terça-feira, 29 de maio de 2012

A Greve a a Enrolação

Eu acho extraordinário como as notícias são distorcidas de modo sem vergonha. E na minha universidade...

Que papelão...

Mas vamos ao que saiu (antes que alterem). Eu vou grifar as partes relevantes...

Estudantes da UnB também decidem entrar em greve
Paralisação foi definida em uma das maiores assembleias dos últimos anos. Apoio à greve docente também foi aprovado

Pedro Rafael Ferreira - Da Secretaria de Comunicação da UnB

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A assembleia geral dos estudantes da Universidade de Brasília deflagrou greve da categoria no início da tarde desta quinta-feira, 24 de maio. O movimento segue a paralisação dos professores da instituição, iniciada há uma semana, e contou com o apoio quase unânime dos alunos presentes. Segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE), a lista de presença teve 431 assinaturas, mas o vão da entrada norte do Instituto Central de Ciências (ICC), local conhecido por Ceubinho, ficou praticamente lotado, indicando uma presença de aproximadamente 600 estudantes.
Veja as imagens da assembleia no flickr da UnB Agência.
O número supera as assembleias estudantis realizadas nos últimos quatro anos. “Só é comparável à ocupação da reitoria, em 2008”, avaliou Heitor Claro, estudante de Economia, em referência às mobilizações que culminaram na queda do então reitor Timothy Mulholland. “Das assembleias que já participei, sem dúvida essa foi a mais lotada desde a ocupação”, concordou Pedro Henrique, estudante do 10º semestre de Medicina e que acompanhou o movimento da época.
Os alunos também aprovaram a pauta de reivindicações, que exige investimento equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação no país, melhoria na assistência estudantil, paridade nas eleições para reitor da UnB e interrupção do calendário acadêmico. Aprovaram ainda moção de apoio à greve dos professores. “A pauta dos professores não é exclusivamente salarial, mas por melhores condições de trabalho, como plano de carreira, e isso tem a ver com os estudantes. Nossa responsabilidade é dar continuidade ao processo nacional”, afirmou Lucas Brito, estudante de Serviço Social.“A greve já tem mais de 40 universidades e institutos federais envolvidos. Com uma adesão dessas, alguma coisa só pode estar errada”, comentou Isabela Aysha, estudante de Letras. 
AGENDA – À noite, o comando se reuniu para traçar as primeiras estratégias de mobilização. A ideia é iniciar uma campanha de sala a sala. “Mais do que fazer barulho, precisamos estruturar uma movimentação em sala de aula, junto com o comando de greve dos professores e representantes dos funcionários, além do próprio comando de greve estudantil, explicando o porquê da greve, convidando para as discussões”, comentou Heitor Zanini, estudante de Ciências Sociais.
O comando de greve estudantil também definiu a elaboração de um informativo sobre a greve, que será distribuído entre os estudantes. “Eu, por exemplo, não sei direito o que é uma greve estudantil. Precisamos esclarecer isso melhor para mobilizar toda a comunidade”, observou Luana Weyl, estudante de Serviço Social.
O professor Rodrigo Dantas, do Departamento de Filosofia, e membro do comando local de greve dos docentes, convidou os estudantes para uma articulação conjunta entre os dois segmentos. “Vamos construir uma agenda local comum de greve”, falou. Nesta sexta-feira, 25 de maio, os comandos de greve de estudantes e professores se reunirão, às 10h, na sede da Associação dos Docentes da UnB para discutir os desdobramentos da greve.
QUÓRUM - “O movimento estudantil, historicamente, nunca se posicionou contra uma greve. É um instrumento de luta e temos nossa própria pauta”, comentou Diogo Ramalho, estudante de Letras, que fez uma das falas de apoio à declaração de greve.
Para o DCE, no entanto, a decisão tem caráter apenas consultivo, já que não houve quórum mínimo, que é de 1.087 estudantes. “Nós [do DCE] consideramos a assembleia legítima, apesar de não ter tido quórum representativo para deliberação”, avaliou Octávio Torres, estudante de Direito e coordenador-geral do diretório. “Temos que avaliar comparando com a realidade, comparando com as assembleias anteriores. Foi muito representativa sim”, discordou Lorena Fernandes, do curso de Serviço Social. “O fato de não ter tido quórum mínimo não deslegitima em nada a decisão de greve”, acrescentou Cynthia Funchal, estudante de Letras. “Na Universidade Federal Fluminense, a assembleia que decidiu pela greve estudantil contou com 700 estudantes. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, foram 800 alunos e na Universidade Federal de Uberlândia, cerca de 500”, comparou Lorena Fernandes.
CRÍTICAS – Muitos alunos foram ao microfone para criticar um suposto desinteresse do DCE na divulgação da assembleia. “Na hora de colar cartazes pedindo a presença da polícia no campus, o DCE vai em todas as faculdades. Quando é para convidar para uma assembleia, principal espaço de deliberação estudantil, o DCE só divulga pela internet e não de sala em sala, como deveria ser. Não se faz movimento estudantil pela internet”, protestou Nunes Rio, estudante de Economia.
“Grupos de oposição ao DCE reuniram 31 assinaturas de Centros Acadêmicos pressionando por uma reunião do Conselho de Entidades de Base ou uma assembleia. Foi só depois de muita pressão que o Diretório cedeu e chamou a assembleia”, afirmou Lucas Barbosa, estudante de Letras e membro do Coletivo Mobiliza UnB.
Há duas formas de convocar uma assembleia: uma lista com 3,5 mil assinaturas de estudantes ou uma convocatória do DCE. Para Octávio Torres, coordenador-geral do diretório, não houve “corpo-mole”. “O DCE se reuniu com todas as forças políticas do movimento estudantil para decidir o que fazer. Propomos incialmente que fosse na sexta-feira, para termos tempo de divulgação, mas os grupos preferiram que fosse hoje. Divulgamos em nossos meios de comunicação, como Facebook e blog. Na minha visão, tentamos construir da melhor maneira”, rebateu.

