens para carregar passa a ficar complicado...
Estes são as principais observações. Mas depois eu trago outras;.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Possível, mas Improvável

Um dos argumentos que ouço muito quando em algum debate é baseado no conceito de "Ah, mas isso pode acontecer!".

Francamente, este aí só perde em "falta-de-argumentos-consistentes" para "Ah, mas essa é minha opinião!"

O problema com o argumento do "Pode acontecer" é que realmente pode acontecer! Para poder acontecer basta ser listado no rol das possibilidades. Isso não tem dúvidas, e mais ainda há eventos que são praticamente impossíveis de acreditar mas possíveis de acontecer (como atravessar paredes, teleportar-se espontaneamente, água transforma-se em ouro, etc...).

Mas são isso mesmo: apenas possibilidades.

E o problema com possibilidades é que, em geral, as pessoas não ligam diretamente a seu qualificador mais importante: a probabilidade.

Por exemplo: Se eu jogo uma moeda três vezes, há possibilidade de tirar três caras (ou três coroas, ou duas caras e uma coroa, ou duas coroas e uma cara). Mas a probabilidade de tirar as três caras é 1 em 8, enquanto a probabilidade de tirar duas coroas e uma cara é 3 em 8. E o pior: a probabilidade de tirar qualquer coisa que não seja três caras é 7 em 8.

"Ah, mas algum resultado tem de sair! Pode muito bem ser o que eu escolhi!"

Sim isto é verdade. Mas o que é necessário perguntar é o contrário: "qual são as chances de não sair o que eu escolhi!". Se estas forem muito grandes, então talvez seja melhor repensar o argumento.

O que estou falando é que ao invés de pensar esperançosamente "Há uma chance em mil desta possibilidade ocorrer", pense em "Há novecentas e noventa e nove chances desta possibilidade não ocorrer!"

Parece mais pessimista? Talvez, mas na realidade é apenas realista!

Mas este post não tem como objetivo forçar as pessoas a abandonar suas esperanças (ou sonhos). O ponto principal deste post é lembrar que para cada argumento "Ah, mas isso pode acontecer!" existe um "Mas é muito mais provável que não aconteça".

E o segundo argumento é logicamente mais forte que o primeiro...

segunda-feira, 17 de março de 2014

Mais Divagações

Creio que comecei a enxergar uma abordagem para a questão da confiabilidade.

Em uma pesquisa da Adunb tivemos 616 respondentes (de um universo de 2241 professores).

Nesta pesquisa foram perguntadas duas questões. A primeira foi "Você é a favor da paralisação do dia 19/03?". Dos 616 respondentes 466 foram contrários e 150 a favor

Já a segunda questão "Você é a favor da retomada da greve de 2012?" teve 101 votos favoráveis e 515 contrários.

Esta pesquisa foi feita pela internet e até por isso não pode se analisada pelas mesmas ferramentas disponibilizadas em testes estatísticos comuns.

Mas há algo aqui.

Na primeira questão, o número mínimo de favoráveis do universo dos professores é 150 e o máximo é 2241-466 = 1775. Então o número de favoráveis encontra-se no intervalo [150, 1775].

Já o número mínimo de contrários a paralisação é 466 e o máximo é 2241-150 = 2091. Então o número de contrários encontra-se no intervalo [466, 2091].

Muito bem, na ausência de qualquer informação adicional sobre a distribuição de votos, a melhor alternativa é assumir que todos os pontos são equiprováveis. Isto significa modelar o intervalo como uma distribuição uniforme.

A distribuição uniforme dos votos favoráveis tem média: (150+1775)/2 = 962.5. Já a dos votos contrários tem média 1278.5.

Isto corresponde a um percentual de 43% favoráveis a paralisação e 57% contrários a paralisação.

E assumindo a distribuição uniforme, a probabilidade da média dos favoráveis a paralisação ser menor que 1278.5 é de 69.45%. Já a probabilidade da média dos contrários ser menor que 962.5 é 30.55%

A mesma idéia pode ser usada para o cálculo da segunda pergunta (dá 41.3% a 58.7%). O único ponto de suposição estatística usado aqui foi a distribuição uniforme - baseada no fato que não sabemos nenhum dado adicional

domingo, 16 de março de 2014

Pesquisas e Divagações

Depois de ler sobre tantas pesquisas na internet, passei a pensar se há alguma maneira de quantificar a probabilidade da mesma estar certa.

