terça-feira, 17 de maio de 2011

A polêmica do livro didático

Esta semana temos mais uma nova polêmica: um livro didático que usa chamada "norma popular da língua portuguesa".

Sabe o que vi da discussão? Poucos efetivamente leram o livro. Eu incluindo...

Então no interesse de melhorar a formação de opinião, eu coloco aqui um dos trechos que anda causando a polêmica.

Minha opinião? O livro não está fazendo este estrago todo. Mas se fizesse estaria completamente errado. Ensinar errado é atrapalhar - mas o livro não ensina propriamente errado, apenas mostra que existe uma diferença entre a norma culta e a popular.

Sim, há um dedinho de preconceito ideológico nesta idéia. Mas juro que não é meu...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Vale a pena limitar mandatos de deputados ou senadores?

Hoje vi no Correio Brasiliense uma proposta popular com o intuito de limitar o número de mandatos dos parlamentares. A idéia seria evitar o político profissional.

Isso me fez pensar...

Primeiro, porque o texto é o mesmo aonde quer que eu leia?

Segundo, qual é o tamanho do problema? Do senado cerca de 7.4% tem mais de 2 mandatos. Na câmara o número é maior: 35%. Mas suspeito que o número de deputados com vários mandatos seguem uma distribuição exponencial (ou de potência).

O texto sugere isto mesmo:

Se a regra do no máximo duas estivesse valendo, 181 deputados, 35% do total, estariam fora da legislatura. Levantamento do número de mandatos dos parlamentares em exercício realizado pelo Correio mostra que a repetição infinita do poder é regra na Câmara. O deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) está na mesma cadeira há mais de 40 anos e renovou o mandato de quatro anos 11 vezes. Doze colegas do peemedebista estão na Casa desde o período de redemocratização e 54 superaram os 20 anos de mandato. No Senado, Casa em que mandatos duram oito anos, existe maior rotatividade. Da atual legislatura, seis parlamentares ou 7,4% dos 81 senadores têm mais de dois mandatos. Os mais antigos do Senado são Eduardo Suplicy (PT-SP), Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), Garibaldi Alves (PMDB-RN), com três mandatos, José Agripino (DEM-RN) e Pedro Simon (PMDB-RS), com quatro, e o recordista, José Sarney (PMDB-AP), que registra cinco mandatos

Terceiro: qual o problema que se procura corrigir? É ruim o camarada ser eleito 10 vezes? Mas ele não passa por um processo de escolha - eleição? Ou isto é um indicação de curral eleitoral?

A argumentação não tem muito sentido:
O movimento por no máximo dois mandatos é uma tentativa de mobilizar a sociedade a pressionar os políticos a aceitarem a regra voluntariamente, como forma de assumir compromisso de seriedade perante os eleitores. E os parlamentares que aceitassem o compromisso do no máximo duas estariam mostrando que não veem a função política como meio de enriquecimento pessoal e poder, além de um emprego garantido, resume o manifesto do ativista.
Os movimentos sociais argumentam que a perpetuação do poder representativo é uma das distorções no sistema representativo do país. Na pauta da reforma política proposta pela sociedade, as discussões sobre financiamento público de campanha, coligações partidárias e lista fechada estão diretamente ligadas à criação de regra que vetasse o tempo infinito de permanência no Poder Legislativo. A desqualificação do Legislativo assim eleito abre então espaço para o mecanismo da compra de parlamentares para constituir as ditas maiorias, o que torna os parlamentos um lugar extremamente atrativo para pessoas com nenhuma outra intenção senão a de vender, o mais caro que puderem, seu poder de votar leis e fiscalizar o Executivo, pondera Whitaker.
Pode-se argumentar que é uma forma de minar um curral eleitoral (não é - pois aí pode entrar filho, primo, tio e etc), ou que é uma forma evitar o enriquecimento pessoal e de poder (também não é - a pressão para fazer fortuna só aumentaria diminuindo a chance de perpetuação)

O fato é que não entendi direito qual problema esta medida planeja resolver

Exceto se a existência de políticos reeleitos continuamente constitua um problema. Mas aí tem que explicar porque político reeleito várias vezes é necessariamente ruim.

Pequenas Pérolas do Cinema - VIII

Para começar a semana com uma comédia romântica de primeira: When Harry Met Sally



E a implosão falhou

Bem que se tentou, mas a implosão do Estádio Mané Garrincha falhou - duas vezes.