Bem, afinal são 431 ou 600? Os estudantes estão ou não de greve? Bem, vamos ver o que o DCE escreveu:

Comunicado Oficial do DCE: Assembleia Geral dos Estudantes da Universidade de Brasília (24/05/12)

24 de maio de 2012 em Assembleia GeralAssistência EstudantilNotas
O Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães pre­si­diu a Assembleia Geral Extraordinária dos Estudantes da Universidade de Brasília hoje, 24 de maio, às 12h no Ceubinho, Campus Darcy Ribeiro. A pauta tra­tou da Greve Nacional dos Docentes das Universidades Federais e da situ­a­ção da Assistência Estudantil.
Durante a Assembleia 431 estu­dan­tes assi­na­ram a lista de pre­sença. Não se atin­giu, por­tanto, o quó­rum mínimo de 3% do total de estu­dan­tes de nossa Universidade, o qual cor­res­ponde à 1097 estu­dan­tes. Conforme deter­mi­na­ção do Estatuto do DCE/UnB, art. 20, não se atin­gindo o quó­rum mínimo a Assembleia tem cará­ter con­sul­tivo e não deliberativo.
Após os tra­di­ci­o­nais infor­mes, iniciou-se a Assembleia pelo ponto da greve dos docen­tes. Foi aberto, em seguida, um período para as ins­cri­ções aos favo­rá­veis e aos con­trá­rios à greve naci­o­nal. Após as falas, foi enca­mi­nhado pela Mesa a vota­ção de uma moção de apoio a greve naci­o­nal dos docen­tes das Universidades Federais, que por con­tra­taste foi aprovada.
Posteriormente, sugeriu-se a Mesa que fosse enca­mi­nhada a vota­ção de uma greve dis­cente em apoio a greve dos pro­fes­so­res e pela qua­li­dade da edu­ca­ção naci­o­nal. A mai­o­ria dos pre­sen­tes votou pela greve dos estu­dan­tes, tendo como pauta: 10% do PIB para edu­ca­ção, assis­tên­cia estu­dan­til, pari­dade e a sus­pen­são do calen­dá­rio acadêmico.
Os pre­sen­tes na Assembleia ainda mar­ca­ram uma reu­nião para ins­ti­tuir um Comando Local de Greve, hoje às 18h, no Mezanino da Entrada do ICC-Norte (Ceubinho). Nesta reu­nião serão defi­nidos os pró­xi­mos pas­sos da mobi­li­za­ção estudantil.
Finalmente, a Gestão do DCE con­vo­ca­ para terça-feira pró­xima, 29 de maio, o Conselho de Entidades de Base (CEB) —  cole­gi­ado de Centros Acadêmicos desta Universidade — para homo­lo­gar ou não as deci­sões con­sul­ti­vas toma­das pela Assembleia Geral  Estudantil da Universidade de Brasília rea­li­zada neste 24 de maio.

Pois é os estudantes não entraram de greve pois a assembléia não atingiu o quorum mínimo.

Olha só que coisa... O chato é que a notícia também já foi replicada para jornais.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Coisas que Mentimos para Nós Mesmos - 27

Está no ar a comissão da verdade.

