Após o terrível
ato terrorista contra o Jornal Satírico
Charlie Hebdo estamos vivendo uma situação muito curiosa e, poderíamos dizer, até cômica se olhada na posição de um extraterrestre que estivesse visitando nosso país.
Estamos na situação da "Liberdade de Expressão, mas..."
E aí eu tenho que deixar bem claro: os que falam este "mas" em sentenças correlatas não são a favor da liberdade de expressão.
Eles são a favor de "certas liberdades de expressão".
Geralmente, estas estão ligadas aos interesses dessas pessoas e grupos. Qualquer coisa fora disso não é considerado "sagrado".
Perceba, caro leitor, liberdade de expressão implica em responsabilidade também. Caso esta comece a prejudicar as pessoas, ou instituições (calúnia é um exemplo que vem a mente), os prejudicados sempre podem exigir reparação judicial.
Bem, pelo menos essa é a teoria. Na prática, a coisa é bem mais complicada (a justiça, por exemplo, nem sempre é confiável - em particular aqui na terrinha).
Ainda com essa questão da justiça poder falhar, a liberdade de expressão não pode e não deve ser cerceada por causa disso.
E claro, vários grupos islâmicos de enorme poder econômico poderiam ter retalidado economicamente, tudo dentro da lei.
Já sair por aí atirando em quem fala o que não gostamos - bem, isso está errado.
Mas há outro problema aí - nesse atentado há duas forças que fazem o tico e o teco dos "detentores do bem maior" entrar em curto: os grupos islâmicos são minorias (não são) e oprimidos (também não são - alguns grupos são, mas nem todos). Portanto temos o caso de um oprimido se virando contra um opressor, não?
Eh... não!
Os oprimidos nesse caso é o que estavam do lado errado das AK-47 usadas no crime. Só que eles eram brancos, bem de vida e... isso bagunça o "bem e o mal" na cabeça das pessoas.
Então, caro leitor, você deve ter lido ao lado do "
Je suis Charlie", alguns "
Je ne suis pas Charlie". As vezes falando obliquamente, as vezes falando claramente que as vítimas na realidade são culpadas pelo que aconteceu.
Bem, em defesa desse pessoal: Usar a liberdade de expressão requer um bocado de coragem em algumas situações. E por vezes que a usa se queima (figurativamente e por vezes literalmente). E ficar meio no seu canto, ou em cima do muro, é conveniente e pode levar a uma vida longa.
E por fim existem os defensores da liberdade de expressão desde que não aqui. Esses são de longe os mais cômicos: eles acham um absurdo o que aconteceu na França, mas quando o caso é no Brasil, para eles a situação é diferente. Um caso que vem a mente foi o de
Rafinha Bastos com suas piadas sem graça.
Mas a lista é longa (Bolsonaro, Jean Willys, etc...).
Ah, e quase tinha me esquecido: existe mais um caso - o do relativista sem vergonha. Por que sem vergonha? Porque normalmente começa falando "Ah, mas no país
XXX morreram 10, 100 ou 1000 vezes mais que na França no mesmo dia."
Bom, isso não justifica, redime, ou move uma palha sobre o que aconteceu na França.
Normalmente, é simplesmente uma forma de mostrar "superioridade moral" indicando que o destaque de um massacre foi menor do que o de outro massacre.
Na boa... alguém acredita mesmo que isso é argumento que se use?
Sim, caro leitor, eu realmente estou de saco cheio dessas pessoas. E por esse motivo estou colocando aqui as motivações reais delas.