Ao contrário do que muitos pensam, este Estádio não foi projetado por Oscar Niemeyer, mas por Ícaro e Eduardo Castro Mello. Aliás. Eduardo é o arquiteto da reforma do Estádio.

Bem, falhas de implosão não são impossíveis. Alias é fácil encontrar algumas no Google.

Naturalmente, não fica nada bem a implosão ter falhado 2 vezes mas não é algo exatamente inédito. Eu não tenho certeza das chances de falha, mas imagino que deva ser algo menor do que 10%.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

E o Blogger apagou meus últimos posts

É uma pena. O Blogger entrou em manutenção e apagou meus últimos posts: Chances e Conhecimento e Terremoto hoje na Espanha, mas e em Roma?

Não os irei postar novamente, mas esta interrupção me mostra que o serviço não é exatamente confiável. Talvez seja hora de se considerar mudar para outro serviço de blog

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Post-Scriptum: Voltaram os posts

terça-feira, 10 de maio de 2011

Ecos do Futuro? Ou Padrões na Areia?

Fique longe de Israel em 2017 e Londres em 2021! De onde veio esse aviso? Daqui.

O thread original é de 2009 e diz:

Anonymous 10/15/09(Thu)21:32 No.2844755
Shortly before it shut down, the underground website Baphomet warned everyone to stay away from NYC in 2001, Madrid in 2004, Santiago in 2010, Israel in 2017 and Lodon in 2021.

It also recommended you stock up on supplies before 2022.

Podem procurar, está lá mesmo. Alguém do futuro veio nos avisar?

Nem tanto, se olharmos o padrão teremos que em 2001 e 2004 o que ocorreram foram atentados terroristas, e em 2010 o que ocorreu em Santigo foi um terremoto. E não podemos esquecer que em termos de vítimas, os terremotos do Haiti e China no mesmo ano tiveram números mais assustadores. E nem é preciso falar que não há menção ao terremoto de 2011 no Japão.

Então, o que está acontecendo?

Estamos vendo o que queremos ver, uma ilusão de ordem, de controle, de possibilidade. Na realidade, é possível postar inúmeras mensagens anonimamente ao longo da internet com predições falsas. Dado um número muito grande tudo pode acontecer.

A melhor forma de testar isto é verificar não aonde a previsão acertou, mas aonde ela errou...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Entre a idéia e a realização passa um caminhão

Vi uma notícia de um sistema GPS que inclui na navegação dados relativos ao trânsito. O sistema usa sinal de FM para atualizar o estado do trânsito nas vias.

Concebi um sistema muito similar alguns anos atrás. Fiz algumas estimativas, chegando a conclusão que um sistema broadcast do tipo FM era a melhor opção mesmo considerando a alternativa SMS via canal de celular.

Mas parei por aí...

Estaria eu revoltado por ver um produto que eu mesmo imaginei ser lançado? Não, muito pelo contrário. Fico bastante contente que alguém tenha tido essa mesma idéia e levado para frente. A questão é que já passei por uma situação em que tentei levar um possível produto adiante até a comercialização.

Foi então que vi que o buraco era significativamente mais embaixo.

Esta foi uma lição definitiva no meu modo de ver como o mundo funciona. Há uma diferença muito grande entre pensar e agir, entre imaginar e realizar. Nesta diferença é que está a verdadeira inovação.

Foi também com esta realização que vi que o papel da universidade não era brincar de fábrica. A universidade pode (e deve) inovar, mas sua missão não é constituir uma empresa para explorar determinado nicho. A missão é educar, mais do que isso buscar e difundir conhecimento - e no processo formar pessoas.

Com o estudo de probabilidade também ficou claro para mim que existem oportunidades (ou chances) que podem ou não serem aproveitadas, mas não há garantias que as mesmas terão sucesso. Com o auxílio de reguladores é até bastante possível criar um determinado mercado e mesmo explora-lo de modo bem sucedido.

Mas não há garantias que esta situação seja durável (ou mesmo sustentável).

terça-feira, 3 de maio de 2011

Certo por Linhas Tortas?

O que acontece quando se usa a ferramenta errada para resolver um problema?