Por que? Porque em geral as pesquisas na internet falham no quesito de aleatoriedade. Via de regra, as mesmas raramente tem respostas de forma aleatória.

Então pensei em um experimento.

Imagine que temos uma proporção de p e 1-p em uma população de M pessoas. E vamos dizer que temos uma pesquisa com N respostas. Onde temos p1*N respostas a favor e (1-p1)*N respostas contrárias.

Quão diferente p1 pode ser de p? E qual é a probabilidade disto?

O melhor modo é fazer com pequenos números primeiro. Vamos dizer que M=10 e N=4. Vamos expandir N*(p1+q1)^4

p1^4+4*p1^3*q1+6*p1^2*q1^2+4*p1*q1^3+q1^4

p1^4 - os quatro respondentes votaram na opção relativa a p
4*p1^3*q1 - três respondentes votaram na opção relativa a p e 1 na relativa a 1-p
6*p1^2*q1^2 - dois votaram em p e dois em 1-p
4*p1*q1^3 - um votou em p e três em 1-p
q1^4 - os quatro respondentes votaram na opção relativa a 1-p

Tivermos 3 votos em p de 4. Como fica o gráfico da probabilidade quando variamos p de 0 até 1?

Note, caro leitor que quando p1 é 3/4 temos um máximo, mas podemos calcular as áreas relativas de ver a razão entre as áreas acima de 0.5 e abaixo de 0.5. A área abaixo de 0.5 vale 3/80 e a acima de 0.5 vale 13/80.

Eu diria que a razão das áreas é de 3 para 13 (perto de 1 para 4.3)

Isso é uma probabilidade? Bem, não necessariamente. Mas vamos ver no caso de 20 , aonde 16 votaram p e 4 votaram 1-p. Neste caso temos a curva

A razão entre as áreas é de 7547 para 2089605 (perto de 1 para 277)

Mas o que realmente quero saber é o seguinte: em uma pesquisa com 4 respostas eu tive o 3 a favor p e 1 contrário. Qual é a chance de eu ter o mesmo tipo de resposta na pesquisa com 20 pessoas?


Isso eu ainda estou estudando... Mas suspeito que as curvas acima tem parte da resposta.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Agora com a Inflação de fevereiro

Com os dados do IPCA de fevereiro, posso fazer algumas estimativas para inflação de 2014.

Como já havia mencionado em outro post, janeiro tinha 50% de ter inflação de 0.40% e 50% de 0.79% (ou 60% de 0.43% e 40% de 0.83%). O resultado oficial ficou em 0.69%.

Com os dados de janeiro, a inflação estimada fica em 5.56%. Vamos as probabilidades:

    97% de estar entre 3.9% e 6.8%
    99% de chance da inflação ficar abaixo de 6.8%
    37% de chance da inflação ficar abaixo de 5.2%

 Já a inflação de março tem 50% de ficar em 0.34% e 50% de ficar em 0.73% , Ou 60% de ficar em 0.37% e 40% de ficar em 0.77%. Algo na vizinhança de 0.53%.

terça-feira, 11 de março de 2014

Dados Interessantes

Saiu uma grande pesquisa encomendada sobre a SECOM sobre mídia.

E esta pesquisa tem detalhes interessantíssimos, sendo que alguns deles confirmam algumas idéias que eu já tinha.

Eu vou comentar muito mais sobre o assunto, mas alguns pontos valem ser destacados agora mesmo:

  • 97% dos brasileiros vêem televisão (sendo 65% todo o dia)
  • O programa mais assistido da TV Brasileira é o Jornal Nacional (35.1%), seguido da novela das 8/9 (31.5%)
  • 31% tem TV por assinatura
  • 60% dos brasileiros ouvem rádio
  • 46% dos brasileiros acessam a internet
  • 75% dos brasileiros NÃO leem jornais impressos
  • 95% dos brasileiros NÃO leem revistas impressas.

Isto está condizente com um post que fiz há muito tempo. Mas eu vou voltar a este assunto depois...

sexta-feira, 7 de março de 2014

Igualdade a Qualquer Preço

Leio sempre em várias redes sociais: boa parte dos problemas do Brasil é causada por sua desigualdade econômica.

Bem, difícil argumentar o contrário, não? Afinal temos até um coeficiente que explicita como é a distribuição de renda: o Gini.

Ora Bolas! Podemos até ver que os países com o Gini mais baixo são exatamente os mais avançados e com menos confilitos, não?

