sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Sobre seriados de televisão

Bem, tenho de colocar duas opiniões impopulares aqui:

1) Adorei o fim de Game of Thrones
2) Estou adorando Watchmen

Como não posso simplesmente escrever isso e deixar como uma bomba vou gastar um pouco de tempo explicando o porque de cada um.

Primeiro Game of Thrones

Quem não viu o final, bem devo dizer que vou revelar alguns detalhes. No final Daenerys massacra toda uma cidade devido ao seu estado mental. E o massacre ocorre depois da cidade se render. E como que para provar que tudo foi premeditado, suas forças matam todos os soldados inimigos sobreviventes.

Muita gente ficou com raiva deste final.

Mas francamente é perfeito: está totalmente de acordo com o personagem e com o conceito do "tirano que faz tudo pelo bem da humanidade/povo/raça". E isso é um tema comum na história, e muita gente cai ainda hoje na estória da carochinha do tirano. Stalin, Mao, Guevara, Hitler, Pol Pot e muitos, muitos outros. E Daenerys era exatamente isso: uma tirana fazendo tudo pelo "bem maior".

Muito curioso que estes nunca pensem em dar fim própria vida constituiria um "bem maior". O conceito de sacrifício é sempre uma espécie de cálculo para o ganho futuro. E sempre que possível, o sacrifício deve ser de outros.

Isso foi perfeito: eu torci pela Daenerys até o momento que vi o massacre. E nesse momento, vi que essa ação não foi fruto de um momento de loucura: mas algo sistemático ao longo de toda a trajetória. Só que ela fazia para outros que tinham comportamento de vilões.

E quanto a Watchmen?

Bom, a série ainda não terminou. Mas é claro que o tema de mocinhos e bandidos que os quadrinhos tão bem descontruiram está presente. E no caso são os racistas versus não racistas.

Eu imagino que no fim os não racistas irão fazer algo inacreditavelmente cruel e ruim com os racistas. Mesmo que, nesse caso, os racistas não tenha culpa direta...

Vamos ver

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Aconteceu tanta coisa

Pois é, depois da minha última postagem aconteceu tanta coisa.

É difícil até se atualizar a respeito...

E isso é um problema: a enxurrada contínua de notícias impede qualquer análise aprofundada.

Isso é estratégia de comunicação: inunde o adversário com um mar de notícias (algumas relevantes, outras nem tanto).

O problema é que o adversário pode fazer algo parecido. Criar factóides não é privilégio de ninguém.

Mas tudo isso tem um preço: erode a credibilidade e impede a análise sem paixões.

Em suma, é uma ferramente para uma erra de extremos

terça-feira, 30 de abril de 2019

Venezuela em Chamas

A situação na Venezuela piorou um pouco mais hoje

Não há muito como apoiar o goveno de Nicolas Maduro.

Exceto se for petista ou psolista.

Sei que é inacreditável, mas é verdade - esses links são das páginas respectivas.

Eu também acreditei neles.

Mas não mais...

Eu me pergunto se esses links vão sumir misteriosamente em um futuro próximo.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Incêndio em Notre Dame

Na última semana ocorreu um grande incêndio na catedral de Notre Dame.

Eu estive lá anos atrás e achei uma pena o que ocorreu. Muito triste mesmo.

Um ponto positivo foi que diversas pessoas e organizações anunciaram que iriam contribuir para reconstrução com doações. Isso é boa notícia, pois a catedral vinha sofrendo bastante com baixo financiamento para sua manutenção e reconstrução.

Mas meu ponto é outro: a reclamação nas mídias sociais que o Museu Nacional não teve a mesmo entusiamo nas doações.

Bem, o fato do museu nacional não ter tido tantas doações é bastante triste, mas não é inesperado.

Temos diversos problemas aqui.

Um deles é que o mecanismo de doações para instituições do governo desestimula a fazer qualquer tipo de doação. Já tive experiência com isto e francamente, doar pode virar dor de cabeça para o doador e para quem recebe.

Há um outro fator que é a desconfiança: a maioria dos brasileiros vê com desconfiança que doa e faz propaganda a respeito. Isto desestimula doadores do tipo empresas que querem justamente a visibilidade que a doação traz.