O que me motivou a me perguntar sobre isso? Temos esta notícia como ponto de partida. A notícia trata do trancamento de uma ação de tentativa de furto em um supermercado com vigilância eletrônica. O que me chamou a atenção foi o seguinte parágrafo:


Ao decidir, a Turma aplicou jurisprudência dela própria (firmada, entre outros, no julgamento do HC 107264, relatado pelo ministro Celso de Mello), que considera crime impossível a tentativa de furto quando os objetos almejados se encontravam sob monitoramento eletrônico constante e, também, o fato de que não chegou a haver nenhuma lesão, porque a tentativa de furto se frustrou.

Isto por si só é uma jóia do nonsense: não houve lesão pois a tentativa de furto se frustrou.

Não, não estou pregando que este tipo de delito leve a uma penalidade maior. Estou chamando a atenção que o monitoramento eletrônico frustrou o furto e por esta razão não houve lesão. Isto foi baseado em jurisprudência do tribunal. Os detalhes estão aqui.

Tentar não é crime? Talvez os valores envolvidos no crime sejam irrisórios (cerca de R$ 390,00) em comparação aos custos processuais. Mas decidir que a tentativa não é crime? Pelo que li do texto da jurisprudência anterior foi justamente o valor que determinou este curso de ação (e não exatamente o monitoramento eletrônico).

Eu entendo este tipo de raciocínio, no fundo a ação é irrisória mas aí é complicado determinar o que é irrisório (principalmente em um sistema com custos processuais crescentes). Só que desta forma usam uma justificativa (o monitoramento frustrou o delito) para resolver a questão.

E existem outros tipos de monitoramentos eletrônicos. E existem outros tipos de delitos...

O que acontece quando temos delitos mais graves frustrados por monitoramento eletrônico? E o monitoramento funciona sempre?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pen Drives no lugar de cadernos?

Parece uma boa idéia? Talvez, mas não agora. Em uma notícia recente:
Previsto para ser inaugurado no próximo dia 07, o Colégio Estadual Erich Walter, localizado em Santa Cruz, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, foi escolhido para ser o piloto da Escola Padrão Verde da América Latina. O projeto, que conta com painéis solares, área para reciclagem, reaproveitamento de água da chuva e pen-drives no lugar dos cadernos, foi desenvolvido pelos arquitetos da Arktos - Arquitetura Sustentável, Maria José De Mello Gerolimich e Rafael Tavares de Albuquerque.
...
Friso a parte a respeito da substituição de cadernos por pen drives. A idéia em si é boa, desde que estejamos falando do uso de sistemas do tipo tablet para leitura e escrita. Mesmo assim, o tablet em si não é uma boa forma para demandas mais ativas (quem tem um iPad pode verificar por si mesmo).

Quanto a parte de leitura, um tablet realmente pode ser bastante inovador e substituir em parte livros e apostilas.  Nesta categoria eu uso o kindle. Como vantagens posso citar que o gasto de energia é muito baixo, há possibilidade de navegação na internet (restrita ainda assim) e podem ser armazenados diversos livros sem perda de qualidade. Os livros podem ser marcados, com o dicionário integrado a leitura é mais simples e há mesmo um mecanismo de busca (que não usei por enquanto).

Mas mesmo o kindle tem aplicativos para diversas plataformas.

O problema é que é um livro (ou uma forma razoável de leitura), mas daí a utiliza-lo como caderno ainda há uma longa distância. Mesmo outros tipos de tablets não se prestam muito bem a funcionar como cadernos com canetas especiais (que se perdem com facilidade). Então usa-se uma interface do tipo QWERTY (que geralmente é via tela e não teclado) como entrada.

Então, a idéia de substituir cadernos por pen drives pode ser uma daquelas idéia belissimamente estúpidas. Em nome da ecologia se complica a vida do estudante - por razões não claramente divinizadas (imagino que a questão de substituir cadernos por livro está ligada a questão do uso da celulose na fabricação de papel - sendo que no Brasil a celulose vem de plantações especiais)

Desse tipo de idéia não há falta no mundo...

domingo, 1 de maio de 2011

Distribuições Extremas e Competição

Depois de ler o livro de Taleb fiquei pensando sobe a ligação entre distribuições extremas e competição. Afinal, olhando os argumentos me parece que o sistema gaussiano iria falhar principalmente em competições aonde "o vencedor leva tudo".