Em primeiro lugar temos a Dinamarca, com 24! Um exemplo de país! Seguido por Suécia (25), Noruega (25.8), Austria (26), República Checa (26), Slováquia (26), Ucrânia (26.4), Belarússia (26.5), Finlândia (26.9), Afeganistão (27.8) - Opa, Opa, Opa... Afeganistão????

Sim, o Afeganistão tem um Gini melhor do que o Brasil (54.7). Mas não é só ele... Melhor do que o Brasil temos ainda Cazaquistão, Etiópia, Paquistão, Egito, Iraque, Bangladesh, Índia, Albânia, Sudão, Síria. Irã, Uganda e muitos outros...

Então, caro leitor.... Como fica a explicação que boa parte dos problemas é causada por desigualdade econômica?

Ah... complicou um pouco agora, não?

Naturalmente, a saída para esse dilema é ver que igualdade econômica não é uma panacéia: se eu tenho 1 e todo mundo tem 1 o Gini é zero. Mas isso vale tanto para distribuição de pobreza quanto para distribuição de riqueza...

Lição? Temos de ter cuidado com o que repetimos cegamente. A maioria do que está sendo repetido por aí não se sustenta depois de uma análise de 10 segundos...

segunda-feira, 3 de março de 2014

Carnaval e Nove Meses Depois?

Uma das "sabedorias" incrustradas na cabeça de muita gente é que depois do carnaval tem as consequências - e usualmente elas aparecem nove meses depois....

Bem, isso não é nem de longe verdade.

Normalmente imaginamos que a probabilidade de nascer em qualquer mês do ano deva ser igual - ou seja deveríamos ter uma distribuição uniforme. Em outras palavras p(nascer em mês A) = p(nascer em mês B) = 1/12 (0.08333 - ou aproximadamente 8.33%)

Mas aí lembramos: "Ah, mas tem o Carnaval! Então esta probabilidade não deve ser igual para todos os meses - aliás deve ter um pico lá para novembro ou dezembro!"

Vamos aos dados reais?
  • Março    9,53
  • Maio    9,22
  • Abril    8,93
  • Janeiro    8,83
  • Junho    8,69
  • Julho    8,67
  • Fevereiro    8,45
  • Agosto    8,40
  • Setembro    8,10
  • Outubro    7,77
  • Novembro    7,00
  • Dezembro    6,40
Ora, ora... É mais provável um nascimento em março do que em dezembro!


E olhando os dados, vemos que os meses preferidos para concepção são:
  • Junho
  • Agosto
  • Julho
  • Abril
  • Setembro
  • Outubro
  • Maio
  • Novembro
  • Dezembro
  • Janeiro
  • Fevereiro
  • Março
E então leitores? O que pensam disso?

sábado, 1 de março de 2014

O Peso do Dinheiro

Uma das minhas curiosidades a respeito do dinheiro é quanto pesa 1 milhão de reais.

Eu fico pensando nisso quando vejo em filmes pastas cheias de dinheiro. Quanto dinheiro realmente tem em uma pasta dessas.

Bem, para saber isso temos de saber a dimensão da cédula (140 mm x 65 mm) e a sua gramatura (92 gramas por metro quadrado)

Como um metro quadrado possui 1 milhão de milímetros quadrados, isto quer dizer que a cédula pesa 92 microgramas por milímetro quadrado. Isto resulta em 837200 microgramas por cédula.

Convertendo para gramas temos 0.8372 gramas por cédula. O que quer dizer que 1 grama de cédulas corresponde a mais ou menos 1.20 reais em notas de 1.

Portanto R$ 837,20 reais em notas de R$ 1,00 correspondem a 1 quilo. Supondo que uma maleta consiga carregar algo perto de 20 quilos teremos R$ 16.744,00 por maleta.

Mas se usarmos notas de R$ 100,00 teremos R$ 1.674.400,00 na maleta.

Outro dado interessante é o famoso "vale quanto pesa". Temos que cada quilo corresponde a R$ 837,20 em notas de R$ 1,00 ou R$ 83.720,00 em notas de R$ 100,00. Daí fica fácil calcular o seu peso em dinheiro, caro leitor:
  • 10 quilos são R$ 8.372,00 em notas de R$ 1,00 ou R$ 837.200,00 em notas de R$ 100,00
  • 100 quilos são R$ 83.720,00 em notas de R$ 1,00 ou R$ 8.372.000,00 em notas de R$ 100,00
Em moedas esse valor é bem menor, naturalmente.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Inventor da Corrupção?

