Comecei a ler nesta semana a obra máxima de
Karl Marx -
O CapitalNo momento terminei de ler o primeiro capítulo. Falta muito para avançar ainda. Devo dizer que estou surpreso e um tanto quanto impressionado.
A supresa é pelo tamanho da obra. São três partes que foram divididas em seis volumes. Creio que no total devem ter algo em torno de umas 4 mil páginas. Mas isto eu confirmo no final.
Estou impressionado pois tal volume de informações certamente demandou um esforço gigantesco por parte de Marx na elaboração e finalização. E tiro meu chapéu para isto.
Certamente o volume desta obra fez com que muitas pessoas desistissem de ler a mesma e passassem para ter sua informação fornecida por sumários ou interpretações. E isto explica muita coisa.
De modo similar, a forma de escrita de Marx é um tanto quanto difícil de acompanhar. Para explicar um tópico, ele faz giros e volteios - alguns sem sentido, e outros apenas para destilar o fato que tinha um grande conhecimento.
Claro que estou sendo um tanto quanto parcial, afinal pode ser que este estilo fosse perfeitamente aceitável e bastante popular na época da escrita.
Mas não posso negar que sinto uma certa prolixidade e repetitividade no texto até o momento.
O capítulo que li trata do valor, mais especificamente do valor da mercadoria. E isto é algo que me interessa de forma muito profunda. Afinal, pelos meus escritos anteriores deve ter ficado claro que o processo de determinação do valor de troca de uma mercadoria é algo ainda misterioso para mim.
Boa parte do capítulo trata da diferenciação do valor de uso e valor de troca. Isto é mostrado de forma bem abundante e um tanto repetitiva (como já mencionei anteriormente). Ele mostra a questão da equivalência entre as mercadorias em termos do trabalho humano realizado nelas. Devo dizer que imediatamente me lembrei de
Adam Smith e suas disgressões na
Riqueza das Nações.
Não que o texto de Marx estivesse contrário a Smith, muito pelo contrário. Mas mesmo assim, Marx apresentava como se fosse seu e de mais ninguém. Isto apesar de Smith falar em pontos muito similares.
Francamente a analogia de "20 metros de linho = 1 casaco" foi tocada a exaustão.
E isto tudo porque o valor era determinado pelo trabalho necessário para manufatura da mercadoria (commodity). E o trabalho necessário define o valor de troca da mercadoria.
No entanto, vejo dois problemas com este tipo de análise.
Em primeiro lugar é perfeitamente natural que o trabalho necessário para manufatura (ou colheita, ou qualquer coisa) seja UM dos principais componentes na determinação do valor da mercadoria. Mas infelizmente, não adianta absolutamente nada o manufator achar que sua mercadoria vale X se não existir com quem negociar.
Portanto o valor SOCIAL da mercadoria só pode ser efetivamente determinado frente ao processo de troca. O valor individual é neste caso irrelevante - ele já está contido no trabalho necessário para manufaturar a mercadoria.
O que indica que a determinação do valor se faz mediante uma interação entre o comprador e o vendedor. Provalmente a determinação do trabalho realizado na confecção da mercadoria é o ponto de partida do vendedor, mas nem de longe é o único fator que determina a troca.
O segundo problema é que o trabalho é definido como trabalho humano. E o que acontece com as máquinas e os processos que causam aumento de produtividade e tudo mais?
Mas a bem da verdade, pode ser que estes pontos sejam discutidos mais a frente.
Outro ponto interessante do capítulo é sobre o fetichismo da mercadoria. Em sumário, Marx afirma que há uma dissociação entre o valor de uso e o trabalho necessário para manufatura da mercadoria.
Este pedaço soou mais como uma espécie de profecia auto realizadora do que outra coisa. Algo do tipo "O valor da mercadoria é resultado do trabalho humano, as pessoas não levam em conta isto nas trocas PORTANTO as pessoas esqueceram que o valor da mercadoria é resultado do trabalho humano"
Lindo né? Mas quem disse que o valor da mercadoria É EXCLUSIVAMENTE determinado pelo trabalho humano? Ah, este pedaço fica pendurado no meio do raciocínio.
Na minha humilde visão o valor de troca da mercadoria é determinado por uma função da qual compõe o COMPRADOR (B) e o VENDEDOR (S). O valor de troca INEXISTE antes das operações envolvidas na troca propriamente dita.
O vendedor tem um preço V(S) determinado pelos seus custos na aquisição/manufatura da mercadoria.
O comprador tem um preço V(B) determinado pela sua percepção do valor da mercadoria.
Se V(B) é maior ou igual a V(S) então a troca é realizada, caso contrário a troca não é realizada. O valor da mercadoria será V(B) caso a troca seja realizada ou zero caso a troca não seja realizada.
Claro que o preço é simplesmente a taxa de conversão da mercadoria para moeda e o valor é o valor de troca.
Mas existem alguns pontos interessantes aí:
- O menor preço possível para que a troca seja realizada é V(S). Será que isto quer dizer que o valor na aquisição/manufatura da mercadoria determina em última análise o valor da venda?
Sim e não.
Se existirem vários vendedores e um comprador temos caracterizada um situação de competição entre os vendedores para obtenção de um único recurso: o instrumento de troca do comprador. Nesta situação é bem possível que o valor da troca seja determinado pelo menor V(S) do mercado. Claro que existem situações como cartéis e afins, mas se não houver acordo prévio entre os vendedores então, dadas mercadorias cuja percepção de valor seja igual por parte do comprador, o menor V(S) é o que realiza a troca. Neste caso a percepção de valor dos vendedores é que determina o valor da troca.
Se existirem vários compradores e um vendedor, então o maior V(B) (que tem de estar acima de V(S)) é o que realiza a troca. Neste caso a percepção de valor dos compradores é que determina o valor da troca.
E aí temos novamente a velha questão entre oferta e demanda tão bem discutida por Smith. Portanto o valor de troca não é simplesmente determinado pelo trabalho em si. Mas o trabalho é um fator na determinação do valor de troca.
- Mas a determinação da percepção do trabalho no valor da mercadoria não é um ponto importante e quiça fundamental na teoria do valor?
Sim, mas...
As pessoas envolvidas no processo de manufatura estão realizando o trabalho em troca de alguma compensação. Esta compensação pode ser na forma de mais poder de troca (money) ou algo equivalente. De qualquer maneira, quem possui capital necessário para realizar a manufatura deve antes de mais nada se perguntar se não existe outra maneira mais simples e barata de conseguir mais capital. Então este fator TEM de ser levado em consideração na determinação do valor da mercadoria.
Mas são só impressões que tive até agora. Vamos ver o próximo capítulo