Um exemplo de competição de ganhador único e totalmente aleatória é o torneio de moedas. Essencialmente, neste torneio o vencedor será aquele que acertar o maior número de lances de cara ou coroa. Para um torneio de 10 fases são necessários 1024 participantes. Vamos supor que cada um traga R$ 1,00 para o jogo. Quem ganhar leva tudo.

No final, se tivermos uma situação de "vencedor leva tudo" 1 pessoa levará R$ 1024,00 e o restante zero. Mas podemos tornar a coisa mais interessante supondo que ao invés do vencedor levar tudo que o perdedor levasse 25% do prêmio.

Assim nas rodadas teríamos

  1. 512 Ganhadores com R$ 768,00 e 512 perdedores com R$ 256,00 (R$ 0,50 para cada 1)
  2. 256 Ganhadores com R$ 576,00 e 256 perdedores com R$ 192,00 (R$ 0,75 para cada 1)
  3. 128 Ganhadores com R$ 432,00 e 128 perdedores com R$ 144,00 (R$ 1,125 para cada 1)
  4. 64 Ganhadores com R$ 324,00 e 64 perdedores com R$ 108,00 (R$ 1,6875 para cada 1)
  5. 32 Ganhadores com R$ 243,00 e 32 perdedores com R$ 81,00 (R$ 2,53125 para cada 1)
  6. 16 Ganhadores com R$ 182,25 e 16 perdedores com R$ 60,75 (R$ 3,796875 para cada 1)
  7. 8 Ganhadores com R$ 136,6875 e 8 perdedores com R$ 45,5625 (R$ 5,6953 para cada 1)
  8. 4 Ganhadores com R$ 102,5156 e 4 perdedores com R$ 34,17188 (R$ 8,542969 para cada 1)
  9. 2 Ganhadores com R$ 76,88672 e 2 perdedores com R$ 25,62891 (R$ 12,81445 para cada 1)
  10. 1 Ganhador com R$ 57,66054 e 1 perdedor com R$ 19,22168 (R$ 19,22168 para cada 1)


Então teríamos uma distribuição a seguir
  • 1 pessoa com R$ 57,66045 (total R$ 57,66045)
  • 1 pessoa com R$ 19,22168 (total R$ 19,22168)
  • 2 pessoas com R$ 12,81445 cada (total R$ 25,62891)
  • 4 pessoas com R$ 8,542969 cada (total R$ 34,17188)
  • 8 pessoas com R$ 5,6953  cada (total R$ 45,5625)
  • 16 pessoas com R$ 3,796875 cada (total R$ 60,75)
  • 32 pessoas com R$ 2,53125 cada (total R$ 81,00)
  • 64 pessoas com R$ 1,6875 cada (total R$ 108,00)
  • 128 pessoas com R$ 1,125 cada (total R$ 144,00)
  • 256 pessoas com R$ 0,75 cada (total R$ 192,00)
  • 512 pessoas com R$ 0,50cada (total R$ 256,00)

Isto fica mais interessante ao dividirmos as faixas pelo montante total de dinheiro, assim temos a concentração do dinheiro nas faixas
  • 16 pessoas (1,5625%) com R$ 182,25 (17,7979%)
  • 240 pessoas (23,4375%) com R$ 293,75 (38,4521%)
  • 768 pessoas (75%) com R$ 448,00 (43,75%)
Este número pode ficar mais conhecido se dividirmos em duas faixas (25% e 75% das pessoas)
  • 256 pessoas (25% do total) tem R$ 576,00 (56,25% das riquezas)
  • 768 pessoas (75% do total) tem R$ 448,00 (43,75% das riquezas)
Ou seja, temos uma distribuição extrema surgindo exatamente de uma competição puramente aleatória.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

E se der errado?

Miriam Belchior disse em entrevista: "As medidas que forem necessárias nós tomaremos, mas não arriscaremos deixar de crescer. Em outros momentos da historia brasileira, em função do crescimento da inflação, se deu um remédio que matava o doente. Nós não queremos matar o doente, mas dar um remédio que faça com que ele fique são". Eu discordo desta análise

Dado o que já aconteceu antes, a troca de crescimento por inflação acaba sendo péssimo negócio. Durante o período de 1969 a 1973 o Brasil chegou a patamares de crescimento na faixa de 7% ao ano. A inflação não se fez de rogada e cresceu também.

No ano passado a inflação foi a 5,91% e o crescimento de 7,5%. No fundo há razões não ligadas diretamente ao crescimento, mas aos efeitos desse crescimento que podem tirar a inflação de controle.