Eu estou recebendo frases no facebook a respeito do PT e da corrupção.

No embalo da absolvição dos mensaleiros, cabe discutir um pouco sobre uma delas. Uma das variantes da frase é essa a seguir:

NÃO SEJAMOS HIPÓCRITAS NEM IDIOTAS. Não foi o PT que descobriu ou inventou a corrupção no Brasil. Se acusarmos APENAS UM PARTIDO estaremos absolvendo os outros. Não caia nessa armadilha, que só interessa aos outros corruptos. TODOS OS PARTIDOS precisam responder pelos seus erros e ter compromisso com a nação.


Ah... por onde eu começo?


Bem, o maior problema com o PT e a corrupção nunca foi ter inventado a dita cuja. O problema com o PT e a corrupção é esse:


Entenderam, caros leitores? (entendeu Gilberto Carvalho?) Não votamos no PT para continuar com a corrupção (confesso que eu votei no Lula em 2002). E é Isso que torna o caso de corrupção do PT particularmente mais grave (e traiçoeiro).

O parágrafo foi construído para tentar minimizar a culpa do PT no tema corrupção através de alguns truques bem fáceis de convencer a maioria dos leitores. Vamos a eles:

NÃO SEJAMOS HIPÓCRITAS NEM IDIOTAS.

Isso mesmo: sejam honestos e inteligentes como os petistas! A frase é essencialmente um chamado: se você acredita que o PT é totalmente culpado então você é Hipócrita e/ou Idiota. Logo, como você não é hipócrita ou idiota, então você não pode acreditar que o PT é totalmente culpado! A saída? Bom eu tento não ser hipócrita ou idiota, mas nem sempre consigo. Então... permita-me pensar diferente até que você apresente sua argumentação...

Não foi o PT que descobriu ou inventou a corrupção no Brasil.

É óbvio que não. O que o PT fez foi enganar todo mundo dizendo que iria acabar com a corrupção (em defesa do PT: isso é tolice! O problema é muito mais profundo do que um bando de bandidos). Ah, e antes que digam: "Mas foi no governo do PT que se combateu mais a corrupção!" - isso é frase feita e não tem sentido: você não combate promiscuidade f... tudo que aparece pela frente. Em outras palavras: combater a corrupção criando mais corrupção é um tanto quanto contraditório (para ser bem light).

Se acusarmos APENAS UM PARTIDO estaremos absolvendo os outros.

Isso simplesmente não é verdade: primeiro não é um único partido que esta sendo acusado (PT, PL, PP, PTB e PMDB - duvida? Olhe aqui) . E segundo que acusar um partido não absolve os outros. E naturalmente: a lógica por trás dessa frase é: o PT tem corruptos, mas como os outros partidos também tem então não dá para acusar (o que é totalmente falso e além do mais, vide o comercial ratos)

Não caia nessa armadilha, que só interessa aos outros corruptos.

A armadilha aqui é tentar fazer você pensar que o PT não pode se acusado já que há outros corruptos que não foram acusados. Também não é verdade: não existe fila, senha ou atendimento preferencial para combater a corrupção. Quem tem interesse que você pense que temos que processar primeiro o tesoureiro de Tomé de Sousa para depois seguir em frente é o PT.

TODOS OS PARTIDOS precisam responder pelos seus erros e ter compromisso com a nação.

Duvido que alguém discorde disso: ninguém esta acima da lei! Bem, talvez exceto alguns iluminados aparentemente...

Um último ponto: por vezes também ouço a defesa: "Você está generalizando um partido por uns poucos!" É verdade, e eu geralmente não faria isso... Bem, não faria isso se:
  1. O PT não fizesse isso direto (mais ou menos como o MP)
  2. Os caciques do partido é que estavam metidos na confusão - e não a "plebe rude". Ou seja, isto é forte indício que o problema era institucional mesmo.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A violência nossa de cada dia

Violência está em alta... Pelo menos segundo os noticiosos aqui da terrinha.

Está mesmo? Bem, creio que sempre esteve (as taxas oscilam entre 22 e 27 homicídios por 100 mil habitantes desde 2000)...