E por fim: Notre Dame tem 800 anos - é mais velho até que o país que vivo. Funciona como patrimônio da humanidade inteira e é visitado por pessoas dos mais diferentes lugares (12 milhões por ano).

E isso é muito mais do que se pode dizer do Museu Nacional do Rio (192 mil por ano no pico).

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Liberdade de Expressão: Vale o que afinal?

Bem, aqui na terrinha as coisas andam mais estranhas do que de costume.

Neste semana o Supremo Tribunal Federal resolveu multar uma revista em R$ 100 mil diários devido a uma notícia que compremetia um dos membros da corte.

A razão foi a mensagem que o tal membro da corte enviou para outro membro da corte. Em resumo, o argumento é que a notícia é "Fake News" e portanto deve ter sua disseminação coibida.

O problema é: a notícia não é falsa.

E mais ainda: o documento que comprova que a notícia não é falsa foi retirado do processo original (aparentemente de modo ilegal - vide aqui).

Então, há uma confusão armada. Os doutos da lei foram pegos de calças curtas, e ao invés de voltarem atrás, resolveram dobrar as apostas.

Há várias lições a serem aprendidas aqui.

A primeira é que se deve ter muito cuidado com a ideia de se controlar o que é fake news ou não. O melhor é indicar para as pessoas como identificar, os efeitos que pode ter e suas consequências. Afinal, se não podemos confiar no julgamento das pessoas, então em quais julgamentos poderemos confiar?

Designar o que é fake ou não é algo complicado. Astrologia, poder das pirâmides, poder dos cristais e coisas fins são fake news? Estritamente falando são, mas ao mesmo tempo podem ser vistas como formas de entretenimento.

A ideia de controlar o que as pessoas tem acesso e o que consomem é algo bem mais complexo do que era no passado. O monopólio da informação não é mais o mesmo. E isso é algo que certos "doutos" não conseguiram entender ainda. É muito fácil que a alcunha de "Fake News! seja usada indiscriminadamente como uma forma velada de censura.

Segundo: não há nada errado em admitir que errou. O problema, como já disse antes, é uma vez conhecido o erro, o que se faz a partir disto... Geralmente, a vaidade ou a noção de auto-importância criam entraves para admissão do erro nestas situações. E isso é ruim.

Terceiro: reputação é algo que se constroi com o passar dos anos. Destruição de reputação é algo que se consegue em minutos;

Mas, duvido que os envolvidos entendam (ou queiram entender isso)

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Normalidade anormal

Bem, passados muito tempo após a eleição, eu estou de volta.

E como já havia mencionado em postagem anterior, a eleição não eliminou as diferenças.

Muito pelo contrário: as acirrou...

Em vista disso creio ser importante caracterizar a polêmica atual: a previdência social.

Eu vejo alguns debates honestos e alguns debates desonestos.

A verdade é que o sistema de previdência atual caminha para insustentabilidade. Creio até que já mencionei isso em posts anteriores.

E a aprovação da atual proposta não acaba com o problema, apenas o posterga. Fala-se sobre a mudança para o regime de capitalização como a panacéia para o problema.

Bem,  problema é do país, de como ele funciona e das pessoas que vivem aqui.

Qualquer que seja a solução, a mesma será desvirtuada (e roubada) como aconteceu com o sistema de pensões das estatais

Dinheiro na mão é vendaval!!!

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Eleições e o Humor do País

Bem, a verdade é simples: as atuais eleições destroem o humor e a sanidade de qualquer pessoa.

Infelizmente, devido a estratégias baseadas em polarização, não há mais como debater. O que temos são apenas conjuntos de monólogos

O culpado disso foi, como já era de se esperar, o PT.

Durante muitos anos, o PT se baseou em campanhas polarizadas, desumanizando seus adversários, e mesmo quem os apoiava.

Era questão de tempo até que aparecesse um adversário que utilizaria as mesmas estratégias.

E fez isso de modo muito melhor que o PT.

Mas não se engane, caro leitor, qualquer que seja o vencedor, a contagem dos votos não vai encerrar a disputa.