Uma dessas razões é justamente o mecanismo de freio da inflação é o aumento da taxa de juro Selic. Infelizmente, a taxa de juro está ligada à dívida pública. Como 12% dos credores da dívida pública são estrangeiros, então eles podem se valer de diferenciais do câmbio e aplicações da dívida para ter lucro. Isto acontece quando o dólar está "barato".

Parece que 12% não é muito, mas o problema é que uma variação de 12% anual da dívida pública é algo na vizinhança de R$ 140 bilhões. E isto pode ser sim um problema.

Outra questão é que o crescimento trás efeitos de saturação em uma infra estrutura que não teve investimentos suficientes: aumentam o número de carros, consumo de combustíveis, compras de bens de primeira necessidade e supérfluos, bem como da capacidade de compra e subseqüente tolerância a patamares mais altos de preço.

De 2009 a 2010, o número de carros aumentou em cerca de 6 milhões (ou seja 10% do total), o que também causou um aumento no consumo de combustíveis de cerca de 8% (a gasolina teve um aumento de quase 20%). Então é de se esperar que haja problemas nessa equação.

No ano de 2010 foram vendidos cerca de 118 milhões de metros cúbicos de combustível (cada metro cúbico tem 1000 litros). Dividindo este valor pelo tamanho da frota de aproximadamente 65 milhões de veículos temos cerca de 1.815 metro cúbico (ou 1815 litros) por veículo.

Em 2009 foram 109 milhões de metros cúbicos. Dividindo-se este valor pela frota de 59 milhões temos 1847 litros por veículo. Se considerarmos os arredondamentos teremos cerca de 1800 litros por ano para cada veículo adicional incluído na frota.

Infelizmente, aumentar a frota em também implica em aumentar o consumo. E a relação em si não é simples devido ao fato que ao falarmos de combustíveis estamos incluindo todos em um balaio de gato - não é apenas o caso da gasolina.

Como aumento na demanda de combustíveis, carros e etc causam necessidade de outros aumentos, as chances são de crescimento inflacionário

E isto é pode ser um grande problema.

Sobre meus pés, meus calos e os pés dos outros

No último post mencionei sobre a questão do meu sentimento que a UnB está tomando rumos equivocados tendo as melhores das intenções como objetivo.

Talvez alguns perguntem: por que você não faz nada? Bem, eu estou fazendo. Não estou diretamente me contrapondo a situação, mas estou indicando como enxergo o estado das coisas. Outros podem escolher verificar se as coisas realmente estão do modo que vejo ou não...

Talvez aí perguntem: mas você não vai fazer nada? A resposta honesta é realmente não sei. Não, isto não é covardia (se fosse covardia eu sequer haveria escrito o que escrevi). É simplesmente paralisia devido a incerteza de qual é o curso de ação que causa o mal menor.

Tudo é realmente muito complicado, até mesmo o que é bom e mal. A clareza desta distinção nem sempre é fácil (eu a enxergo em algumas situações), mas já percebi que as conseqüências sobre ações desse tipo podem muito bem ser o reverso do que se espera.

Este tipo de problema é bem conhecido com o custo do controle: o custo do controle de um sistema pode escalar até tornar o funcionamento do sistema inviável (aqui no Brasil isto é batata).

No caso particular da UnB, temos uma série de problemas que foram catalisados justamente pela análise simplista de como proceder. Escolheram-se cursos de ação e BUM, deu tudo errado!

Eu poderia discorrer sobre o idealismo imbecil, a politicagem, as análises de umbigo e muito mais. Mas nada disto iria melhorar ou sequer resolver a situação.

Prefiro acreditar (tolamente) que mostrando o erro, as pessoas irão corrigir o erro.

É uma crença otimista e absolutamente ingênua. A diferença é que eu sei disso.

É lícito fazer algo errado para fazer algo bom?

A resposta ética: não! A resposta pragmática: se for para o bem maior! A resposta verdadeira: desde que você não seja pego...

Infelizmente tem aparecido sinais que estão tomando decisões equivocadas na minha(?) universidade. Entretanto, tenho razões para acreditar que estas na realidade tem a melhor das intenções como motivo. Francamente isto me deixa em uma situação complicada, pois sei que há interesse em fazer coisas boas, mas os caminhos tomados são no mínimo equivocados.