Mas há a sensação de descontrole. E isso é bem curioso. Do jeito que vejo parte do problema, os "vigilantes" que surraram e amarraram um menor infrator (estou sendo light: ele era mesmo bandido) estavam de uma forma torta "dando uma lição no bandido" (o que certamente não funcionou)

Pode-se argumentar que pelo menos não foi do nível do esquadrão da morte, mas o vigilantismo é talvez a face mais realista do mundo com os heróis de histórias em quadrinhos (surrar e amarrar em um poste é algo que diversos personagens de quadrinhos fizeram e continuam fazendo).

Mas ao ler um texto postado na internet e divulgado por várias pessoas fiquei pensando:
  • Será que bandido nasce bandido?
  • Será que reabilitação funciona?
  • Será que a sociedade torna as pessoas bandidas?
Suspeito que as respostas a estas perguntas não é tão simples quanto o texto em questão tenta colocar. Em outras palavras, talvez reformulando as questões a dúvida torne-se mais evidente:
  • Há algum fator psicológico que aumente a probabilidade de cometer crimes?
  • Haverá pessoas nas quais a reabilitação não funciona?
  • O efeito da sociedade tende a inibir ou fortalecer tendências criminosas?
Aí creio que a resposta ao invés de Não, Sim e Sim passa a ser Talvez, Talvez e Não sei. A diferença de como as perguntas foram feitas torna a resposta diferente? Sim, por que temos a tendência a não responder as questões complicadas (já falei sobre isso: substituição).

A verdade é que nenhuma das questões tem respostas "preto no branco".

Provavelmente há fatores psicológicos, é bem capaz de haver casos impossíveis de serem reabilitados e suspeito que a sociedade tem um efeito sim que pode enfraquecer ou fortalecer tendências criminosas.

Qual é a força de cada um desses fatores? Aí, meus caros leitores, é necessário fazer um estudo profundo e bem fundamentado (com dados) para poder começar a mensurar alguma coisa.

E nisso eu concordo com o texto: precisamos saber as causas se quisermos resolver o problema.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Big Brother Brasil - culpa da Globo?

Bem, caros leitores, eu já tinha mencionado sobre o BBB. A razão que ele continua no ar é porque as pessoas assistem.

E aqui está a audiência para comprovar:
  • BBB 1 – 49 pontos (estréia) e 59 (final)
  • BBB 2 – 29 (estréia) e 45 (final)
  • BBB 3 – 38 (estréia) e 55 (final)
  • BBB 4 – 42 (estréia) e 56 (final)
  • BBB 5 – 46 (estréia) e 57 (final)
  • BBB 6 – 45 (estréia) e 51 (final)
  • BBB 7 – 43 (estréia) e 48 (final)
  • BBB 8 – 37 (estréia) e 46 (final)
  • BBB 9 – 37 (estréia) e 41 (final)
  • BBB 10 – 30 (estréia) e 40 (final)
  • BBB 11 – 35 (estréia) e 30 (final)
  • BBB 12 - 33 (estréia) e 26 (final)
  • BBB 13 - 25 (estréia) e 28 (final)

Notem que há realmente um declínio do BBB 1 até o BBB 13. A audiência de estréia do BBB 14 teve 30 pontos no IBOPE (como cada ponto corresponde a 65 mil domicílios na grande SP, então estamos falando de algo na vizinhança dos 2 milhões de domicílios). Para ter uma idéia, o IBOPE da novela Avenida Brasil foi de 51 pontos. A verdade é que o BBB nunca chegou nem perto do maior IBOPE da Globo (Roque Santeiro).

"Ah, RAX, mas a audiência tem clara tendência de queda! Então vai acabar em breve!"

Bem, eu também não sou fã do BBB. Mas tenho de me render as evidências: mesmo com a audiência em queda, a mesma ainda é muito maior que muita coisa que está no ar.

Então, caros leitores, apesar de não estar no patamar dos 50 pontos do IBOPE do início, creio que teremos de conviver com esse programa por alguns anos ainda...

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Calendários doidos

Eu estava lendo sobre o calendário métrico desenvolvido na revolução francesa e pensei comigo mesmo: será que não podemos criar um calendário que servisse para nós?

Um calendário sem anos bissextos, ou mesmo um calendário aonde todos os anos são bissextos, ou até um calendário mais, digamos divisível...

Seria possível?

1 ano tem 31558149.5 segundos
1 mês (lunar) tem 2360584.685
1 dia tem 86400 segundos

Um ano de 365 dias tem 31536000 segundos
Um ano de 364 dias tem 31449600 segundos

Por que 364? Porque 364 é divisível por 7 (52), 13 (28) e 28 (13). Assim temos um ano com 13 meses de 28 dias, com 52 semanas de 7 dias.