Nossa paciência e sanidade terão de se segurar durante muito tempo.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Mais valia mais uma vez...

É impressionante...

As pessoas caem nas mesmas histórias absolutamente toda vez. A de sempre, é claro, é sobre a mais valia.

Essencialmente, as pessoas leem e não pensam. Bem, a verdade é que não fazem perguntas...

Vamos a um dos ofensores mais repetidos: Operário em Construção de Vinícius de Moraes:

Vamos ao texto:

"Era ele que erguia casas 
Onde antes só havia chão. 
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as casas 
Que lhe brotavam da mão. 
Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão: 
Não sabia, por exemplo 
Que a casa de um homem é um templo 
Um templo sem religião 
Como tampouco sabia 
Que a casa que ele fazia 
Sendo a sua liberdade 
Era a sua escravidão. 

De fato, como podia 
Um operário em construção 
Compreender por que um tijolo 
Valia mais do que um pão? 
Tijolos ele empilhava 
Com pá, cimento e esquadria 
Quanto ao pão, ele o comia... 
Mas fosse comer tijolo! 
E assim o operário ia 
Com suor e com cimento 
Erguendo uma casa aqui 
Adiante um apartamento 
Além uma igreja, à frente 
Um quartel e uma prisão: 
Prisão de que sofreria 
Não fosse, eventualmente 
Um operário em construção. 

Mas ele desconhecia 
Esse fato extraordinário: 
Que o operário faz a coisa 
E a coisa faz o operário. 
De forma que, certo dia 
À mesa, ao cortar o pão 
O operário foi tomado 
De uma súbita emoção 
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa 
- Garrafa, prato, facão - 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão. 

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento! 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara 
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava. 
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão 
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela. 

Foi dentro da compreensão 
Desse instante solitário 
Que, tal sua construção 
Cresceu também o operário. 
Cresceu em alto e profundo 
Em largo e no coração 
E como tudo que cresce 
Ele não cresceu em vão 
Pois além do que sabia 
- Exercer a profissão - 
O operário adquiriu 
Uma nova dimensão: 
A dimensão da poesia. 

E um fato novo se viu 
Que a todos admirava: 
O que o operário dizia 
Outro operário escutava. 

E foi assim que o operário 
Do edifício em construção 
Que sempre dizia sim 
Começou a dizer não. 
E aprendeu a notar coisas 
A que não dava atenção: 

Notou que sua marmita 
Era o prato do patrão 
Que sua cerveja preta 
Era o uísque do patrão 
Que seu macacão de zuarte 
Era o terno do patrão 
Que o casebre onde morava 
Era a mansão do patrão 
Que seus dois pés andarilhos 
Eram as rodas do patrão 
Que a dureza do seu dia 
Era a noite do patrão 
Que sua imensa fadiga 
Era amiga do patrão. 

E o operário disse: Não! 
E o operário fez-se forte 
Na sua resolução. 

Como era de se esperar 
As bocas da delação 
Começaram a dizer coisas 
Aos ouvidos do patrão. 
Mas o patrão não queria 
Nenhuma preocupação 
- "Convençam-no" do contrário - 
Disse ele sobre o operário 
E ao dizer isso sorria. 

Dia seguinte, o operário 
Ao sair da construção 
Viu-se súbito cercado 
Dos homens da delação 
E sofreu, por destinado 
Sua primeira agressão. 
Teve seu rosto cuspido 
Teve seu braço quebrado 
Mas quando foi perguntado 
O operário disse: Não! 

Em vão sofrera o operário 
Sua primeira agressão 
Muitas outras se seguiram 
Muitas outras seguirão. 
Porém, por imprescindível 
Ao edifício em construção 
Seu trabalho prosseguia 
E todo o seu sofrimento 
Misturava-se ao cimento 
Da construção que crescia. 