As evidências são claras e não vou fazer o trabalho de conectar os pontos. Mas deixo algumas pistas: o problema da redução da jornada de trabalho, os custos da reconstrução causada pela inundação e o suposto corte de verba que ocorreu ou não...

Mas para mostrar como estas coisas são complexas, deixo aqui a história do mestre zen:

Em um pequeno vilarejo, um menino ganha de sua família um lindo cavalo. Ao verem o belo presente dado ao menino, todos à sua volta exclamam:
- Que maravilha!
E o mestre zen: Veremos...
Passa se algum tempo e o menino, ao andar com seu cavalo, cai e quebra a perna. Todos lamentam:
- Que desgraça!
E o mestre zen: Veremos...
Depois de alguns anos, o país entra em guerra, e todos os jovens do vilarejo são convocados para a luta e acabam morrendo, exceto o jovem com a perna enferma. Ao que a família conclui:
- Que maravilha!
E o mestre zen: Veremos...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ignorantia Legis Neminem Excusat

Em miúdos: Nínguém pode se eximir de cumprir a lei alegando o seu desconhecimento (Ignorância da Lei não é desculpa - em uma tradução mais literal).

Isso faz sentido? Faria, se o país não contasse com mais de 190 mil leis. Em virtude desse número fica difícil exigir o conhecimento das leis por especialistas, quanto mais de leigos comuns.

E isto é uma das faces mais cruelmente cômicas na nossa terrinha: como, em sã consciência, se pode exigir isto de qualquer cidadão? O próprio preceito não faz o menor sentido para a população do Brasil.

Isso está no próprio código penalArt. 21 - O desconhecimento da lei e inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminui-Ia de um sexto a um terço.

A pergunta óbvia é: isso faz sentido? a resposta óbvia é: não!

Esta contraposição às 190 mil leis (supondo que consigam os grafar 50 leis por página, estaremos falando de um volume de 3 mil e oitocentas páginas), como podemos exigir o conhecimento de todas?

Isso é bem nosso país...

Para que serve uma universidade? E isso é importante?

Uma das grande complicações a respeito de se ter um orçamento apertado é aonde gastar. Ou melhor: como gastar melhor...

Isto pode parecer simples mas está longe de ser uma decisão fácil. O ato de criar um orçamento implica em um planejamento e uma suposição de controle simplesmente dissociada da realidade. A verdade é que tirando o que é rotina, muito pouco pode ser efetivamente planejado com sucesso.

E nisto vemos um grande problema: como se monta um orçamento? Primeiro tem que ser otimista. Não dá para considerar que tudo que vai ser planejado vai ser furada. Mas também tem que ser pessimista. Não dá para acreditar que absolutamente tudo vai sair como o planejado.

A prioridade primeira é sempre manter a máquina funcionando (ou seja, preferencialmente fazer o que ela tem de fazer - ainda que em níveis mínimos). A outra questão é como melhorar e ampliar os serviços da máquina. Esta deve ser a segunda prioridade.

Só então vem as considerações do que seria prudente ter em reserva.

No caso de uma pessoa esta questão pode ser dividida de modo fácil: primeiro - habitação e alimentação. Ainda dentro da categoria "manter a máquina funcionando": saúde, transporte e lazer. Tudo calculado para o mínimo necessário.

A seguir vem os planejamentos: compromissos assumidos que necessitam de recursos para serem realizados (aí vem dívidas, por exemplo), compromissos a serem assumidos para futura melhoria da qualidade de vida (nova casa, carro, ou similares).

Se com isso ainda tem-se sobra pode-se melhorar a situação de "manter a máquina funcionando", ou então passar a poupar para eventualidades...

E em uma instituição?

A regra é mais ou menos a mesma: em primeiro lugar vem o que é absolutamente necessário para manter "a máquina funcionando". Depois vem possíveis compromissos já assumidos e melhorias na qualidade. Só depois disso é que devem vir os sonhos...

No caso de compromissos assumidos é fundamental que os recursos para os mesmos não sejam apenas eventuais, mas possuam programação fixa.

Por que toda essa novela? Porque é absolutamente fundamental ter como primeira prioridade ter a máquina funcionando. E para tanto tem que se saber exatamente o que constitui efetivamente "a máquina funcionar"

E aí vai boa parte do desperdício: desvio da função dos recursos.

Uma universidade serve para que afinal?