Bem, com um ano com 364 dias fixos (sem anos bissextos), cada unidade de segundo novo deste novo ano é 31558149.5/31449600 (1.003451538) vezes maior que o segundo como conhecemos.

Se quisermos manter coerência significa que o novo minuto será cerca de 0.34% maior (o que também significa que tanto a hora, quanto o dia serão cerca de 0.34% maior).

Se você acha muito isso significa que o dia se alongaria de cerca de 298 segundos antigos (quase 5 minutos antigos).

Parece até uma boa idéia, não?

Mas há um problema que estraga todo esse esquema: a duração real dos dias não é de 24 horas... Esta duração segue uma equação chamada de Equação do Tempo. E não só não é constante, como varia a cada dia.

E aí não adianta mudar a aumentar a duração dos segundos: como esta mudança é acumulativa o erro iria apenas se acumular.

Mas existe uma solução: fazer a duração dos segundos ser diferente de acordo com os meses...

Mas francamente, aí já começa a valer a pena ter que se preocupar se o mês tem 28,29,30 ou 31 dias e quantos dias tem o ano.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Algumas Verdades Absolutas

Sempre me incomodei quando alguém dizia "Não existem Verdades Absolutas!" (ou versões similares - mas em defesa do autor, ele meio que percebeu isso)

Suspeito que a maioria que proclama isso não percebe que ao afirma que "Não existem Verdades Absolutas" está criando um paradoxo lógico (muito similar ao paradoxo do barbeiro):

Se não existem verdades absolutas, então a frase é verdadeira e é uma verdade absoluta. Mas se a frase é verdadeira então ela deve ser falsa, pois não existem verdade absolutas.

E assim por diante...

A verdade é que existem sim verdades absolutas. Só que a enorme maioria está no reino da matemática. Quer saber de algumas?
E assim por diante...

Mas então de onde vem essa história de não existe verdade absoluta? Ora, da Escola de Frankfurt... Mais especificamente desse camarada aqui.

Só que... ele falou isso no contexto de ciências sociais e não no contexto de ciências naturais.

Então... o que aconteceu é que alguns transporam essa barreira - talvez sem pensar, talvez de forte convicção.

Mas fique tranquilo, caro leitor: existem sim verdades absolutas. Só que por enquanto isso so é possível de ser provado categoricamente na matemática (não coincidentemente através de uma prova matemática - um exemplo aqui).

Claro que se o leitor aceitar o sentido definido atualmente da flecha do tempo, então dá para gerar um bando de verdades absolutas, mesmo no campo social. Algo do tipo: Homero não conheceu a televisão, Shakespere não leu os livros de Paulo Coelho e assim por diante...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A Vida de Cada Um

Eu estava lendo um artigo sobre o crime contra o jornalista quando me deparei com duas frases intrigantes:

Não interessa porque, numa República, não há vidas mais importantes do que outras. A vida de Santiago era tão preciosa quanto a vida de qualquer cidadão.

Quero que o leitor também pondere uma dúvida: há ou não vidas mais importantes do que outras?


Temos dois extremos aqui: para os próprios (ou seja cada um), certamente a própria vida é mais importante que as outras. Mas ao mesmo tempo há espaço para mais aprofundamento:  há vidas cujo legado transcende o próprio tempo?

Minha resposta é SIM.

Estas vidas são mais importantes que outras? Bom, para os herdeiros do legado certamente parece desta forma. Alguns exemplos: se JK não tivesse construído Brasília na forma e no tempo que construiu, então eu não estaria aqui. Para mim a importância dele é bem maior que um a vida de um seringueiro no Amazonas no mesmo período.

Mas ao mesmo tempo este impacto também é relativo. Há um sem número de conexões entre diversas vidas (inclusive através dos descendentes). Então não é só a vida da pessoa, mas a vida de todas as pessoas que são tocadas pelos efeitos dessa vida.

Então talvez seja o caso de considerar que talvez haja mais importância relativa, mas isso é muito difícil de se estabelecer de forma clara.

Mas de uma coisa eu tenho convicção: Toda vida é preciosa, e essa preciosidade não pode ser mensurada na balança de causa e efeito. Toda vida tem o potencial de mudar o mundo, e não apenas enquanto o indivíduo está por aí caminhando sobre a terra. E por isso que, vez por outra, fico ponderando que cada vez que uma vida é subtraída, talvez todos saiam perdendo, em última análise.