Como de esperar há um certo ar de revanchismo no meio. Se olharmos o documento que descreve os objetivos da comissão parece não haver esta motivação.
O primeiro objetivo de uma Comissão da Verdade é DESCOBRIR, ESCLARECER e RECONHECER ABUSOS DO PASSADO, DANDO VOZ ÀS VÍTIMAS. Isso significa que a Comissão deve estabelecer um registro apurado do passado histórico, através do processo testemunhal das vítimas. Somente entrevistando livremente os que foram submetidos a abusos e dando voz aos que, muitas vezes ainda hoje, permanecem em silêncio é que se poderá constituir a “História silenciada” do período.
Mesmo os objetivos adicionais parecem bastante razoáveis.
  • COMBATER A IMPUNIDADE
  • RESTAURAR A DIGNIDADE E FACILITAR O DIREITO DAS VÍTIMAS À VERDADE
  • ACENTUAR A RESPONSABILIDADE DO ESTADO E RECOMENDAR REFORMAS DO APARATO INSTITUCIONAL
  • CONTRIBUIR PARA A JUSTIÇA E A REPARAÇÃO
  • REDUZIR CONFLITOS E PROMOVER A RECONCILIAÇÃO E A PAZ
Ou seja, o propósito é o de esclarecer os abusos passados para se mover para frente.

Bem, pelo menos é o que se pode acreditar até ler isto aqui:

“Os crimes eventualmente praticados pela oposição, vamos dizer assim, já foram julgados. Só na Junta Militar de São Paulo existem mais de três mil processos. O Estado combateu aqueles crimes, julgou as pessoas, quando não foram desaparecidas, e puniu. O direito, ainda que um direito autoritário, foi aplicado. A presidente Dilma foi presa, acusada de pertencer a determinado grupo, e condenada (*). Não há dúvida sobre isso. Por que razão a Comissão da Verdade iria verificar tudo de novo, se os autos desses processos são públicos? Podemos dizer que se trata até de uma questão de economia processual.”

O problema é que isso é mentira. Ou, sendo mais diplomático, o problema é que isso é uma falácia.

É verdade que algumas pessoas foram presas e julgadas. É verdade que muito foram condenados. Mas não é absolutamente verdade que todos os crimes tenham sido julgados.

É aquela velha falácia das partes pelo todo (falácia da composição): Se alguns foram julgados e condenados, então todos foram julgados e condenados.

É uma daquelas falácias bem básicas, mas que mesmo diretores da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas fazem uso (ou caem nela) de vez em quando.

domingo, 27 de maio de 2012

Monty Python Brasileiro

Hoje trago um bom momento da TV Brasileira: TV Pirata.

Há muitos momentos impagáveis no seriado.

Essa aqui é uma das minhas favoritas

1 saco de pitombas passa a valer uma Narjara Turetta.

sábado, 26 de maio de 2012

Pequenas Pérolas do Cinema - 61

Hoje é dia de um filme de ação de primeira grandeza: Dirty Harry.

Aliás, uma das maiores diversões é ver as tiradas que Harry Callahan fala ao longo do filme. Aqui vão duas das minhas favoritas, a do começo:

E a do final.

A música também é de excelente qualidade, composta por Lalo Schifrin.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Triste Violência

Saiu recentemente os resultados do Mapa da Violência do Instituto Sangari.

Mais uma vez vemos que as pessoas não entendem patavina de estatística, ou que preferem dar o "spin" que lhes interessa.

Muitos divulgaram os números dos homicídios de mulheres no Brasil com espanto e horror!

Mas na realidade não é nada disso. Os números são claros, já as interpretações...quanta diferença. O Brasil tem uma taxa de homicídios de 26.2 por centena de milhar. Vamos arredondar para os números (no caso 25) para facilitar a explicação. 25 em 100.000 corresponde a 1 chance em 4.000.

Não é um número bonito, mas vamos dar uma olhada com mais detalhes.
  • No caso da cor: Brancos tem índice de 3 a cada 20.000 enquanto Negros de 7 a cada 20.000.
  • No caso do gênero: Homens tem índice de 9 a cada 25.000 enquanto Mulheres de 1 a cada 25.000.
  • No caso de idade: Jovens tem índice de 1 a cada 2.000 enquanto Não Jovens de 1 a cada 5.000
Tudo isso pode ser sumarizado nas probabilidade condicionais.
  • p(Negro |  Homicídio ) = 2.33 *p(Não Negro |  Homicídio)
  • p(Homem |  Homicídio ) = 9* p(Mulher |  Homicídio )
  • p(Jovem |  Homicídio ) = 2.5 * p(Não Jovem |  Homicídio )
No entanto, p(X | Homicídio) (a probabilidade de ser X dado que foi morte por homicídio) é diferente de p(Homicídio| X) (a probabilidade de morte por homicídio dado que ser X). Então para enxergar a coisa do modo correto temos de usar o Teorema de Bayes. No caso da mulher:

p(Homicídio | Mulher) = p(Mulher | Homicídio) * p(Homicídio)/p(Mulher)