Se esta pergunta não tiver resposta então sempre vai existir desperdício.

sábado, 23 de abril de 2011

Medidas de Desigualdade

Já ouvi falar muito sobre a questão da desigualdade no país. E realmente ela existe, mas parece ser mais intrínseca ao sistema que premia quem tem melhor resultados do que propriedade intrínseca de um sistema particular.

Mas o ponto não é esse. O ponto é como mensurar desigualdade em particular. Como podemos dizer que uma situação é ou não desigual para um determinado grupo? Pode parecer óbvio, mas como veremos isto está longe de ser realmente assim.

Vamos considerar o relatório elaborado pelo LAESER: o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil. Aos curiosos ele está todo aqui. Diversas reportagens anunciam e prenunciam a desigualdade.

O problema é que não é tão simples assim. Se a população fosse dividida igualmente entre brancos e negros a desigualdade seria identificada de modo mais fácil. E aí entre o velho problema do Teorema de Bayes:

p(X | pardo ou negro) é diferente de p(pardo ou negro | X)

E isto faz toda diferença. Felizmente podemos encontrar a relação real utilizando o próprio teorema:

p(pardo ou negro | X) = p(branco | X) * p(X | pardo ou negro) / p(X | branco) * p(branco) / p(pardo ou negro)

Esta relação permite estabelecer a desigualdade em termos mais reais, relacionando as taxas entre brancos e pardos ou negros. Quanto mais próximo de 1 for este valor, mas igual será a relação.

Vamos colocar números: a população branca no Brasil corresponde a 50% do total (aproximadamente), já a população negra corresponde a 7% e a parda a 42%. Então temos uma relação de 0.5 para 0.49

Neste caso a equação acima se torna:

p(pardo ou negro | X) = 1.02 * p(branco | X) * p(X | pardo ou negro)/p(X | branco)

Assim, por exemplo: em 2008 quase metade das crianças afrodescendentes de 6 a 10 anos estava fora da série adequada, contra 40,4% das brancas.

p(pardo ou negro | X) = 1.02 * p(branco | X) * 0.5/0.4 = 1.275 * p(branco | X)

Isto quer dizer que para cada 1000 crianças brancas fora da série adequada teríamos 1275 crianças negras ou pardas.

Outro exemplo:O estudo constata que o estabelecimento do SUS beneficiou mais pretos e pardos (66,9% da sua população atendida em 2008) do que brancos (47,7%), mas a taxa de não cobertura (proporção dos que não conseguem atendimento) dos afrodescendentes foi de 27%, para 14% dos brancos. 

p(pardo ou negro | X) = 1.02 * p(branco | X) * 0.67/0.48 = 1.424 * p(branco | X)

Isto quer dizer que para cada 1000 pessoas brancas beneficiados pelo SUS teríamos 1424 pessoas negras ou pardas.

p(pardo ou negro | X) = 1.02 * p(branco | X) * 0.27/0.14 = 1.967 * p(branco | X)

Isto quer dizer que para cada 1000 pessoas brancas não cobertas pelo SUS teríamos 1967 pessoas negras ou pardas.

Claro que o caveat aqui é simples: como as populações pardas ou negras tem tamanho comparável a dos brancos então os dados são mais ou menos intercambiáveis. Mas o que acontece se a população de pardos negros aumentar 10% (lembremos que esta população é definida com base em auto-declaração)?

Assim, a população negra ou parda passaria de 0.49 para 0.54 e a branca desceria para 0.45 e o nosso 1.02 passaria a ser  0.83.

De repente, sem mudar absolutamente nenhum indicador social, teríamos as seguinte mudanças:
  • Ao invés de que para cada 1000 crianças brancas fora da série adequada teríamos 1275 crianças negras ou pardas, teríamoscada 1000 crianças brancas fora da série adequada teríamos 1038 crianças negras ou pardas
  • Ao invés de que para cada 1000 pessoas brancas beneficiados pelo SUS teríamos 1424 pessoas negras ou pardas, teríamos para cada 1000 pessoas brancas beneficiados pelo SUS teríamos 1159 pessoas negras ou pardas
  • Ao invés de que para cada 1000 pessoas brancas não cobertas pelo SUS teríamos 1600 pessoas negras ou pardas
Isto mostra quão delicado é tomar estas estatísticas pelo valor de face sem estudar bastante o seu significado.