Tragédia Anunciada

Infelizmente a violência de manifestantes fez sua primeira vítima.
Não posso dizer que isso não era imprevisto. O problema da violência em manifestações é que, eventualmente, alguém paga o pato. Geralmente alguém que não tinha nada a ver com o babado.
Possivelmente este aí é que armou o babado.
Pois é, depois de tanto se falar de violência da polícia, foram os manifestantes que fizeram a primeira vítima. Tudo isso é muito triste, mas longe de ser imprevisível.
Bem previsível...
A questão está longe de terminar, pois se comprendi direito a "fúria santa" de certos grupos, creio que dificilmente irão voltar atrás e admitir que violência não irá resolver o problema. É psicologia, e gostem ou não acontece de verdade.
Mas há algo que me espanta muito nisso: a incapacidade de entender que as propostas, a forma, o modus operandi é algo que toda sociedade já viveu antes e sabe (ou deveria saber) que não funciona. O efeito das redes sociais é um efeito multiplicador, mas a forma de ação já tem séculos. Mas certos grupos parecem acreditar que tudo que estão fazendo é novo e nunca foi feito. Isso mostra um desconhecimento enorme do passado.
É ainda mais antigo do que isso...
Culpa de quem? Bem, aí podemos distribuir a culpa por muitos.

Mas há algo ainda mais sério:

Há uma certa arrogância nesse grupos que é comum a todos os fanáticos: a certeza que a causa é santa e que tudo que fizerem é plenamente justificado. Isso é uma enorme ignorância (da braba).
As manifestações não são novas, o que é novo é a escala e a velocidade. O que antes demandava muito esforço, convencimento e uma boa dose de sorte tornou-se muito mais simples de ser realizado.
Eu sei, eu estava lá, E não tinha sequer internet na época.
Mas o preço é exatamente a perda de foco. Isso não é de todo mau, mas agrega ao grupo tendências que podem, em última análise, comprometer seriamente as reivindicações.

O mais triste de tudo isso é que creio que os grupos mais radicais que não aprenderam absolutamente nada. Estes vão continuar culpando a todos pelas consequências de suas escolhas...

Todos, exceto aqueles que realmente tem alguma responsabilidade real: aqueles que olham de volta no reflexo do espelho.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Previsão de Inflação 2014

Com os dados do IPCA de janeiro, posso fazer algumas estimativas para inflação de 2014.

Como já havia mencionado em outro post, janeiro tinha 50% de ter inflação de 0.42% e 50% de 0.81% (ou 60% de 0.46% e 40% de 0.86%). O resultado oficial ficou em 0.55%.

Com os dados de janeiro, a inflação estimada fica em 5.45%. Vamos as probabilidades:
  • 97% de estar entre 3.4% e 6.8%
  • 97% de chance da inflação ficar abaixo de 6%
  • 30% de chance da inflação ficar abaixo de 4.3%
 Já a inflação de fevereiro tem 50% de ficar em 0.40% e 50% de ficar em 0.79% , Ou 60% de ficar em 0.43% e 40% de ficar em 0.83%. Algo na vizinhança de 0.59%.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Estatísticas, Rendimento, Discriminação e Enrolação

Em setembro saiu a estatística: aumentou a diferença salarial entre homens e mulheres.

Deixe eu clarificar um ponto: sempre que li ou ouvi dados sobre diferenças salariais entre homens e mulheres, eu pensava em duas pessoas no mesmo tipo de cargo recebendo salários diferentes.

E isso me deixava muito irritado porque era claramente discriminatório.

Só que...

A coisa não é bem assim.

Quando falamos nas diferenças salariais, estamos falando nas diferenças salariais médias. E não estamos levando em conta a distribuição. Pode parecer um detalhe, mas por vezes não é...

E antes de continuar quero deixar claro: existe discriminação sim, mas cada dia mais suspeito que o problema não está sendo apresentado de forma honesta (por ignorância, má-fé ou outro motivo - isso eu não sei).

Como posso clarificar isso? Podemos olhar em duas tabelinhas do PNAD 2012:
  1. Rendimento médio por sexo (deveria ser gênero, mas vá lá).
  2. Rendimento por sexo e classes de rendimento.
Notaram alguma coisa, caros leitores?

A primeira tabela é justamente o ponto que causa revolta: a "óbvia" diferença salarial.