Mas estamos interessados não exatamente nisso, mas na relação entre os casos Homens versus Mulheres. No caso:
p(Homicídio | Mulher)/p(Homicídio | Homem) = [p(Mulher | Homicídio) * p(Homicídio)/p(Mulher)]/ [p(Homem | Homicídio) * p(Homicídio)/p(Homem)] =[p(Mulher | Homicídio) * p(Homem)]/ [p(Homem | Homicídio) * p(Mulher)] =[p(Mulher | Homicídio)/p(Homem | Homicídio) ]  * [p(Homem)/p(Mulher)]

Fazendo as contas:
p(Mulher| Homicídio)/p(Homem| Homicídio) = 1/9
p(Homem) = 0.49
p(Mulher) = 0.51

Então chegamos a p(Homicídio | Homem ) = 9.4* p( Homicídio  | Mulher)

No caso do Negro, a situação é mais emblemática. A questão é se consideramos Negro como Pardo + Negro (50% da população) ou somente Negro (8% da população). A verdade é que as respostas são diferentes:

p(Homicídio | Negro)/p(Homicídio | Não Negro) = [p(Negro | Homicídio)/p(Não Negro | Homicídio) ]  * [p(Não Negro)/p(Negro)]

Caso de 8%:
p(Homicídio | Negro) = 27 * p(Homicídio | Não Negro)
Caso de 50%:
p(Homicídio | Negro) = 2.33 * p(Homicídio | Não Negro)

Então, temos de enxergar as coisas em perspectiva: dos quase 50.000 homicídio de 2010, cerca de 46 mil foram de homens e 4 mil de mulheres. Ou seja, se dividirmos pelo número de horas em um ano teremos que enquanto morre 1 mulher a cada 2 horas (em média), morre 1 homem a cada 12 minutos.

O problema é que isso é politicamente incorreto.

Neste mesmo assunto, um detalhe na notícia me chamou a atenção:
El Salvador lidera o ranking, com taxa de 10,3 vítimas para cada 100 mil mulheres. Na frente do Brasil ainda aparecem Trinidad e Tobago (7,9), Guatemala (7,9), Rússia (7,1), Colômbia (6,2) e Belize (4,6).
Com taxa zero, Marrocos, Egito, Bahrein, Arábia Saudita e Islândia estão na outra ponta do índice de homicídios entre as mulheres.
Zero? A Islândia vá lá, mas e o resto? Nenhuma mulher no Egito, Marrocos, Arábia Saudita e Bahrein foi assassinada em 2010? Só homens?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Greve, greve, e mais greve...

Novamente os professores estão de greve na UnB. Eu sou professor e não estou de greve.

Logo não são todos os professores que estão de greve.

Aliás suspeito que o número será pequeno desta vez. A verdade é que ainda não sei por que motivo para ter greve. O governo está negociando, o salário não está tão ruim assim (pelas minhas contas, com mais 5.3% teríamos reposição completa da inflação de 1998 até hoje - já contando os 4% de aumento).

Mas tenho minhas suspeitas: não tem nada a ver com os interesses dos professores.

Na realidade, já me explicaram quais seriam as razões, mas como só tenho informações parciais, eu prefiro ter mais detalhes. Ah, sim... as explicações confirmam que não tem nada a ver com o interesse dos professores.

No entanto, não creio que as pessoas que tomaram a decisão pela greve tem todas as informações. Suspeito que tomaram a decisão baseado no conjunto restrito de informações que foram fornecidas na hora.

Neste ponto de vista, concordar cegamente com o que um dos lados fala é bastante natural para a maioria das pessoas. Infelizmente é um tanto que imperdoável para alguém que busca conhecimento e a verdade (como um professor deveria fazer). Mas sabemos que esta definição de professor não serve para muita gente mesmo, não?

Minha suposição é que nem é esse o motivo. Minha suposição é que essa decisão foi tomada apenas emocionalmente. O que termina sendo ainda pior, para alguém que deseja essa busca de conhecimento, verdade e tal...

Talvez eu esteja sendo injusto. Mas uma coisa eu não vou mais ser: não vou ficar calado como fiz no caso da URP a respeito de barbeiragens sindicais. Eu fiquei sem muita paciência para este tipo de corporativismo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

E quando o Interlocutor é doido?