Sentindo que a violência 
Não dobraria o operário 
Um dia tentou o patrão 
Dobrá-lo de modo vário. 
De sorte que o foi levando 
Ao alto da construção 
E num momento de tempo 
Mostrou-lhe toda a região 
E apontando-a ao operário 
Fez-lhe esta declaração: 
- Dar-te-ei todo esse poder 
E a sua satisfação 
Porque a mim me foi entregue 
E dou-o a quem bem quiser. 
Dou-te tempo de lazer 
Dou-te tempo de mulher. 
Portanto, tudo o que vês 
Será teu se me adorares 
E, ainda mais, se abandonares 
O que te faz dizer não. 

Disse, e fitou o operário 
Que olhava e que refletia 
Mas o que via o operário 
O patrão nunca veria. 
O operário via as casas 
E dentro das estruturas 
Via coisas, objetos 
Produtos, manufaturas. 
Via tudo o que fazia 
O lucro do seu patrão 
E em cada coisa que via 
Misteriosamente havia 
A marca de sua mão. 
E o operário disse: Não! 

- Loucura! - gritou o patrão 
Não vês o que te dou eu? 
- Mentira! - disse o operário 
Não podes dar-me o que é meu. 

E um grande silêncio fez-se 
Dentro do seu coração 
Um silêncio de martírios 
Um silêncio de prisão. 
Um silêncio povoado 
De pedidos de perdão 
Um silêncio apavorado 
Com o medo em solidão. 

Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição 
Um silêncio de fraturas 
A se arrastarem no chão. 
E o operário ouviu a voz 
De todos os seus irmãos 
Os seus irmãos que morreram 
Por outros que viverão. 
Uma esperança sincera 
Cresceu no seu coração 
E dentro da tarde mansa 
Agigantou-se a razão 
De um homem pobre e esquecido 
Razão porém que fizera 
Em operário construído 
O operário em construção."

Aqui cabem algumas colocações, sendo a primeira a mais óbvia: é nessa lógica que a maioria dos não iniciados aprende sobre mais valia.

Vamos ao mais óbvio em seguida: este poema foi escrito por alguém que se encaixava com tranquilidade na descrição dos 0.1% mais ricos do país. Uma pessoa educada, viajada, e com círculo de amizades na elite do país. Esta pessoa não era, sob qualquer definição da palavra, um proletário.

Bem, e aí vamos ao menos óbvio: as matérias primas são transformadas em bens e serviços por um número enorme de pessoas. A enorme maioria destas recebe compensação pelo trabalho realizado na forma de um salário ou benefício.

Se o mesmo é justo ou não, talvez seja motivo para debate. Mas o fato é que não há apenas um trabalhador responsável. O tijolo, o pão e a manufatura são feitos através de uma cadeia de produção. E esta inclui empresários (alguém que arranja o dinheiro para comprar a matéria prima para o bem em questão). A matéria prima para manufatura, assim como trabalho da manufatura, não surge do nada sem custo associado.

E naturalmente, há a questão dos equipamentos necessários para produção dos bens. Ao contrário do que é dito, os mesmos tem um custo associado. Mesmo o camarada do tijolo precisa da pá, da colher, do forno, do combustível e do local para realizar o processo de manufatura. Nada disso é grátis.

E claro, há a figura do patrão. Aqui ele se comporta mais como um antagonista ao operário do que alguém que cuida para que o processo funcione. Isso pode ser legal em narrativas de bem contra o mal, mas não corresponde ao real (lembro ao leitor, que este papel é, por vezes, atribuído ao Estado - que por sua vez age como representante do povo, do qual faz parte o próprio operário).

E, não menos importante, há a questão da demanda pelo bem manufaturado. É o problema da venda, que como qualquer vendedor pode confirmar é, em grande parte, aleatório. As pessoas podem ou não comprar o bem.

Claro que há desculpas: a narrativa é mais alegórica do que real, o poema trata da classe trabalhadora como um todo colocando um operário como protagonista... e assim por diante. Porém, mesmo usando alegorias e tudo mais, a conta não fecha.

E é isso que realmente importa: para haver lucro a conta tem de fechar. O preço de venda tem que levar em conta o trabalho do operário, os equipamentos envolvidos, o custo da matéria prima e a incerteza da venda.

O poema tem beleza. Mas não é uma descrição da realidade.