Mas a segunda tabela conta uma história um pouco diferente.... Se olharmos os dados brutos e não a parte debaixo da tabela... Observem
  • Dos que ganham até 1 salário mínimo: 40% são homens e 60% são mulheres
  • Dos que ganham entre 1 e 2 salários mínimos: 53% são homens e 47% são mulheres
  • Dos que ganham entre 2 e 3 salários mínimos: 63% são homens e 37% são mulheres 
  • Dos que ganham entre 3 e 5 salários mínimos: 64% são homens e 36% são mulheres  
  • Dos que ganham entre 5 e 10 salários mínimos: 63% são homens e 37% são mulheres 
  • Dos que ganham entre 10 e 20 salários mínimos: 69% são homens e 31% são mulheres 
  • Dos que ganham mais de 20 salários mínimos: 77% são homens e 23% são mulheres  
  • Dos sem rendimento: 34% são homens e 65% são mulheres  
Note que isso pinta um quadro diferente: as mulheres ganham menos do que os homens pois são maioria apenas em posições com menores rendimentos. Isso e naturalmente que a massa que compõe as posições de até 1 salário e sem rendimento é de 50% do número total.

Então perceba, caro leitor: o problema não é homens e mulheres recebendo salários diferentes enquanto trabalhando em posições iguais. O problema é que as mulheres não estão adequadamente representadas nas posições de maior rendimento.

Por que? Bem aí existem vários motivos, inclusive discriminação...

Ah sim, a distribuição "ideal" seria de 51% para as mulheres e 49% para homens aproximadamente.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

De novo sobre o problema do tanque

Eu já mencionei anteriormente sobre o problema do tanque: como descobrir quantos tanques foram fabricados a partir de um conjunto de amostras.

Este foi um problema real resolvido na época da segunda guerra e equivale ao seguinte problemas: Eu tenho N bolinhas numeradas de 1 até N. Eu tiro uma amostra com M bolinhas. Como eu estimo o valor de N a partir desta amostra?

Bem, neste caso temos uma distribuição uniforme aonde podemos retirar M amostras. Como a distribuição é uniforme então a probabilidade de cada número é 1/N.

Se calcularmos o valor esperado desta distribuição é simplesmente somar 1 até N e dividir por N. A soma dá N*(N+1)/2. Portanto o valor esperado é E{x}=(N+1)/2.

O que fazemos é calcular o valor esperado das M amostras, que iremos chamar de E'{x}

Então temos que E'{x} é aproximadamente (N+1)/2. Portanto N é aproximadamente 2*E'{x}-1

Mas esta não é a única maneira de calcular o valor de N. A variância da distribuição uniforme é (N^2-1)/12. Portanto também poderiamos encontrar o valor de N através da estimativa da variância da amostra. Se s^2 = (N^2-1)/12

Então

12*s^2+1=N^2 ou N=raiz(12*S^2+1)

Então temos dois estimadores de N. Qual deles é o melhor? Bem, há um estimador melhor ainda, mas vamos ficar com esses dois por agora. NO caso, a convergência da variância é mais lenta que a da média, então usar

N=2*E'{x}-1

provavelmente é mais confiável do que

N=raiz(12*s^2+1).

Mas vamos a alguns testes?

Primeiro com 10 amostras.

Sequência: 239    23   251   219    91   154   436   408   500   123

Estimador pela média: 487.8000
Estimador pela variância: 547.7045
Média dos dois: 517.7523
Valor real de N: 500

Sequência:
522         479        2945        3002        1632         225        1445        4600        4731         156

Estimador pela média:  3.9464e+003
Estimador pela variância: 6.0664e+003
Média dos dois: 5.0064e+003
Valor real de N: 5e+003

Sequência: 791729      570820      425124      665681      964834     1117070       34250      778756    944644      157673

Estimador pela média:  1.2901e+006
Estimador pela variância: 1.2215e+006
Média dos dois:  1255800
Valor real de N: 1234567

Isso tem algumas utilidades práticas. Por exemplo se em uma maratona você tem os competidores numerados de 1 até N, então é possível estimar a quantidade de corredores através de fotos contendo corredores (no entanto é necessário garantir a aleatoriedade). Você também pode estimar a quantidade de produtos de uma linha pelo seu número de série, a quantidade de pessoas com determinado documento (por exemplo passaporte) através de uma inspeção aleatória.

O inacreditável é que se possa saber tanto com aparentemente tão pouco...