Claro que o interlocutor não é doido (ou pelo menos acho eu). Mas a simulação de atitudes irresponsáveis, irreais, mas pecaminosamente sedutoras pode ser usada como tática de debate.

Da mesma forma que a distração (misdirection é o termo mais exato), a criação de uma explicação perfeita ou de uma denominação perfeita, porém falsa, pode funcionar como uma forma de conduzir o debate para o lado que se deseja.

Com este comportamento aparentemente irracional, o debatedor pode escapar de ser encurralado porque simplesmente apresenta seus argumentos como age com um bêbado indo de um lado para outro aleatoriamente. Isto confunde o debate e torna-o menos racional - mas até divertido para um espectador fã de futebol (ou artes dramáticas), mas não de lógica.

Por que estou falando isto? Porque as assembleias de professores que já fui são cheias desses exemplos. As pessoas que descrevo não estão lá para fazer sentido, mas para fazer vencer seus interesses. Os discursos tem pouca racionalidade e com isso frequentemente cometem erros básicos: tentam criar sempre um "inimigo comum" (a tática de união mais antiga que existe, provavelmente).

Mas ao fazer isto, ao inventar um inimigo, estas pessoas acabam revelando a si mesmas. Como o inimigo é imaginário,ou se tem muito pouca informação a respeito, então a solução é completar as lacunas com o que se tem. No caso destes interlocutores, frequentemente eles completam os vícios do inimigo imaginário com seus próprios vícios.

O problema é que as pessoas não enxergam isso. Ou não querem enxergar, não sei...

Caso em questão: o pedido de suspensão de calendário acadêmico na UnB.

Qual o problema? Bem, a greve começou nesta segunda-feira (21/05/2012). Já estão pedindo a suspensão do calendário acadêmico?

Em outras greves isto só acontecia depois de várias semanas.

Por que então o pedido no segundo dia de greve?

Minha suspeita é que a adesão está bastante baixa. Como divulgar isto em público atrapalha os objetivos da greve, a ordem é dizer que as assembleias estão "levantando a massa". Mas se isso está acontecendo, então por que pedir a suspensão do calendário com apenas um dia de greve?
Foto da Agência UnB
Resposta? Forçar os professores a encarar a greve: seja aderindo (o que é desejado), ou lutando fortemente contra ela.

Suspeito que há um risco grande de o tiro sair pela culatra.

Idealismo Ingênuo

Não pensem os leitores que somente os alvos de minhas críticas sofrem de problemas para lidar com a realidade (ou seja, estou sendo bonzinho e chamando todos de bem intencionados irrealistas).

Assim como muitos, eu também sofro de idealismo ingênuo.

O meu idealismo particular mais intenso é sobre segredos, ou melhor sobre a ausência dos mesmos. No meu idealismo o mundo, e as pessoas, não deveriam ter segredos. Bom pelo menos, o que se diz com finalidade pública não deveria ter segredos.

Claro que é tolo, eu sei. Claro que é contra a natureza humana, eu sei.

Mas os segredos ao mesmo tempo que dão vantagem, também aprisionam e envenenam. E pior, dão margem para a fofoca, para a especulação e por vezes a mentira deslavada mesmo.

Há algo que gostaria de ver acontecer: observar a história ser contada como realmente foi, sem as polarizações ideológicas. E não venha com o papo de não tem história sem ideologia - faça um favor a você mesmo e a humanidade: leia de verdade o Manifesto Comunista (de verdade mesmo, não é só dizer que leu. Não, também não é ler somente a resenha). Olha, vou facilitar: aqui ele está em pdf e aqui em html. Depois podemos debater sobre esta conversa mole de história com ideologia.

O problema dos segredos na história é que eles atrapalham entender como as coisas aconteceram. Como se já não bastasse a polarização ideológica, o desaparecimento natural de evidências e as diversas versões, ainda temos de conviver com segredos.

Neste ponto eu sou plenamente favorável ao fim do sigilo eterno. Mais ainda, creio que as ações de governos passados (inclusive o militar) devem ser esclarecidas e se possível divulgadas. Não é o caso de se abrir processos, mas de divulgar mesmo.

Só assim poderemos ter certeza do que é verdade e o que é falsidade em livros como Memórias de um Guerra Suja.
Ah, e só para deixar claro: também sou favorável a divulgar informações históricas de partidos, associações, grêmios e tudo mais que se diz público - inclusive da história de ex-guerrilheiros.
Então vá lá... Já que não dá para ter um mundo sem segredos, vamos pelo menos ter um mundo sem segredos eternos...